Tecnologia para quê?

Em um contexto de maciça presença tecnológica no cotidiano das populações urbanas, ainda falta à escola contextualizar o uso desses recursos para a melhoria do ensino-aprendizagem

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Na era da informação, não há dúvida de que computadores, smartphones e tablets fazem parte do dia a dia da maior parte da população dos centros urbanos. A escola do futuro, com lousas digitais, banco de dados integrado aos tablets, smartphones e notebooks começa a ser a escola do presente em algumas instituições. No entanto, muito mais do que aliar tecnologia e educação, é preciso um novo formato pedagógico, em que o professor, ele sim, tenha o perfil multitarefa.


Pesquisa do Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunidade (Cetig) aponta que 81% das escolas brasileiras possuem laboratório de informática e 38% contam com computadores nas bibliotecas ou salas de estudo. Por outro lado, apenas 16% disponibilizam conexão com internet nas salas de aula e só 4% das escolas possuem computadores nas classes. Para Sergio Ferreira do Amaral, professor livre-docente da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), uma parte mínima dessas escolas faz uso real dos equipamentos, em operações que vão além de editar textos e pesquisar na internet. “Ainda não se apropria a tecnologia para atividades em sala de aula”, afirma o professor, que é coordenador do Laboratório de Inovação Aplicada na Educação da Unicamp.
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Desigualdades
Para o doutor em Ciências da Comunicação e diretor de Educação a Distância da Universidade Anhanguera-Uniderp, José Manuel Moran, a integração do ensino com a tecnologia já possui intensa defesa de educadores e pesquisadores, com uma clara percepção de sua eficiência no apoio da aprendizagem. Porém, a realidade é desigual tanto no Brasil como no exterior.


“Existem escolas altamente conectadas, em que cada aluno possui um tablet ou um aparelho portátil, e outras que mal têm laboratório de informática com internet”, afirma.


Além da questão econômica, em que entra na conta o custo dos equipamentos, criação e manutenção de uma rede e banco de dados, ele aponta a própria evolução da tecnologia como um obstáculo. “As escolas ficam inseguras, pois, com recursos limitados, não sabem em que investir. Com a tecnologia tão forte no cotidiano não é possível criar um buraco entre a realidade de fora e de dentro da escola, mas é isso que existe hoje.”


Moran, que é professor aposentado de novas tecnologias da Universidade de São Paulo (USP), enfatiza que a questão principal não é ter recursos, mas saber o que fazer com eles, com metodologias adequadas a cada tipo de tecnologia. “Se o professor tem uma forma de trabalhar muito mais baseada na oralidade, não muda muito se os alunos têm cadernos ou notebooks. Mas se ele transmite informações, complementa em uma relação teoria-prática no ambiente virtual, aí sim, os resultados são diferentes”, defende.


A coordenadora da área de Educação e Tecnologia do Instituto Ayrton Senna, Adriana Martinelli, pondera que as propostas de integração de tecnologia no ambiente escolar, que podem projetar uma revolução no desenvolvimento do ensino, ainda estão em fase de experimentação, em um processo que teve início há cerca de dez anos, com o início da popularização dos laboratórios de informática nas escolas brasileiras.


“Entre 1999 e 2000, o instituto fez uma pesquisa com a seguinte questão: o que se faz com a tecnologia na educação e quais resultados se pode agregar? Essa pergunta ainda está na mesa e vai ficar por um bom tempo, em razão das características da tecnologia e suas inúmeras possibilidades de uso.”


Em sua opinião, mais importante do que fornecer recursos e equipamentos para professores e alunos é a utilização de tais dispositivos para que o diálogo e o contato com a informação sejam aprimorados. “Gosto dessa frase: tecnologia permite colocar pessoas em contato com pessoas e, por consequência, essas pessoas em contato com a informação”, diz.


O papel do professor
Aplicativos recheados de referências, áudio, imagens e vídeos que guiam e complementam a exposição da matéria do dia. São recursos que desenham um ambiente interativo, com alunos participativos e interessados na variedade de referências, orientados por um professor… de que tipo? Com que função? Os pesquisadores analisam que a presença da tecnologia das salas de aula não pode levar a uma “apostilização digital”, na qual a única função do professor será seguir um guia técnico e dar o play na hora certa.


Para Sergio do Amaral, o principal questionamento, mais importante do que o tipo de tecnologia disponível, é como fazer para que os professores se apropriem dos recursos. “O professor passa a ser autor do conteúdo e o aluno, coautor”, diz. “Não é explicar como se usa a lousa digital, isso o manual faz. É entender como se dá uma aula de matemática com a lousa digital”, exemplifica.


Adriana concorda. “A questão não é o que fazer com a tecnologia em si, mas sim rever os objetivos. É se perguntar: qual o papel da matemática ou da geografia na formação do meu aluno? Com essa resposta, o professor vai conseguir encaixar a mídia, a tecnologia e o meio no processo de ensino.”


Cabe, então, aos professores, coordenadores pedagógicos e gestores educacionais encontrarem as melhores formas para encorajar e desenvolver essa integração. Se ainda não há oportunidade de criar um ambiente digital ultraconectado, em que cada aluno tenha seu “gadget” em rede com uma central de mídia, já é mais do que possível envolver os alunos no ambiente da tecnologia e usar os recursos disponíveis para que eles sejam pesquisadores, debatedores e coautores da informação e de sua formação.

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