Trilha sonora paulistana

CD resgata música dos povos que em 450 anos ajudaram a construir a maior cidade da América do Sul

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Alexandre Pavan



 


No princípio, quando São Paulo ainda era um mero pátio de terra batida e uma construção precária na qual os padres jesuítas instalaram seu colégio, a música que se ouvia era a dos índios guaranis, de ritmo bem marcado por chocalhos, cantada em uníssono por adultos e, vez por outra, com o acompanhamento de vozes infantis.



Hoje, mesmo 450 anos depois, a mesma música pode ser ouvida, mas não no centro da cidade – afinal, é impossível fazer e ouvir música no meio daquela confusão. A tradição ancestral guarani, na verdade, tenta resistir na periferia, como acontece com a aldeia Tenondé Porá, localizada em Parelheiros.



O grupo indígena e sua música é um dos destaques do CD duplo
Cancioneiro da Imigração

(Akron, R$ 50), uma coletânea que reúne as tradições musicais dos povos que contribuíram para São Paulo se tornar a maior metrópole da América do Sul. Além dos discos, o álbum é complementado por um pequeno caderno ilustrado com a descrição de cada grupo selecionado, com detalhes e informações históricas.



Ali estão, divididos por categorias, as populações formadoras (guaranis, paulistas e afro-brasileiros), as comunidades imigrantes (portugueses, sírios e libaneses, italianos, húngaros, judeus, japoneses, alemães, armênios, poloneses, russos e espanhóis) e os migrantes nordestinos.



“Em geral, o contato com as comunidades fez-se a partir de igrejas ou associações recreativas e culturais”, escreve no encarte do trabalho Anna Maria Kieffer, idealizadora do projeto. “Se, de um lado, esses locais funcionam como centros conservadores da língua e da tradição, por outro, lhes é impossível fugir das múltiplas influências da cidade pluricultural em que operam. Há descendentes de eslavos tocando ao lado de japoneses, japoneses cantando entre russos, árabes ao lado de judeus e de poloneses, afro-brasileiros em formações corais e instrumentais de origem alemã e árabe e, ainda, músicos de ascendência mista em quase todos os grupos.”



O que o álbum tem de revelador não é o fato das tradições terem resistido à mistura – que é inevitável e salutar -, mas a sua sobrevivência frente à esmagadora cultura de massas, que tem seu poder amplificado na metrópole. Em alguns casos, a exemplo dos guaranis, o que sobrou de um provável extenso repertório foi pouco. Outros grupos, como sírios e libaneses, promovem ações comunitárias para evitar que o mesmo aconteça com eles, e enviam seus jovens aos países de seus antepassados para estudar cultura popular ou musicologia.



A conservação de múltiplas manifestações em suas versões originais supera o exotismo – em algumas faixas é possível identificar a influência daquele som estrangeiro na MPB – e dá a São Paulo uma identidade colorida, fazendo com que a cidade não seja apenas um mero amontoado de gente.




*Jornalista e co-autor do livro Populares e Eruditos

Contato
:
apavan@uol.com.br





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