Tiro certo

O escritor Ferréz transforma em literatura cotidiano violento das periferias urbanas e torna-se referência em livros didáticos

Compartilhe
, / 840 0





Flávio Amaral*




Um drama dos mais comuns na periferia paulistana mudou a vida do jovem Reginaldo Ferreira da Silva. Abandonado pelos pais, um amigo passava fome, sozinho no barraco. Reginaldo e outros colegas levaram um pouco de comida para o vizinho que, agradecido, quis retribuir como podia – e apontou um caixote repleto de livros. Reginaldo aceitou e, como era um compulsivo leitor de quadrinhos, poucos dias depois, acabava de ler Demian, de Hermann Hesse. “Fiquei fascinado e não parei mais”, lembra Reginaldo. Agora com 29 anos, e já conhecido como Ferréz, sua paixão pela leitura resultou em três livros, nos quais retrata o cotidiano de violência e exclusão das periferias das grandes cidades brasileiras.

Em Capão Pecado (Labortexto, 172 págs., R$ 25,90), Ferréz trabalha com a realidade dos moradores do bairro em que cresceu, o Capão Redondo, um dos mais violentos de São Paulo (SP). O reconhecimento do escritor veio com essa obra, cujos personagens são inspirados em amigos dele. Mas o caminho para o sucesso foi árduo.

Filho de um motorista e de uma empregada doméstica, Ferréz cresceu em uma casa construída em uma área invadida. Estudou por alguns anos no Colégio Adventista, mas depois foi para uma escola pública, na qual ficou até o fim do ensino médio. “Conheci os dois lados da educação no Brasil: o bom, de quem pode pagar, e o mau, de quem não pode”. Ainda assim, Ferréz não tira o mérito de seus professores, “que se esforçavam para ensinar em condições adversas”.

Mas coube à leitura o papel mais decisivo em sua formação. Após devorar todo o conteúdo do caixote ofertado pelo vizinho, tornou-se, como brinca, rato de liquidação de sebos. “Lia de tudo, de grandes pensadores a obras sobre ufologia, desde que o livro custasse um ou dois reais”, relembra.

Ferréz já foi vendedor de vassouras, balconista de padaria, chapeiro de lanchonete e arquivista. Nessa última atividade, a carreira literária ganhou mais impulso. Com ajuda financeira da empresa em que trabalhava, editou o livro de poemas Fortaleza da Desilusão(1997). Três anos depois, publicou Capão Pecado por uma pequena editora e, em 2003, lançou Manual Prático do Ódio (Objetiva. 256 págs., R$ 29,90).

Hoje, Ferréz vive da literatura. Não leva mais a mesma vida de sacrifícios, mas continua morando no Capão Redondo e participa do movimento hip-hop. Gosta de ser visto pelos jovens do bairro como um exemplo positivo. “Se o jovem da periferia não pegar um livro, pega uma arma”, lamenta. O escritor ainda destaca o papel educativo que desempenha em palestras nas escolas da região em que vive: “Mostro que há uma saída para uma vida sem perspectivas.” Ele não se considera capaz de afastar do crime e das drogas todos os que o escutam. “Mas de cada 20, um ou dois estão salvos”, acredita.

Um dos grandes motivos de satisfação pelo trabalho que desempenha com esses jovens é ter sido citado em dois livros didáticos. “Crianças do Brasil inteiro vão ler meu texto, vão me conhecer sem nunca ter me visto e vou ficar eternizado”, conta, de olho nos leitores das escolas e periferias de todo o país.



* da Agência Repórter Social




Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN