Estudo de idiomas já foi feito por meio das ciências naturais

Costume de orientação pela natureza era uma tendência no passado

Compartilhe

Associar a linguística à história natural era comum no século 19. Muitos (o próprio Goethe) diziam que as línguas eram objetos com leis fixas equivalentes, de algum modo, às dos corpos naturais orgânicos.

Era uma época em que a história natural, a anatomia, a fisiologia e a química formavam paradigmas epistemológicos importantes. Entrevê-se na obra de Rasmus Rask (1787-1832) uma influência das ciências naturais em algumas metáforas (por exemplo, “a natureza da língua”); Franz Bopp (1791-1867) afirma que as línguas são corpos naturais que se formam por meio de leis definidas e possuem um princípio vital intrínseco, o qual as faz morrer aos poucos. Essas metáforas são, contudo, esporádicas na primeira metade do século 19.

August Schleicher (1821-1868) talvez seja o que levou a metáfora naturalista à sua forma mais radical. Influenciado pela filosofia de George Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) e contemporâneo de Charles Darwin (1809-1882), privilegiou o trabalho empírico das línguas, vistas em toda a sua concretude, em detrimento da pesquisa da atividade mental, dando à língua uma visão materialista que caracterizará algumas linhas da linguística da segunda metade do século 19. Usando da dialética, deu ensejo a inúmeras questões, as quais seriam desenvolvidas posteriormente. Schleicher buscou romper uma série de pressupostos da linguística de sua época e sua atitude influenciou tanto quanto suas ideias. Entre suas ousadias há a célebre fábula escrita em indo-europeu.

Selva

Shutterstock

Schleicher deixa explícito que teria feito essa fábula para demonstrar que se podem formar frases em indo-europeu. Confessa que talvez tenha sido infeliz na tradução e a considera “malfeita”. Nesse período, os elementos fonéticos reconstruídos para o indo-europeu diferem muito dos das propostas subsequentes (sobretudo no vocalismo, que, para Schleicher, se compunha apenas de *a, *i, *u, como em Bopp e Grimm) e ainda mais da atual (que preveem as laringais de Saussure, de 1879), de modo que essa fábula foi reescrita posteriormente por vários autores.

Influenciado por Ernst Heinrich Philipp August Haeckel (1834-1919), Schlei­cher, antes da obra de Darwin, de 1859, já esboçava as línguas em árvores genealógicas (1853). Vê-se a influência darwiniana de forma mais evidente no título Die Darwinsche Theorie und die Sprachwissenschaft (1863, isto é, “A teoria darwinista e a linguística”). Deve-se a Schleicher o rigor de marcar as formas hipotéticas com asteriscos, prática seguida até hoje, mas não totalmente difundida ainda na década de 70 do século 19. Seu Compendium (1861-1862), que influenciou uma série de linguistas, deu grande ênfase à regularidade das leis fonéticas.

Regras fonéticas
Entre 1870 e 1878, na esteira de Schlei­cher, muitas regras fonéticas semelhantes à esboçada por Grimm foram descobertas. Entre elas, a célebre “lei de Verner” de 1875, que tornava regulares, com o acréscimo de uma nova variável (a saber, o acento do indo-europeu), mudanças até então vistas como arbitrárias ou excepcionais. O nome dessa nova lei se dá em homenagem a seu descobridor, o dinamarquês Karl Adolph Verner (1846-1896).

A aplicação da lei de Verner resolvia o problema da irregularidade em comparações de cognatos como: alem Bruder lat frater (irmão), face ao alem Vater lat pater (pai) (o esperado seria algo como Vader).

A solução se obteve pela reconstrução do acento tônico indo-europeu, que seria a condição da transformação: a primeira palavra seria originalmente uma paroxítona, enquanto a segunda seria uma oxítona (prova disso seria o acento mantido em outras línguas como gr patēr e em sânscr pitár). O germânico, portanto, teria recuado o acento para a primeira sílaba somente depois da aplicação dessa lei. Por sso, na primeira palavra ocorre a transformação *t > *d no protogermânico, enquanto na segunda, não.

Com soluções elegantes desse tipo, a fé nas regras fonéticas aumentou de tal forma que, ainda hoje, essas regras constituem porto seguro para testar-se a veracidade de étimos propostos.

A solução de Verner logo se multiplicou a outras situações: assim, reconheceu-se, além da lei de Grimm, a de Graßmann (1863), anterior à de Verner, que previa a dissimilação em reduplicações indo-europeias. Importa dizer que Hermann Graßmann (1809-1877) era matemático, além de linguista. Não foi pequeno o entusiasmo entre os linguistas ao serem aproximados de ciências consagradas. No clima positivista vigente, falava-se de uma infalibilidade das leis fonéticas. Nasce, assim, a escola neogramática, que apresenta as leis como “sem exceções”. Elas seriam cegas à consciência dos falantes, como a evolução o é para os seres vivos. As exceções, toleradas por Grimm, passam a ser indesejáveis, segundo a nova visão.

Ciências consagradas
Desse modo, toda exceção passava a ser explicável apenas pela atuação da analogia. O indivíduo somente atuaria sobre os resultados das leis fonéticas, alterando-os, por meio desse mecanismo psíquico, quase involuntário.
O método então exsurgente, em que participam leis fonéticas e o último refúgio da analogia, criou uma notável síntese entre a visão de língua como algo natural (phýsei) e a atuação humana sobre ela (thései).

O conceito de analogia partiu da psicologia rumo à linguística. Os grandes defensores da ausência de exceções das leis fonéticas eram dois seguidores de Schleicher, a saber, Karl Brugmann (1849-1919) e Hermann Osthoff (1847-1909). No entanto, havia estudiosos que não concordavam com o afastamento da esfera cultural dos estudos linguísticos.

Críticas à nova visão hegeliana nos estudos da linguagem, todavia, cedo se manifestam. Bruno Paulin Gaston Paris (1839-1903) foi um dos primeiros, já em 1868, a opor-se às metáforas naturais. Em 1885, o filólogo Georg Curtius (1820-1885) critica as por ele chamadas “impropriedades” na obra de Berthold Delbrück (1842-1922), outro seguidor de Schleicher.

O termo “lei”
Inicia-se uma produtiva polêmica acerca da propriedade do uso do termo “lei” em referência às transformações fonéticas. À polêmica, que durou de 1885 a 1887, juntaram-se muitos nomes, como Isaia Graziadia Ascoli (1829-1907), a favor dos neogramáticos, e Hugo Schuchardt (1842-1927), contra.

Schuchardt foi o grande opositor das ideias de Schleicher, mas sobre ele falaremos noutro momento. Interessante é que tanto Schleicher quanto Schuchardt são desconhecidos hoje em dia, apesar de seus textos serem fáceis de encontrar na internet. Mas o argumento de Schuchardt prevaleceu e, no século 20, as ideias de Schleicher foram relegadas (algo que injustamente) ao “velho modo de pensar a linguagem”. Dessa discussão, complexificada pelos dados da dialetologia, nascerá uma metodologia mais madura, que culminará na própria linguística moderna.

Polêmica
Nesse ambiente também florescem nomes de linguistas que saem amadurecidos da polêmica, alguns diretamente ligados aos neogramáticos, como Ferdinand Mongin de Saussure (1857-1913), que se tornou famoso pela publicação póstuma de seu curso (1916), reconstruí­do por seus alunos Charles Bally (1865-1947) e Albert Sechehaye (1887-1964), com base em anotações.

As ideias de Saussure foram exploradas pelo Círculo de Praga (1928-1939), mas ele só foi incensado como “pai da linguística moderna” após a Segunda Guerra Mundial. Já em 1943 Louis Trolle Hjelmslev (1899-1965) diz que Saussure é “o único teórico que merece ser citado” por ser “pioneiro indiscutível”. No entanto, é preciso lembrar que, já em 1869, Theodor Benfey (1807-1881) lançara um livro sobre história da linguística (Geschichte der Sprachwissenschaft), citando inúmeros autores, em meados do século 19.

A afirmação de Hjelmslev é obviamente exagerada, mas foi levada a sério e tomou ares dogmáticos durante mais de meio século e ainda hoje se faz sentir.

Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN