Televisão educativa não é entretenimento

Tese de doutorado defende programas educacionais que investem no conteúdo, sem serem maçantes nem meramente divertidos

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Laurindo Leal Filho*



É uma relação de amor e ódio. Em alguns momentos a televisão é o braço direito do professor, estimulando debates, aprofundando conteúdos e descobrindo o universo. Em outros é o demônio. Traz para sala de aula o que de pior há no comportamento humano: individualismo, consumismo, desatenção e a substituição do diálogo pela violência. Mas de que televisão estamos falando? Da comercial que chega todos os dias às nossas casas, repleta de maus exemplos? Ou da chamada educativa, voltada para o ensino e a difusão do conhecimento, com suas variantes em vídeo? Para minimizar as ambigüidades existentes na relação entre televisão e educação é preciso, antes de qualquer coisa, responder essas perguntas.

Foi o que fez, com competência, a jornalista Alexandra Bujokas de Siqueira, em tese de doutorado defendida no Programa de Pós-Graduação em Educação Escolar da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Araraquara (SP). O mérito maior do trabalho foi depurar o papel da televisão na escola. Nos anos 60, com a América Latina dominada por ditaduras e com a indústria eletro-eletrônica buscando novos mercados, a televisão “educativa” caiu como uma luva para os interesses de ditadores e industriais. Aos primeiros ela concretizava o desejo de uma educação centralizada, com conteúdos elaborados no núcleo do poder e distribuído para todas as salas de aula, se possível sem nenhuma interferência, nem mesmo do professor. Aos outros, ampliava a fronteira comercial, com os governos assumindo o papel de grandes compradores das novas tecnologias.

Imposto com esses objetivos, sem avaliações críticas mais aprofundadas, o modelo acabou impedindo um debate qualificado sobre os tipos de programas que melhor se adaptam ao ensino. Descartado liminarmente o formato comercial e com ainda limitados recursos tecnológicos, optou-se, no início, pela simples transmissão de aulas convencionais, ao lado de algumas tentativas inovadoras. Com o tempo caminhou-se para o extremo oposto: os programas educativos passaram a incorporar todos os adereços da televisão comercial, tornando-os dinâmicos, mas superficiais.

A tese, ao analisar produções da TV Escola do MEC e da Open University do Reino Unido, mostra a importância dos programas educacionais que apostam no conteúdo. Sem serem maçantes como as aulas televisadas, mas também sem se transformarem em video-clips escolares. A autora, na conclusão, defende a “incompatibilidade entre aprendizado e entretenimento, no limitado espaço de um vídeo de 20 minutos”. Para ela a vida escolar já tem seus momentos de descontração e o uso da TV pode perfeitamente desprezá-los. Se o programa “se tornar ‘pesado’ é tarefa do professor completar a recepção, explicando o que ainda ficou difícil de ser entendido”, conclui a recém-doutora. A tese além de aprovada com distinção e louvor, recebeu da banca a recomendação para que seja publicada. Valerá a pena ler.



*Sociólogo, jornalista e professor da Escola de Comunicações e Artes da USP





laloleal@uol.com.br




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