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Como pequenas comunidades do Ceará estão mudando suas realidades ao levar seus jovens para a graduação por meio da metodologia de aprendizagem cooperativa

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Caio Dib
O professor Diogo Duarte voltou para dar aulas em sua cidade

Foi na zona rural de Pentecoste, cidade a 85 quilômetros de Fortaleza, que teve início uma pequena revolução. Comunidades de agricultores se orgulham de, há 18 anos, já terem mandado mais de 500 jovens para a Universidade. Professor formado em química, filho de agricultores, Manoel Andrade é o responsável por iniciar, na região, o modelo de aprendizagem cooperativa que tem permitido essa mudança. Mas gosta de salientar que esse “movimento” envolve “muita gente”. O movimento ao qual Manoel se refere é o Programa de Educação em Células Cooperativas (Prece), projeto com método de ensino-aprendizagem que ajuda jovens a aprenderem com autonomia em estudos em grupo. Passei o dia inteiro conhecendo os resultados do que um dia se chamou Programa Coração de Estudante (“por causa da música do Milton Nascimento”, conta Manoel) e conversei com dezenas de pessoas que formam essa rede de aprendizagem cooperativa que começou em 1994, com a iniciativa do professor Manoel.

> Conheça a história do professor Manoel Andrade, de Raimundo Nonato Furtado e dos alunos que participam da aprendizagem cooperativa

Inspirado em um grupo de estudos que o ajudou a entrar no curso de química na Universidade Federal do Ceará (UFC), quando concluiu os estudos universitários, Manoel decidiu devolver seus conhecimentos à pequena comunidade rural de onde veio: Cipó, próxima à Pentecoste, cidade a 85 quilômetros de Fortaleza.

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Dois anos depois do início do grupo de estudos, o primeiro jovem entrou no curso de pedagogia da UFC, que oferece residência universitária no campus. Nos anos seguintes, seis desses sete jovens já estavam na universidade e continuavam participando dos grupos de estudo para ajudarem outras pessoas. Hoje, são mais de 500 universitários que participaram das células cooperativas.

Responsabilidade
Atualmente apoiado pela Universidade Federal do Ceará, pela Secretaria de Educação do Governo do Estado do Ceará, entre outros, o Prece mostrou que a universidade é uma realidade possível para esses jovens.

A continuidade do projeto que se iniciou em 1994 não aconteceu por acaso. Vários dos que se beneficiaram tiveram o mesmo sentimento de responsabilidade de Manoel e voltaram para compartilhar os benefícios que conseguiram. Um deles é Raimundo Nonato Furtado, que conheci em Jericoacoara (norte do Ceará) e que me apresentou todo o trabalho do Prece.

Nonato também coordena as ações relativas ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) no Prece. Às 11 da manhã, me buscou de carro e seguimos viagem para a Escola Estadual de Educação Profissional (EEEP) Alan Pinho Tabosa, a única escola pública do país com a metodologia de aprendizagem cooperativa. A instituição, inaugurada em 2011, é pública, mas foi inspirada pelo trabalho do programa.

O prédio da escola é totalmente diferente do senso comum de escola pública. Um edifício novo e bem conservado, com vários laboratórios, auditório e biblioteca. Mas a diferença está em seu modelo pedagógico: na metodologia da aprendizagem cooperativa, o ensino-aprendizagem é baseado no trabalho a partir de grupos de estudo. Os próprios estudantes leem o material da aula e debatem entre si. O professor realmente ocupa o papel de facilitador.

“Na educação, quando se trabalha em grupo você ganha mais. O corpo humano funciona como um organismo coletivo, os nossos órgãos trabalham em conjunto. Quando você trabalha assim em educação, o resultado é completamente diferente”, defende Nonato Furtado. A metodologia vai além do conteúdo, tornando a sala de aula um espaço de formação de autonomia, protagonismo e incentivando o convívio social.

Em conjunto
Nonato andava pela escola e cumprimentava vários alunos e professores. A maioria dos educadores da EEEP Alan Pinho Tabosa fez parte dos grupos de estudo do Prece para ingressar na universidade e muitos ainda participam ativamente do programa em paralelo com o trabalho na instituição. O professor de geografia Diogo Duarte fez ensino fundamental junto com Nonato em uma escola pública de Pentecoste e, depois de entrar na faculdade de educação física e ver que não era a carreira que queria seguir, começou a participar dos grupos de estudo do Prece e ingressou no curso de geografia da UFC.

Depois de trabalhar seis anos em escolas com educação “tradicional”, o professor Diogo entrou no primeiro time de professores da recém-inaugurada EEEP Alan Pinho Tabosa, em 2011. “Trabalhar com aprendizagem cooperativa é muito produtivo. Nela, o aluno é incentivado a absorver a maior quantidade de conhecimento possível que o seu igual tem a passar”, conta. Em sua primeira aula no período da tarde naquele dia, os 45 alunos do primeiro ano do curso técnico de aquicultura estavam divididos em grupos de três estudantes que aprendiam em conjunto o tema fuso horário. Depois de dez minutos de aprendizado cooperativo, o professor deu uma pequena explicação contando com a colaboração dos alunos. No fim da aula, todos fizeram um exercício. Se a maioria da sala conseguisse bons resultados na atividade, todos ganhariam uma recompensa no fim do bimestre, como pontos na nota, por exemplo.

Na conversa com alunos e nas minhas observações nos corredores, foi unânime que o relacionamento com os professores e funcionários da escola é um dos pontos fortes da instituição, como diz a aluna Gabriela Dutra. “Muitos passam o intervalo com a gente, não ficam fechados dentro da sala dos professores.”

A quebra do êxodo rural

Mais de 18 anos depois de Manoel Andrade começar a primeira turma de alunos numa casa de fabricar farinha abandonada na comunidade rural de Cipó, a 20 quilômetros de Pentecoste, a metodologia de aprendizagem cooperativa ajudou centenas de jovens não só a ingressarem na universidade. “A aprendizagem cooperativa cria um espaço de formação de protagonismo”, defende o professor Raimundo Nonato Furtado. Nesse modelo pedagógico, os jovens trabalham com diversos valores como responsabilidade social, capacidade de analisar problemas a partir de vários pontos de vista e cooperação. “No projeto, a gente viu uma quebra do êxodo rural: depois que o jovem entrava na faculdade, mudava para a capital, ele voltava para sua cidade de origem para continuar o projeto”, diz Manoel Andrade. Tanto nos grupos de estudo do Prece, quanto na escola técnica estadual inspirada no projeto, vemos alunos com autonomia, organização, possibilidade de ver e debater vários pontos de vista e muitas outras habilidades e competências necessárias na escola, na vida pessoal e na carreira. “Essa escola não é um lugar que você vem aprender sobre os conteúdos formais. A gente vem aprender sobre a vida, a gente vem conviver com as pessoas” diz a aluna Gabriela Dutra.

*Caio Dib é jornalista. Durante cinco meses estará viajando o Brasil para conhecer a realidade das escolas brasileiras. O diário de viagem é publicado no blog “Escolas do Brasil”, da revista Educação. www.escolasdobrasil.blog.br

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