Tempo da delicadeza

Obra de Chico Buarque, 60 anos, desconhece épocas e enternece ouvintes permanentemente

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Alexandre Pavan*

“Nós amamos Chico Buarque porque ele é uma denúncia de nossas imperfeições. Toda vez que começamos a nos achar o máximo basta pensar nele para lembrar o quão somos tortos e tortas são nossas linhas. Chico Buarque é o aniquilamento de nossas vaidades e veleidades intelectuais e morais.” A declaração é de outro cantor e compositor, também chamado Chico – segundo nome César. É um trecho de texto publicado no livro
Chico Buarque do Brasil

(Garamond, 430 págs., R$ 54,50), uma coletânea de depoimentos, ensaios, reportagens e poemas, escritos por jornalistas, professores e artistas em homenagem aos 60 anos de Chico Buarque, com a organização de Rinaldo de Fernandes.




Em quatro décadas de carreira, Chico tornou-se referência para a cultura brasileira, com uma obra que passa pela literatura, pelo teatro e, sobretudo, pela música. Quando seu trabalho se revelou para o público, as paradas de sucesso destacavam a jovem guarda, com seu estilo importado de encarar a vida e a música. Chico não fazia parte daquilo. Assim como também não se enquadrava na “modernidade” anterior à bossa nova. Era estranho ver o rapaz de 20 anos – de olhos cor de ardósia, provocadores de desmaios – fazendo uma música reverente aos velhos sambistas.




Na verdade, nunca foi possível limitar a produção de Chico como compositor e letrista a nenhum movimento ou período musical. Como escreve o professor Antonio Candido, “[
Chico

] denota essa coisa rara que é a sobranceria em relação às modas, a absoluta indiferença ao êxito, que pode ou não coroá-lo, mas não o fará jamais desviar-se do seu caminho para seguir essa ou aquela voga”. Se, por acaso, alguém o destaca apenas como contestador político por conta de suas canções que se tornaram hinos contra a ditadura militar, a limitação está na análise.




A obra dos grandes criadores é atemporal porque eles apostam na inteligência humana e, com isso, fazem um elogio ao público. É essa característica que aproxima, na música brasileira, nomes como Pixinguinha, Villa-Lobos, Tom Jobim e Chico Buarque. A beleza de suas criações desconhece épocas e enternece os ouvintes permanentemente. Afinal, queremos luz, e eles estufam nosso filó com uma luminosidade que nem sonhávamos existir. E vivemos catando a arte que eles entornam no chão.




Eles nos colocam no tempo da delicadeza, quando o amor é mais sincero, existe justiça social, a banda passa e a seguimos contentes, sambamos na lama de sapato branco, gloriosos, as festas são sempre bonitas, ó pá, nossas almas balançam ao léu e perdemos a noção da hora.




Por isso, recorre-se tanto à obra de Chico Buarque – seja no momento de escrever uma carta de amor, seja na hora de entoar um verso contestatório. Inspirando-se nela, e muitas vezes plagiando-a, acreditamos que nossas declarações e reivindicações serão mais eloqüentes. Ele fala por nós.




*Jornalista e co-autor do livro
Populares e Eruditos




apavan@uol.com.br


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