Tempos escolares

Rituais de passagem na escola marcam o início e o encerramento de ciclos de aprendizagem e incorporam padrões de comportamento da sociedade

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Arquivo Nelson de Mello foto 290 - CPDOC/FGV
Desfile do dia da Independência na Bahia em 1969: ditadura acentuou rituais patrióticos nas escolas

Quando imaginamos a estrutura da escola, pensamos em sua distribuição física, com salas, pátio, biblioteca, corredores, laboratório e cantina; em sua população, com professores, alunos e funcionários; eventualmente, em questões administrativas, pedagógicas e políticas, mas dificilmente nos damos conta de um elemento fundamental que agrega todos esses componentes físicos e abstratos do universo escolar: o ritual.


Parte integrante de qualquer grupo social, o ritual estabelece uma série de ações ou padrões simbólicos que permitem a esse grupo um entendimento e uma sensação de pertencimento. Por essas razões, é um dos conceitos mais estudados pela antropologia. Na escola não é diferente. Rituais e ritos de passagem ocupam fartamente esse ambiente no dia a dia ou em eventos especiais, sendo reconhecidos por toda a sociedade ou por pequenos grupos para os processos de educação.


É normal que alguns rituais apareçam ao mesmo tempo que outros percam o sentido, assim como é comum vermos rituais impostos convivendo com ritos espontâneos. Muitos deles têm objetivos semelhantes, ainda que possam variar dependendo do tipo de escola, mas a origem desse tipo de evento é quase sempre religiosa.


“O conceito de ritual, histórica e etimologicamente, esteve sempre ligado a fenômenos religiosos”, explica Diva Pavan, coordenadora do curso de pedagogia e da Faculdade Padre Anchieta de Várzea Paulista. “Os ritos existem desde os primórdios da humanidade, quando os homens sentavam-se ao redor da fogueira para suas celebrações da vida, da colheita, da vitória ou da derrota”, retoma a professora da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica da Minas Gerais (PUC-MG), Sandra Tosta.


Na educação
Entre os rituais escolares, os mais conhecidos por todos são os de passagem; por exemplo, as formaturas que celebram o início de novas fases na vida do estudante e as festas e formalidades que representam isso.  Diva lembra que a expressão “ritos de passagem” foi usada pela primeira vez pelo antropólogo alemão Arnold van Gennep para descrever dois tipos de ritos: os que acompanham a passagem de um indivíduo de um status social para outro, no decorrer de sua vida, e os que marcam pontos determinados do tempo. Contudo, ela reforça que a expressão, hoje, restringe-se ao primeiro tipo: “os ritos de passagem típicos, no sentido moderno, são os que acompanham o nascimento, a consecução do status de adulto, o casamento, a morte”.


Em seu clássico estudo de 1909, Van Gennep aponta que “nos lugares em que as idades são separadas, e também as ocupações, esta passagem é acompanhada por atos especiais, que, por exemplo, constituem, para nossos ofícios, a aprendizagem, e entre os semicivilizados consistem em cerimônias, porque entre eles nenhum hábito é absolutamente independente do sagrado”. A ideia de “semicivilizado” pode ser obsoleta, mas é valiosa a afirmação de que qualquer grupo em qualquer nível de desenvolvimento e organização tem seus ritos.


Quando observamos esses fenômenos no ambiente educacional, percebemos rapidamente que os diferentes tipos de formatura, por exemplo, encerram ciclos e colocam o estudante em um novo patamar. A passagem é normalmente festejada com a participação das famílias. Contudo, para Diva, esse não é o propósito principal, pois o ritual de formatura na sua forma complexa serve para legitimar o direito garantido pelo diploma. “Podemos pensar estes ritos com a força da prática de relações sociais importantes para a sustentação e manutenção de crenças e valores ligados à escola”, salienta.


Na opinião de Sandra Tosta, as passagens na escola coincidem com passagens de vida, como, por exemplo, do aluno que deixa o ensino fundamental para ingressar no médio. Ela cita que nesse momento já há, indiretamente, a solenidade de formatura. A outra, que encerra o período na escola, é a mais marcante, pois significa também o início da vida adulta da pessoa. De acordo com a professora, por esses motivos, a expectativa de uma extensão maior da vida de estudante no dias de hoje – escola, faculdade, pós-graduação – não desvaloriza os ritos de passagem.


Diva analisa que, do ponto de vista de seu papel social, o rito escolar pode ser visto como um marco simbólico do que o aluno atingiu em sua carreira escolar, inclusive perante o Estado. Ela cita como referência o sociólogo francês Pierre Bourdieu que “propõe que se dê ao rito o nome de seu efeito e de sua função: então, rito de passagem, rito de consagração, rito de legitimação seriam vistos como ritos de instituição”.


Junto da religiosidade presente nos rituais escolares, há outra influência importante: a pátria. Símbolos nacionais, assim como efemérides, são os motivos mais comuns nesses ritos. Evidentemente, houve, durante o governo militar, um fortalecimento desses atos que eram estimulados e, algumas vezes, impostos nas escolas como parte de um programa de formação de apoio ao governo por meio de uma identificação coesa e patriótica com o país.


Diva acredita no viés ideológico desses rituais “para uma determinada ordem”. Contudo, ela enfatiza que, além dos ritos cívicos, havia o uso do espaço das celebrações para a manifestação de ideias contrárias ao que era propagado pelo governo. “Na mesma época, rituais escolares, principalmente de formatura, serviram de palco de denúncia e de resistência ao governo militar”, lembra.


Novas datas
Evidentemente, depois do fim da ditadura, alguns desses rituais perderam força, permanecendo apenas os mais relevantes, que ainda podem ser encontrados nas escolas. Os que ficaram não devem mudar, pois, de acordo com Sandra, “o importante é que eles se repitam em tempo marcado, fazendo com que as pessoas os incorporem, por meio da repetição”. Assim, as gerações passam, mas os marcos permanecem. “O ritual não pode mudar, é sempre o mesmo em suas sequências”, explica a professora. “Compondo o cenário do ritual, estão sempre os símbolos nacionais: Bandeira e Hino Nacional – cantado por todos no início da cerimônia – que dão à solenidade o caráter oficial e legal.”


Hoje em dia, algumas datas ganham espaço na agenda escolar. O 31 de outubro é um bom exemplo, pois nele se comemora o dia das bruxas, ou Halloween. Discute-se a origem da festa, que seria pagã e homenagearia os mortos, mas que foi apropriada pela Igreja Católica e dedicada a “Todos os Santos”. Entretanto, como é uma data bastante comemorada nos Estados Unidos, sem ressonância na cultura brasileira, há quem defenda que se trata de uma data meramente mercadológica, potencializada pelo “imperialismo” norte-americano. O fato, independentemente de posicionamentos ideológicos, é que a indústria colabora, não é de hoje, para o fortalecimento de rituais – basta citar como exemplo a origem do Papai Noel em uma campanha da Coca-Cola há pouco mais de cem anos – figura já totalmente integrada ao imaginário infantil e protagonista das festas natalinas. Numa sociedade de consumo, nada mais adequado do que celebrações voltadas para este fim.


Sandra concorda que os novos padrões de comportamento são influentes nos rituais. “Nós vivemos em uma sociedade complexa e aberta em termos culturais”, reflete a professora. “É impossível imaginar que a cultura de outros lugares não chegue até nós e não nos influencie”, afirma. A professora menciona também as mudanças tecnológicas, pois “a entrada de equipamentos de mídia no interior da escola também vem indicando mudanças nos rituais de agregação em torno deles”. Ou seja, se no passado mais distante o homem organizava certas tradições em volta da fogueira, hoje isso acontece em redes de computadores.


Apesar das implicações consumistas, os rituais são quase todos celebrados por diferentes classes econômicas, em escolas públicas ou privadas de grandes centros e de regiões mais isoladas. Sandra aponta que os rituais são os mesmos, mas a organização, a linguagem, a estética e o espaço marcam muito claramente a distinção das classes sociais. Ainda assim, “sua realização parece ser valorizada por qualquer camada da população”.


Pequenos hábitos
Entretanto, não é apenas nas festividades que os rituais estão presentes. Raquel Borges, professora do curso de Educação Física da Universidade Federal do Pará/Castanhal, defendeu seu mestrado em Minas Gerais analisando as transformações pelas quais passavam os alunos de uma escola rural da região de Betim quando se mudavam na 5ª série para um colégio urbano.


Raquel relata que a escola da zona rural promovia visitas à urbana, para que as crianças da 4ª série fossem conhecendo o ambiente. Além disso, mediava o contato dos alunos com seus futuros professores e organizava uma espécie de formatura como marca do fim do ciclo na escola de origem.  A chegada dos estudantes ao ambiente urbano é impulsionada pela ruptura. A começar pela falta de participação dos pais, pois há a crença de que os alunos “já cresceram” quando entram na nova escola. Com essa e outras rupturas, os estudantes começam a desenvolver seus próprios rituais de modo independente daqueles que fazem parte da tradição escolar (como o processo de integração dos novos alunos).


Raquel ressalta que eles não estavam apenas mudando de escola, mas também entrando no período da pré-adolescência e, por isso, buscavam formar seus próprios hábitos, grupos e ambientes. Em sua pesquisa, ela notou que entre os jovens há uma necessidade de sociabilidade que fica latente no comportamento deles. Assim, para ela, demonstrações de apatia e desinteresse por parte dos alunos dão pistas para os professores desenvolverem trabalhos de rituais que podem ajudar no amadurecimento e na produção de suas turmas.

Ritual em EJA
Os rituais escolares começam bastante cedo dentro das escolas. Logo que a criança tem suas primeiras vivências no espaço de aula ela participa de rodas para contar histórias, aprende músicas e hinos e obedece a formalidades que a ajudam a entender o funcionamento do ambiente e a fortalecer seus laços com colegas e professores. Desse modo, o contato paulatino com esses momentos faz com que ela desenvolva uma relação mais natural na hora em que se depara com novos ritos típicos da escola. Quando, no entanto, o aluno é mais velho, esse processo é mais complexo.


Estudantes de EJA (Educação de Jovens e Adultos) chegam à sala de aula depois de terem passado muitos anos afastados dela ou de simplesmente não tê-la frequentado. Isso torna a participação nos rituais da escola mais difícil ou esporádica. A coordenadora do Ilha de Vera Cruz, responsável pela EJA da Escola Vera Cruz, Jussara Paim, apresenta o problema: “a formatura é um marco da trajetória e eles participam, mas em outros momentos o aluno se mostra mais arredio, pois é muito difícil para ele estar na escola”. Ela conta que em outros eventos tradicionais, como a festa junina, há pouca adesão.


A coordenadora acredita que esse aluno tem pouca autonomia e se prende a uma ideia de que é a escola quem manda. Por causa disso, segundo Jussara, a escola acaba sendo responsável por um primeiro passo na proposta de uma ação que pode se transformar em ritual. Ou seja, o próprio professor fica com a incumbência de motivar e organizar o grupo.


“Esse aluno vem com uma expectativa de que a escola vai servir para ele aprender a ler e escrever dentro de um formato que está no imaginário dele; ele quer aula de português e de matemática”, diz Jussara. Além disso, ela observa que o aluno tem urgência para aprender isso e acaba não valorizando outras atividades da rotina escolar que demandam mais tempo para serem incorporadas.

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