Tempo de arriscar

Grupo Escolar Experimental da Lapa encabeçou, nos anos 60, projeto de ginásio com formato inovador e interação entre docentes, famílias e profissionais de apoio

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Alunos do Grupo Escolar da Lapa, em São Paulo

A visão que se tinha daquele galpão de 4,3 mil metros quadrados, localizado no bairro da Pompeia, zona oeste de São Paulo, era de aridez. Da antiga fábrica de brinquedos havia sobrado apenas o chão de cimento, o pé-direito altíssimo, vidros quebrados, muita sujeira e quase nenhuma área verde. Era agosto de 1968, e um grupo de professores e pais tinha de transformar, em pleno ano letivo, o espaço pouco convidativo em ambiente escolar.

Foi assim, do esforço conjunto, que nasceu a primeira sede definitiva do Ginásio Estadual Pluricurricular Experimental, o Gepe – projeto que, em pleno início de ditadura, propôs uma nova forma de pensar a educação compreendida no que hoje é o ensino fundamental. O envolvimento profundo dos pais na vida escolar dos filhos era um dos exemplos de mudança da consciência educacional. Pais marceneiros, encanadores e pintores muniram-se de suas ferramentas, enquanto outros buscavam apoio e verbas para viabilizar de laboratórios a carteiras – como fez o sociólogo e jornalista Pedro Paulo Poppovic, que tinha dois dos três filhos matriculados no ginásio. “Num primeiro momento as classes eram separadas por distância. Mas aí uma aula interferia na outra. Por isso, resolvemos subir paredes e dividir os ambientes. A escola era dos pais”, conta.

Sem estar incluído na rede formal de ensino estadual, o Gepe se ergueu da vontade dos pais e dos educadores envolvidos na missão de garantir a continuidade dos estudos dos filhos egressos do Grupo Experimental “Dr. Edmundo Carvalho”, ou Experimental da Lapa. A escola era polo de práticas pouco convencionais de aprendizagem desde 1939, quando nasceu Escola de Aplicação ao Ar Livre “Dom Pedro I”, e ficava sediada no Parque da Água Branca. As aulas aconteciam a céu aberto com carteiras e lousa portáteis, seguindo tendências naturistas da época. Aulas de educação física, canto, artes cênicas e jogos de aritmética eram aplicadas aos alunos de pré-primário e 1º grau. O que também aconteceria 17 anos depois, quando o colégio se transformou no Experimental da Lapa, e mudou de endereço, para a Rua Tibério, sem perder a característica de escola aberta a experimentações.

Foi pouco tempo depois, em 1961, que a professora Therezinha Fram assumiu a direção do Grupo. Convidada para o cargo, foi alertada sobre o momento tenso pelo qual passava a escola: pais realizavam protestos por melhorias. “Era uma cena pouco comum na época. Eram profissionais liberais, autônomos de classe média, média baixa, sendo alguns deles ligados à educação. Propus um trabalho em conjunto e deu certo”, recorda.

Uma das características mais marcantes do Grupo era a diversidade de profissionais de fora que colaboravam com o ambiente escolar. Pediatras, neurologistas, psicólogos, assistentes sociais e até fonoaudiólogos eram chamados – muitas vezes de forma voluntária – para acompanhar e tentar esclarecer alguma dificuldade de ensino. “Esse olhar diversificado de um grupo multiprofissional ajudava a iluminar questões relacionadas aos processos do restante das disciplinas. O professor de matemática chegava e relatava problemas de aprendizagem que não sabia resolver. Poderia estar precisando da ajuda de um psicólogo escolar. Não de um psicólogo clínico. Íamos atrás desse especialista”, lembra Therezinha.

A direção do Grupo foi uma das primeiras em São Paulo a aplicar testes de acuidade visual e a lançar mão do apoio de um fonoaudiólogo voltado a questões educacionais. Além disso, as crianças tinham aulas de música, artes industriais e participavam de atividades fora da sala de aula, como a que estimulava a caminhada pelo bairro para que  investigassem a história da Lapa.


Flexibilidade



Estimulada pelo modelo dos Gegs (Grupo Escolar Ginásio), que eram a proposta de política pública em vigor que unia grupos escolares a ginásios sem que fosse necessário fazer o exame de admissão, a direção do Experimental viu a possibilidade de também ter o seu projeto de continuidade seguindo sua filosofia de experimentação. Previstos na legislação da época, os ginásios com flexibilidade curricular e pedagógica ainda não haviam saído do papel até o pedido formal feito pela direção e educadores do Grupo ao Conselho Estadual da Educação. “Em 1967, os projetos constavam na Lei de Diretrizes e Bases mas não existiam na prática. Achamos essa brecha na lei para dar sequência ao trabalho que era feito”, recorda Therezinha.

Etapa burocrática superada, agora era o momento de arregimentar educadores interessados e entusiastas: “A ideia era criar um grupo de professores que teria total liberdade, que não precisariam seguir os currículos tradicionais, e que trabalhariam em equipe, criando um ambiente colaborativo entre os pais e a escola”, explica Poppovic.

A psicóloga Maria Stella Galli Mercadante lembra que algumas vantagens importantes para a estruturação do projeto foram conquistadas com o governo estadual naquele momento: “Ela [Therezinha] conseguiu, por exemplo, a possibilidade de contratar professores pela CLT, diferentemente dos professores da rede, que entravam por concurso”, diz a profissional que entrou no Gepe em 1967 para pensar o departamento de psicologia, e depois foi coordenadora pedagógica e geral. “Tínhamos uma carga horária grande – de 36 horas semanais. A ideia era formar uma equipe que pensasse”, diz. O grupo também contava com a presença de Joel Martins como consultor teórico e de Cynira Stocco Fausto, na orientação educacional, entre outros profissionais de calibre que voluntariamente se envolveram com  o projeto, como a psicóloga Ana Maria Poppovic. Tudo para criar um ambiente escolar que “estimulasse a expressão clara das ideias” e “desenvolvesse a aquisição de capacidade e habilidades necessárias para um pensamento crítico”, como está indicado no relatório de trabalhos do Gepe, escrito em 1967.

Mas para os educadores o projeto poderia ser ampliado aos bairros vizinhos. A direção da escola estabeleceu o critério geográfico como o condutor na seleção de alunos. A área delimitada englobava os bairros do Jaguaré, Alto de Pinheiros, Vila Leopoldina, Vila Ipojuca, Vila Romana, reunindo 17 grupos escolares. Em comum, os locais tinham grande população de classe média baixa e baixa. Ao final, foram matriculados 139 estudantes, 51 vindos do Experimental e 88 dos grupos escolares vizinhos.

Os estudantes foram organizados em quatro salas mistas, divididas entre os mais novos até os mais velhos. O que depois mudou: “Descobrimos que os mais novos eram de classe social mais alta e os mais velhos, de classe mais baixa. Eram alunos que tinham repetido de ano, ou que tinham abandonado os estudos. Daí misturamos tudo no segundo ano”, lembra Maria Stella.

A primeira sede do Gepe foram algumas salas emprestadas pelo Colégio Santa Cruz. Depois, os alunos foram transferidos para salas do próprio Experimental da Lapa no horário da tarde. Só então veio a possibilidade de fazer um espaço próprio na antiga fábrica de brinquedos, mencionada acima. Espaço sem benfeitorias mas livre para o novo projeto pedagógico. “Até hoje, o que marca o diferencial de uma escola é ter equipe, ter continuidade e ter reflexão sobre a prática. E lá nos tínhamos tudo isso”, explica Maria Stella. A equipe foi uma das primeiras a montar estrutura de orientação educacional e pedagógica, a ter planejamento de aulas que sofria alterações ano a ano para atender novas demandas de ensino, entre outras inovações.

Foi no antigo galpão do bairro da Pompeia que o Gepe cresceu e se multiplicou. Um ano depois, em 1969, a experiência foi replicada e o Gepe 2 criado para atender os jovens de 15 a 20 anos que queriam completar o ginásio ainda atrasado. As aulas eram à noite e na sede do Experimental da Lapa. Depois vieram o 3, com aulas no período intermediário das 15h, e o 4, na região mais abastada do Alto da Lapa e que pretendia difundir experiência de escola ligada à comunidade.


Lembranças


“Todos os professores que se envolveram nos Gepes formaram uma geração de profissionais de educação diferenciada”, avalia Stella. Ela mesma, atual diretora do Colégio Vera Cruz, fez questão de chamar professores que se envolveram com a experiência para lecionar na escola particular, caso da professora de ciências Teruko Hayashida. Ela passou pelos Gepes 4, 3 e 1, de 1969 a 1979. “A adesão dos alunos e dos pais era muito grande. Pena que foi perdendo as suas características originais de experimental”, lembra.

No início dos anos 70, o projeto já não era mais o mesmo. As decisões deixaram de ser discutidas entre todos os docentes, o que estimulou a saída de muitos. O projeto já não tinha apoio da Secretaria Estadual da Educação, que questionava os altos custos dos ginásios alternativos, como os Gepes e os vocacionais. Em 1972, um anúncio no Diário Oficial marcou o fim da experiência.    

Apesar do encerramento, a lembrança ainda é forte. Há cerca de dois anos, um grupo de ex-alunos das primeiras turmas dos ginásios se reuniu com professores e diretores daquela época. “Fiquei impressionada como todos aqueles alunos seguiram seus estudos, completaram sua graduação e hoje dão aulas em universidades”, conta Therezinha Fram.

A ex-aluna, e hoje psicóloga clínica e terapeuta familiar, Lenora Lobo lembra com clareza da afetividade com os professores e do estímulo que recebeu para desenvolver um espírito crítico: “Levei comigo sempre um quê questionador”, diz ela, que fez o Experimental da Lapa e o Gepe. O administrador de empresas Roberto Alcade tem memória similar: “Parecia que estávamos tratando com um irmão mais velho que nos aconselhava e transmitia seus conhecimentos, não a tradicional forma de um ser superior que impinge garganta abaixo uma montanha de coisas sem muito sentido, mas que tem de ser decorada para a prova. Tínhamos a responsabilidade de aprender”, diz.

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