Tudo se transforma

Escolas conscientizam alunos para o consumo responsável, mas ainda falta muito para a educação ambiental se desenvolver.

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Carmen Guerreiro





 




Todos os dias, 228.413 toneladas de lixo são coletadas em 5.471 dos 5.507 municípios brasileiros, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2000. Cerca de 62% (141.557,8 toneladas) são produzidos apenas pela região Sudeste. Entre os 8.381 distritos do país, 71,5% jogam seus resíduos em depósitos a céu aberto, mais conhecidos como “lixões”; 49,2% os destinam também a aterros (controlados, sanitários ou especiais) e apenas 7% reciclam parte de seu lixo.





De acordo com estatísticas de 2004 do Cempre (Compromisso Empresarial para Reciclagem), o município de São Paulo recicla 1.170 toneladas de lixo por mês, ou seja, aproximadamente 0,19% do total de resíduos produzidos. Porém, dados do IBGE mostram que cerca de 9.930 toneladas de materiais descartados chegam mensalmente às estações de triagem da cidade, o equivalente a 1,6% do total.




O lixo a céu aberto, destinação dos resíduos que predomina no Brasil, prolifera doenças, contamina o solo e lençóis freáticos, e atrai animais, além de ocupar um espaço que poderia ser utilizado para outros fins. Uma das alternativas encontradas é construir aterros, ou seja, cobrir com areia os resíduos despejados. Entretanto, essa opção não resolve o problema da falta de espaço, da contaminação e, principalmente, do desperdício. Soluções efetivas para isso seriam os processos de reciclagem, método industrial de reaproveitamento de materiais para a produção de outros produtos, e de compostagem, no qual se enterram restos orgânicos para produzir adubo.



A cidade de São Paulo, por exemplo, tem dois aterros sanitários ativos hoje. A vida útil de cada um é estimada em três anos, explica o economista Jacques Demavorovic, doutor em Educação Ambiental pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. “Chegamos ao problema do lixo porque, na medida em que tivemos um processo de urbanização muito grande, a produção de resíduos se multiplicou”, diz.



A partir da década de 1950, com a industrialização do país, aumentou o uso de alumínio e de plástico. “Até os anos 70, se jogava o lixo em qualquer lugar”, lembra Jacques. “Os governos começaram a perceber uma série de problemas ambientais e para a saúde humana que essa atitude trazia.”



Desde então, a saída passa a ser não só despejar o lixo em terreno aberto, mas construir aterros sanitários. Não se pensava ainda em reciclar ou reduzir ou lixo, pelo menos até a década de 1980. “Nesta data, fora do Brasil, começa-se a pensar que, além de fazer os aterros, seria possível reduzir a quantidade de materiais descartados fazendo a tal da reciclagem”, afirma Jacques.




Por outro consumo
– A reciclagem, porém, não é suficiente para resolver o problema da crescente produção de lixo. Para Jacques, é necessário desenvolver um programa público que incentive a população a consumir de forma diferente – não necessariamente menos – para gerar menor quantidade de resíduos. “Quando vamos a uma videolocadora, por exemplo, normalmente voltamos com o filme, sua caixinha e mais um plástico. No supermercado também. As pessoas estão acostumadas a consumir de forma a gerar mais lixo.”




A solução, para o professor, é agregar custo financeiro à educação ambiental, ou seja, uma campanha de conscientização unida a um imposto sobre o lixo. “É como a questão do ‘apagão’: as pessoas têm de entender que não é simplesmente ‘uma taxa a mais’, e sim algo que tem implicações sociais e ambientais muito graves.”



A educação e a sensibilização do público para essa questão, atreladas ao consumo consciente, necessário para diminuir a produção de lixo, é o foco da capacitação que a consultora em gestão ambiental Gina Rizpah, assessora técnica da SOS Mata Atlântica, ONG sediada em São Paulo (SP), realiza com professores, agentes de saúde e outros grupos, com a finalidade de implantar a coleta seletiva e ensinar valores ambientais.



Apesar de não entrar no mérito do conteúdo pedagógico, Rizpah percebe as dificuldades que os educadores enfrentam na tentativa de criar um projeto de educação ambiental nas escolas. “Na questão da coleta seletiva, é comum os professores reclamarem da resistência da diretoria ou dos funcionários da limpeza”, explica.



Outros desafios na implantação desse tipo de programa seriam dar continuidade ao trabalho com os alunos, ter um lugar para estocar o lixo acumulado e formar uma equipe de monitoramento do projeto para realizar a conscientização permanentemente. Porém, ela afirma que não vê mais justificativas para não se reciclar o lixo: “A primeira coisa que converso com as escolas é: se não existe um programa municipal que recolha o material separado, e não há condições de vender isso, entreguem para catadores.”



O Colégio Santa Maria, localizado na zona Sul de São Paulo, entrega o material separado para a Cooperativa de Coleta Seletiva da Capela do Socorro (Coopercaps). Entretanto, instalar os lixos para a separação é só o começo da transformação. É necessário um trabalho permanente com os alunos, para incentivá-los a mudar de atitude, não só na escola como em casa.



O Santa Maria implementou o programa
Do Lixo ao Luxo

, no qual os alunos da 3ª série do ensino fundamental visitaram a Coopercaps para entender como funciona o trabalho da empresa, e realizarão, no segundo semestre, a
Oficina de Artes e Música

,

utilizando recicláveis para a produção de instrumentos musicais. Além disso, como incentivo ao trabalho, os estudantes criaram tabelas que comparam a quantidade de latas, garrafas pet e embalagens Tetra Pak coletadas pelas classes diariamente. “Eles estão muito envolvidos com o projeto porque são sempre estimulados, e também estimulam uns aos outros”, afirma Tiyomi Misawa, orientadora da 3ª série do EF.







Na sala de aula


— A conscientiza


çã


o de

crianças menores para o problema do lixo pode ser mais difícil. A diretora do Colégio Santo Estevam, Maria José Checcia, mais conhecida como Zela, conta que a forma encontrada para trazer a questão aos alunos de quatro a seis anos foi espalhar, durante o intervalo, lixo pela sala de aula.





“Quando eles entraram e viram tudo aquilo espalhado, ficaram revoltados e começaram a limpar”, conta. A partir de então, a escola levou as crianças para conhecer a Adere (Associação para Desenvolvimento, Educação e Recuperação do Excepcional), na qual deficientes mentais produzem objetos com o papel que eles mesmos reciclam.



Depois da visita, os alunos fizeram brinquedos, como bilboquês, cavalos de pau, petecas de jornal e bumerangues, além de vasos de flores, reaproveitando materiais descartados. “O projeto cresceu e outras classes começaram a trazer lixo reciclável”, diz Zela. A maior parte dos resíduos é encaminhada à Adere diariamente, devido à grande quantidade, mas parte fica na escola, para reaproveitamento em trabalhos de artes.



A idéia de reutilizar objetos descartados nesse tipo de trabalho é a principal atividade do conteúdo pedagógico trabalhada pela EMEI Oscar Pedroso Horta, que fica próxima à divisa entre São Paulo e Osasco. Entre os artistas estudados pelas crianças estão Volpi, Van Gogh, Monet e Tarsila do Amaral. A partir das obras dos pintores, foram feitas releituras usando a técnica do “papel marché”.



A idéia de instalar a coleta seletiva na instituição, porém, surgiu depois de uma palestra ministrada pela Associação Brasileira das Indústrias de Pet (ABPET) sobre a importância da reciclagem, no começo deste ano. “Vamos também incentivar a comunidade local a separar seu lixo e entregá-lo aos catadores do bairro, porque não acredito que seja a função da escola receber esses resíduos”, afirma a diretora, Raimunda Cleis de Sousa. “O lixo, para a população carente, é uma fonte de renda, e por isso vamos orientá-la a usar a reciclagem em seu benefício”, explica a professora Elza Maria Barros.



Vender materiais recicláveis foi a opção que a EMEF Pedro Nava, do bairro Butantã, em São Paulo, encontrou para levantar recursos financeiros para a própria escola. Em 2001, quando surgiu o projeto, o maior desafio foi conscientizar os pais, alunos e funcionários da necessidade de mudança de atitude.



“Começamos com a coleta com o que sobrava na escola, mas depois os alunos começaram a trazer o lixo de casa”, conta a diretora Fujiko Takahashi. “Hoje recebemos poucos resíduos dos estudantes, porque eles vendem o que produzem em sua residência para contribuir com a renda da casa.”



Além da implantação da coleta seletiva, porém, é fundamental abordar o assunto do lixo no conteúdo pedagógico de todas as disciplinas. Esse é o caso do Colégio Santo Américo, que realiza a separação do lixo desde outubro de 1999, e juntou, desde então, aproximadamente 94 toneladas de material reciclável.



Além de tratar da educação ambiental como um tema pedagógico transversal, a escola exibe vídeos, promove palestras de sensibilização para os funcionários, gincanas de coleta de lixo entre os alunos, cursos opcionais a partir da 8ª série do EF e outras atividades com a mesma finalidade. “O trabalho deu muito certo, tanto que os pais dos alunos também se envolveram, começaram a reciclar e a enviar os materiais de casa”, afirma Maria Emília Vieira, coordenadora de gestão ambiental do Santo Américo.




De baixo para cima
– A questão ambiental pode também ser levada para a escola pelos estudantes. No Instituto Educacional Stagium, em Diadema, junto à instalação da coleta seletiva, formou-se uma comissão de alunos com quatro representantes de cada ano, da 5ª série do EF à 3ª série do EM. Este grupo, identificado por
bottons

amarelos no uniforme, vem trabalhando desde maio a conscientização das classes, da educação infantil ao EM, para o problema do lixo e a importância da reciclagem.




Até o final de agosto, já haviam sido arrecadados R$ 613 com a venda de materiais. “Os membros da comissão escolheram algumas instituições de caridade. No final do ano, os alunos vão votar na entidade de que mais gostarem, e o dinheiro será doado”, afirma a diretora, Sônia Pereira. A orientação que o grupo recebe vem dos professores e de pesquisas pessoais. A comissão produziu faixas, cartazes, pequenos livros e folhetos explicativos sobre a reciclagem para os alunos.



“Muita gente não sabe para onde vai o lixo que produzem”, diz Arthur Lima Conceição, 13 anos, membro do grupo. Bianca Marassi de Araújo, 14 anos, complementa: “O objetivo é conscientizar todo mundo. Como nem todos percebem a importância do projeto, fizemos uma competição”. Na gincana, a sala que se envolver mais com o trabalho de reciclagem ganhará um dia no parque temático Hopi Hari. Sobre a transformação na atitude dos estudantes, Sônia é otimista. “Está mudando. Ainda não mudou 100 %, porque nada acontece da noite para o dia, mas já temos ótimos resultados”, diz.




Ecologicamente corretas –
Para a Escola Viva e o Colégio Adventista do Embu das Artes, não bastou incluir educação ambiental no projeto pedagógico: os projetos arquitetônicos das duas instituições também foram inspirados no tema. “Não fazia sentido propor uma questão pedagógica relacionada à preservação se isso não se refletisse no prédio” afirma Sonia Tokitaka, coordenadora de meio ambiente da Escola Viva, localizada no Brooklin, em São Paulo. “O prédio em si também educa. Aqui, os alunos respiram educação ambiental, e por isso têm muito mais estímulo para se mexer.”




As telhas e as mesas e cadeiras do refeitório são feitas de embalagem Tetra Pak reciclada, o chão permite a absorção de água, a estrutura é de madeira autorizada e o piso das salas de aula é feito de resina vegetal. “O cuidado que a escola tem com a reciclagem, porém, não necessariamente garante que nosso aluno tenha sua atitude transformada”, diz Sílvia Viegas, coordenadora geral da Escola Viva. “Por isso, nossa preocupação nessa faixa etária, que tende a se rebelar mais, é trazer essa questão por meio da experiência, da vivência e do estudo”, acrescenta.



O coordenador de 7ª e 8ª séries, Paulo Rota, explica que, neste ano, os alunos partem da pergunta “É possível conciliar desenvolvimento e preservação?” para realizar um trabalho acadêmico, leitura de mundo e da sociedade. A partir de então, são realizadas diversas atividades, como a descida da Serra do Mar a pé até Cubatão. Antes de saírem, foram combinados os critérios de produção do lanche que levariam, de forma a gerar a menor quantidade de lixo possível.



“Por coincidência, tinha uma outra escola lá, que saiu com sacos e sacos de embalagens dos alimentos que eles consumiram, e nós só voltamos com um saquinho pequeno, porque tivemos a preocupação em não gerar os resíduos”, conta Paulo. Em uma outra saída, os estudantes visitaram o aterro sanitário São João, no bairro de Sapopemba.



A atividade consistia em pisar no lixo, fotografar e registrar produtos para tentar identificar o modo de vida das pessoas que descartaram aqueles materiais. “Queria mexer muito com o aspecto asqueroso, nojento de sentir o cheiro do lixo. Quando tratamos disso apenas na sala de aula, a questão parece distante”, argumenta.



A distância da natureza nativa não é um problema para o Colégio Adventista de Embu das Artes, inaugurado no início do ano. A instituição, afastada da cidade, foi construída em uma área verde de 33 mil metros quadrados. O prédio da educação infantil, único pronto até agora, tem tetos de vidro nos corredores e grandes janelas nas salas, para permitir o aproveitamento da iluminação natural.



Além disso, a estrutura foi feita para captar a água da chuva, tratada e reutilizada na própria escola. A alimentação dos alunos é baseada em frutas, verduras e legumes que eles mesmos plantam na horta. “A cantina não vende frituras, chocolates, refrigerantes ou coisas do gênero”, afirma a diretora Marisane.



Em toda a sala de aula existe um lixo seletivo com quatro divisórias, e a consciência da separação está sendo desenvolvida na escola. “Já avançamos bastante com a clientela que veio para cá sem ter esse hábito. No começo do ano, eles misturavam.” Todos os dias, antes de começarem as aulas, os alunos da educação infantil fazem fila, e as professoras perguntam, em uma espécie de grito de guerra: “Vermelho é o quê? Amarelo é o quê? Azul é o quê?”, referindo-se aos lixos.



Marisane acredita que estão no caminho certo: como as crianças passam mais tempo na escola do que em casa, tendem a seguir a instituição como modelo. “Mesmo que eles não concordem, se habituam, e aquilo que se torna um hábito vai para a vida”, acrescenta. Para Paulo, da Escola Viva, não adianta tratar o problema do lixo como tema específico, mas como uma relação da sociedade com o mundo. “Não existe uma hora de conscientização do lixo. Esse discurso moralizante não funciona, isso está diluído nos procedimentos de pesquisa e no processo do trabalho acadêmico.”



Leia mais na versão impressa:

» A peça de teatro que ensina os alunos da rede pública a reciclar;


» As dificuldades que escolas no Vale do Jequitinhonha encontram na implantação de sistemas de reciclagem;

» Entrevista com as pedagogas Mônica Pilz Borba e Patrícia Otero, da ONG 5 Elementos;

» O livro “Lixo, Problema nosso de cada dia”, a referência bibliográfica para trabalhar reciclagem na sala de aula.



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