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A capacidade de mover-se por diferentes áreas, assimilar situações novas e trocá-las constantemente é uma exigência do mercado de trabalho com a qual as escolas precisam aprender a lidar

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O título desta reportagem é um bordão que já deu nome a filme, disco de rock e livro paradidático, e agora ganhou nova roupagem e virou retrato do comportamento dos jovens e símbolo das capacidades que são pré-requisito para o ingresso no mercado de trabalho, especialmente nas grandes corporações. O tom um tanto galhofeiro da expressão foi modernizado por outra, extraída do universo tecnológico: o perfil multitarefa.

Multitarefa, segundo a definição do Dicionário Houaiss, é a "capacidade que possui um sistema operacional de computador de executar mais de um programa simultaneamente". No mundo das grandes corporações, representa a habilidade de o profissional se movimentar em várias áreas, de acordo com as flutuações de empresas com estruturas funcionais cada vez mais flexíveis.

Como diz o sociólogo Richard Sennett em A cultura do novo capitalismo (Record, 196 págs., R$ 32), há nas corporações uma supervalorização das aptidões potenciais dos indivíduos, em detrimento da perícia (ou especialização) em determinada atividade. Ou seja, está em voga a capacidade de mover-se por diferentes áreas, assimilar situações novas e trocá-las constantemente. É, portanto, o molde que as empresas esperam que seja empregado na formação escolar dos jovens.

Termômetro do mundo atual, os jovens na educação básica são reflexos desses valores sociais e apresentam um comportamento cada vez mais inquieto, com tudo o que isso possa ter de bom e ruim. Em sala de aula, são tidos como dispersivos, com a atenção multifacetada e portadores de um excesso de informações não-filtradas, que às vezes mais os confunde que auxilia. Na dúvida entre educá-los ou agradá-los, muitas escolas têm patinado, sem fazer uma coisa nem outra.

De 2000 a 2004, cerca de 1,8 milhão de estudantes concluíram, a cada ano, o ensino médio no Brasil. No mesmo período, o ingresso anual de estudantes nas universidades foi de 1,36 milhão, em média, com elevação de 56,6% de 2000 a 2004 (de 1,03 milhão a 1,62 milhão). O aumento de procura de jovens pelas universidades privadas foi de 63,1%, contra 36,7% nas públicas.
Nas faixas de ingresso mais próximas ao final do ensino médio, o crescimento foi de 59% para estudantes de até 18 anos e 44% para os de 19 a 24 anos. Os números mostram que os jovens – e a oferta de vagas – respondem à maior exigência de qualificação dos recrutadores de emprego.


Mundo do trabalho


Fernando Almeida, da PUC: "Temos de formar para o mundo do trabalho. Se formarmos para o mercado, estaremos formando mercadoria"

Em meio ao que o mercado espera dos jovens e o que eles absorvem da cultura contemporânea, as escolas do ensino básico tentam achar uma forma de criar interesse nos conteúdos da educação formal, modernizar-se e, no caso das instituições particulares, equilibrar-se financeiramente. Muitas vezes, sem se deter na questão de como reagir e dialogar com os novos imperativos sociais.

De acordo com Fernando Almeida, professor do Departamento de Tecnologia da Educação da PUC/SP, para analisar com clareza as relações do ensino básico com o universo do trabalho é preciso dividir as escolas em três grupos. As públicas compõem o primeiro, que Almeida qualifica como um sistema temporariamente esgotado em função do número de crianças absorvidas com a universalização do ensino, mas que irá se "reaprumar ao longo da próxima década".

O segundo é composto pelas escolas particulares de alto nível, que em sua visão têm dado conta de preparar adequadamente os alunos, muito em função do nível cultural dos pais. Por fim, as escolas particulares que dão suporte às exigências de qualificação geradas pelas certificações de qualidade, que pedem mão-de-obra com 2o grau completo. "É uma escola, superficial, rápida, mas que viabiliza essa questão do emprego em empresas de transporte, limpeza etc.", explica Almeida.

Mas há quem identifique essa visão mais pragmática também nos estudantes das escolas de ponta e nas próprias instituições. Segundo Marcelo Ribeiro, professor de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da USP muitos jovens a quem dá orientação profissional querem apenas descobrir algo que os faça ganhar dinheiro: "É um discurso instrumental, que se opõe à realização pessoal".

Ribeiro aponta um quadro de falta de referências, derivado dos novos valores do mundo corporativo, que assola pais, alunos e escolas. Os pais, que são profissionais e espelhos para os filhos, vivem um momento de fragmentação e descontinuidade da carreira.

"Não somos mais o psicólogo, o administrador. Somos aqueles que têm competências. O indivíduo ficou muito responsável pela própria carreira, muito solitário", analisa. E o mundo desse indivíduo, que serve de modelo para os adolescentes, perdeu a força do discurso, lembra o psicólogo. Antes, podia-se dizer aos filhos que, se estudassem, o futuro estava garantido. Agora, eles vêem que os próprios pais estão na berlinda.

No caso das escolas, a busca de novos modelos tem gerado problemas diversos. Um deles é a reprodução da lógica do mercado de trabalho, com muita pressão sobre os estudantes, gerando paralisia, descompromisso ou estresse, segundo Ribeiro.

"Há muitas crianças jogando essa pressão para o corpo, com úlcera ou estresse infantil. A função da escola é preparar o aluno, que pede uma aprendizagem com significação. É preciso adequar as metodologias para satisfazer as necessidades do aluno, que não é mais um simples depositário de conhecimentos", diz Quézia Bombonatto, psicóloga e vice-presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia.

A gana de mostrar modernidade tem gerado outro problema: a incorporação estabanada da tecnologia, colocando-a como um fim em si e não como um recurso de aprendizagem (muitas vezes poderosíssimo).

"A tecnologia traz muitas vantagens, como agilidade, informação. Mas ao mesmo tempo esse processo gera uma zona de conforto que não ajuda no desenvolvimento cognitivo. Ela oferece, mas não faz ir à busca de", avalia Quézia.

Fernando Almeida, cujo departamento na PUC/SP está ligado a uma experiência que busca dar significado ao uso dos meios da educação vai mais longe e critica a noção de professores e tecnologia como "facilitadores da aprendizagem". "O trabalho intelectual é árduo. Dizer que é gostosinho, sabor limão, é falso. Não se pode economizar o tempo próprio da maturação de uma aprendizagem, que é orgânico. Não pode ser simplificado por uma prótese mental, que é o computador. O imediato não se liga com o sagrado", afirma Almeida.

Para aliviar o peso de tal trabalho "árduo", conforto, sedução, atração são referências freqüentes no discurso de muitas escolas e educadores. Para a psicóloga Rosely Sayão, trata-se de uma forma de infantilizar os alunos, gerando um problema que surgirá mais à frente, no mundo do trabalho e na universidade.

"Uma das grandes questões da educação é se a motivação leva ao trabalho ou o trabalho à motivação. Não dá para ignorar o perfil multitarefa dos jovens, mas a escola tem de encontrar um terceiro caminho. Pais e professores dizem que as crianças são hiperativas, mas no videogame são superconcentradas. É preciso disciplinar essa capacidade de concentração não só para o prazer, mas também para o trabalho", defende Rosely.


Adultos em xeque


Rosely Sayão: "Uma das grandes questões da educação é se a motivação leva ao trabalho ou o trabalho à motivação. A escola tem de encontrar um terceiro caminho"

A dispersão dos alunos em classe, a dificuldade de concentração por muito tempo para se aprofundar nos conteúdos, normalmente identificada com a cultura do instantâneo, não é de responsabilidade exclusiva dos jovens. Em muitos casos, estão nos próprios queixosos, pais e educadores (o mundo adulto, enfim), a origem do problema.

Para Rosely, os adultos estão muito indulgentes consigo próprios, tolerantes com seus defeitos e com a indisciplina, que muitas vezes os leva a não conseguir trabalhar, e é isso que passam ao jovem.

Além disso, reclama-se dos adolescentes para que respeitem o que o próprio adulto não respeita, como atesta o uso indiscriminado do celular, no trânsito ou em situações sociais que exigem uma certa liturgia.

Some-se a isso um certo temor de muitos professores de serem rotulados como autoritários e o resultado é uma horizontalização artificial das relações em sala de aula. "A maioria dos alunos vê como difícil a relação com os professores devido à ausência de regras claras e do exercício da disciplina pelos docentes. A maioria apóia a autoridade do professor. Antes, o respeito era baseado no medo. Agora, precisa basear-se em valores positivos, no direito do outro", diz Maria Isabel Leme, professora do Departamento de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade do Instituto de Psicologia da USP.

Ilustram tal assertiva dois trabalhos desenvolvidos por pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Educação da PUC/Rio, sob a coordenação da professora Isabel Lelis – O Ofício do Aluno e o Sentido da Experiência Escolar (2001-2003) e O significado da Experiência Escolar para os Segmentos das Camadas Médias (2003-2005).

No primeiro deles, ao pesquisar qual o sentido da experiência escolar para alunos de 8a série das camadas médias da população em um tradicional colégio carioca, o grupo notou um alto grau de dispersão dos alunos, somado a professores que não sabiam como se posicionar em classe.

Baseada em conceitos da educadora francesa Régine Sirota, a pesquisa estabeleceu duas redes de comunicação presentes em sala de aula: a principal, por onde circulavam as informações pedagógicas, e uma paralela, em que o aluno não estava sintonizado com a fala do professor. Nesta, a dispersão se manifestava por meio de diversas formas: conversas, constantes "passeios" durante as aulas, brincadeiras, contatos corporais (as brigas de brincadeira), desenhos e leituras não relacionadas com a disciplina.

Os níveis mais baixos de dispersão foram verificados em aulas de professores que, segundo a terminologia de Isabel Lelis, tinham bom "manejo de classe". "São aqueles que monitoram a classe o tempo todo, com uma aula ao mesmo tempo expositiva e dialogada, que não abrem mão de sua autoridade como professores", relata.

Em oposição, a pesquisa aponta dois perfis de docentes como os que mais levam à dispersão: o do especialista centrado apenas no conteúdo, que transmite e corrige, sem mobilizar a sensibilidade no trato com os alunos ("um autista"), e o professor "moderninho", que dá atividades, mas não controla nada. Nesses casos, a frustração dos alunos é grande, pois a abordagem dos conteúdos e atividades não tem começo, meio e fim, "não fecha".

Num questionário dado aos estudantes para verificar suas preferências, a pesquisa constatou que eles gostam de que haja cobrança por parte dos professores, que existam formas de controle e sistematização do conhecimento e que diferentes estratégias didáticas sejam adotadas.

Isabel acredita que os professores podem diminuir a dispersão se não se furtarem ao exercício da autoridade, fazendo o "manejo da turma", se controlarem o uso do tempo e se deixarem claro o porquê de utilizarem uma ou outra maneira de trabalhar e a cadeia de tarefas que compete aos alunos.

Em sintonia com a necessidade de a relação com os alunos ter limites claros, Quézia Bombonatto lembra que a relação de vínculo é insubstituível na educação e que a tecnologia não pode substituí-la, mesmo na formação dos docentes. E, nesse aspecto, defende que a escola dedique ao professor a atenção necessária. "O professor precisa de tempo para se reciclar, para preparar as aulas, precisa ser valorizado", diz.

Essa valorização não é tarefa só da escola, mas também do próprio professor. Um dos fatos que mais tem feito os docentes se sentirem em xeque é o volume de informação que os alunos trazem para a escola. Cabe aos professores, no entanto, fazer com que os alunos vejam que informação não corresponde a conhecimento, pois este não prescinde da experiência.

Pela mesma razão, Maria Isabel Leme crê que a escola não deve tomar a dispersão como fato consumado e pautar o ensino por ela. "O processamento em tarefas simultâneas é mais superficial, pela divisão da atenção. Isso pode gerar informação que não se transforma em conhecimento porque não é incorporada ao repertório anterior do indivíduo", explica.


Espaço de crítica e reflexão


Marcelo Ribeiro, da USP: "A escola reproduz a lógica do mercado de trabalho, com muita pressão sobre os estudantes, gerando paralisia, descompromisso ou estresse"

Ou seja: em linhas gerais, o que dizem os educadores é que a escola não deve virar as costas ao mundo do trabalho e às suas necessidades, porém não se trata de um espaço social que deva assimilar os conceitos do momento, até porque muitas vezes eles mudam com uma velocidade que os ciclos de ensino, mais demorados, não conseguiriam acompanhar.

Deve, isto sim, incentivar o espírito crítico e munir os estudantes de elementos que os capacitem a pensar por si próprios.
"A grande questão da escola é formar cidadãos para a sociedade. Formar indivíduos é algo que cabe às famílias. Por isso, ela deve ser um espaço de resistência, de crítica", adverte Rosely Sayão. "Não pode oferecer soluções imediatistas, rápidas e baratas, pois aprendizagem é um processo de civilização", acrescenta Fernando Almeida.

Também associada à autonomia no pensar e no aprender, essa capacidade crítica é apontada como um dos componentes mais importantes na formação, até mesmo pelos recrutadores de profissionais. Ao lado da capacidade de expressão, está entre os atributos requeridos mais ausentes nas seleções de jovens universitários para o mercado.

E, cada vez mais, será elemento de suma importância. Como lembra Marcelo Ribeiro, mesmo que países capitalistas desenvolvidos, como a França, estejam começando a criar políticas para dar mais segurança e estabilidade aos trabalhadores, o modelo antigo de garantias trabalhistas diversas não voltará mais. "As pessoas terão de ser mais autônomas do que antes, terão de assumir o controle de suas carreiras", acredita.

Para que a escola possa prestar um serviço de longo prazo à sociedade e aos indivíduos, alguns caminhos parecem consensuais entre os educadores: o de que os estudantes de hoje querem uma delimitação mais precisa dos espaços e atribuições de alunos e professores nos processos de aprendizagem, que eles trabalham quando enxergam o sentido do que fazem e que seu rendimento e atenção são muito maiores quando trabalham por projetos.

"Os currículos devem ser construídos por projetos, para que as atividades os mobilizem. É preciso trabalhar o compromisso com a sociedade, discutir os problemas pelos quais estamos passando, fazer com que se apaixonem e usar a tecnologia como um complemento", explica Almeida. Para ele, a escola deve formar os alunos para o mundo do trabalho: "Se formarmos para o mercado de trabalho, estaremos formando mercadoria. E a grande característica da mercadoria é a obsolescência".

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