Tabuleiro multifuncional

Além de apoio a aulas de matemática, história e geografia, o ensino de xadrez contribui para o desenvolvimento de memorização, raciocínio e criatividade

Compartilhe
, / 1112 0


Aos 5 anos, Juliana estava entre as meninas mais tímidas de sua turma. Escutava muito e falava pouco. Foi com essa idade que ela começou a jogar xadrez, oferecido na grade curricular da Escola Stance Dual, em São Paulo, onde estuda. A menina logo mostrou grande habilidade para o jogo, o que fez a professora Sandra Guidi notar mudanças na postura de Juliana, hoje com 7 anos: “A prática do xadrez a fez perceber qualidades. Ela se soltou mais, fez novos amigos. De muito tímida, passou até a me auxiliar na hora de checar as jogadas dos outros alunos.”

Juliana não é a primeira a usufruir das qualidades do xadrez. Albert Einstein, que revolucionou a física moderna, utilizava um tabuleiro para demonstrar a quarta dimensão. Lênin, o líder da Revolução Russa, dizia que o jogo era um fator de elevação de espírito do bom revolucionário. Voltaire, pensador francês conhecido pela ironia e sagacidade, proclamou o xadrez como um fator de honra ao espírito. Benjamin Franklin, o inventor da eletricidade, e Goethe, o maior escritor alemão de todos os tempos, já creditaram ao xadrez uma importância singular, tanto do ponto de vista cultural quanto do desenvolvimento do raciocínio lógico.

Nos antigos países comunistas, por exemplo, sempre foi um esporte incentivado pelas autoridades nas escolas e nos clubes sindicais. Os cientistas soviéticos chegaram a criar em Moscou uma faculdade de xadrez, que desde 1966 forma professores e enxadristas de renome internacional, como Yuri Balashov, considerado um dos grandes mestres da modalidade. A presença do xadrez também se multiplica nas escolas brasileiras. Seus entusiastas acreditam que ele incentiva as crianças no aspecto psicológico e contribui para desenvolver memorização, criatividade, raciocínio e resolução de problemas, tudo aliado a diversão, pois não deixa de ser um jogo.


Antonio Larghi


Xadrez faz parte das aulas de matemática, no Colégio Magno


A educadora Estela Milani, coordenadora de matemática do Colégio Magno, de São Paulo, quer aproveitar a tendência para mudar a concepção de ensino dos professores. “Estudos comprovam que há um crescimento exponencial de informação, coisa de 100 vezes a cada 20 anos. É um excesso de fatos desconectados que entram na cabeça de uma criança ou adolescente diariamente. Logo, não dá mais para a escola ensinar o conteúdo somente pelo conteúdo. O professor moderno precisa dirigir o foco para o desenvolvimento de certas capacidades. O xadrez cai muito bem nesse contexto”, diz.

O domínio de si mesmo, a disciplina, a capacidade de análise e síntese, a criatividade e a imaginação são as capacidades às quais se refere Estela, que bancou o xadrez na grade curricular da escola desde o início deste ano, nas aulas de matemática. Para capacitar os professores, pediu apoio para a psicóloga, enxadrista e professora Cristiane Fiúsa Carneiro, que já foi campeã brasileira da modalidade e atualmente delimita uma dissertação de mestrado baseada nos aspectos positivos do ensino de xadrez nas escolas.

“Comecei a jogar xadrez no clube, quando tinha 13 anos. Fiquei de recuperação em matemática na escola na mesma época”, diz Cristiane. “Quando peguei gosto pelo jogo, minhas notas melhoraram muito, nunca mais tive problema com a disciplina. Não notei nenhum aspecto ruim no xadrez até hoje.”


Muito além da matemática –

Não é somente entre números e contas que o xadrez surge nas escolas. O colégio Stance Dual promove um contato entre as crianças e o tabuleiro a partir dos quatro anos, dentro da grade curricular, mas desvinculado do ensino de matemática. A pedagoga Sandra Guidi, professora da escola, foi quem propôs à direção a atividade.

“É claro que não dá para começar a ensinar o jogo para crianças muito pequenas. A partir dos quatro anos, contamos historinhas que envolvem o xadrez e a própria origem de cada peça, inclusive com as crianças ajudando a montá-las”, conta. “Aos seis anos, há 30 minutos de aula. Até que, quando elas chegam na terceira série, temos uma sessão por semana. No ensino fundamental, o xadrez passa a ser extracurricular, mas a procura é grande.”

Outro colégio a adotar o ensino da modalidade foi o Pentágono, de Alphaville (Barueri). A professora Renata Falcone estuda o jogo desde 1999. “O importante é ter a técnica do jogo aliada à pedagogia. O xadrez engloba áreas do conhecimento como história e geografia, pois o jogo teve várias formas ao longo do tempo”, conta Renata. “Depois, contamos a história de cada peça. Isso obriga os alunos a ler a respeito, o que fortalece a gramática. Por último, óbvio, desenvolve a matemática”, diz a professora.

No início, os alunos aprendem outros jogos que lembram o xadrez, como o ta-te-ti e o de damas. Posteriormente, eles são apresentados a um castelo medieval e às peças do xadrez. “Isso é fundamental para a criança pegar gosto pelo jogo. Por exemplo: a peça que representa o soldado anda duas casas em sua primeira jogada. Depois, só uma por vez. Por quê? Nas guerras, o soldado sai correndo no início das batalhas. Detalhes como esse fascinam as crianças”, diz Renata, que valoriza a ética acima dos fatores pedagógicos: “O xadrez tem uma tendência natural ao respeito mútuo. Você estuda o adversário, vê o outro e tenta se enxergar através dele. Isso faz dele muito mais que um simples jogo”.


Apoio na rede pública –

O presidente da Federação Paulista de Xadrez, José Alberto dos Santos, e o enxadrista Luiz Loureiro queriam ver o maior número possível de crianças praticando a modalidade. Como lugar de criança é na escola, nada como associar as duas coisas. Foi então que, em 1996, a federação deu início a um projeto de massificação do esporte. A primeira tentativa foi levar professores de xadrez até os colégios para ensinar os alunos. Depois de algumas experiências mal-sucedidas, descobriu-se o problema: como os professores das escolas não sabiam jogar, não estimulavam as crianças. Era preciso ensinar os professores para que eles ensinassem seus alunos. E isso foi feito a partir de 1998.

Desde então, o xadrez deslanchou. Em 2004, todas as 173 escolas de Campinas, em São Paulo, passaram a contar com material próprio para dar aulas. O mesmo vale para todas as unidades da Febem de São Paulo. Nos campeonatos inter-escolares, o teto de participantes é de 2 mil alunos. Hoje, segundo José Alberto, há uma espécie de febre pelo esporte. “Dez anos atrás, não recebíamos sequer um pedido para elaborar ou fornecer material de xadrez para escolas”, conta. “Agora, recebemos entre 20 e 30 pedidos semanais.”

A dupla ministrou, em fevereiro, o primeiro curso de ensino de xadrez para professores da rede pública paulista, em Campinas. O curso é resultado de um convênio com a Secretaria de Estado da Educação. “Nosso objetivo é ver o xadrez em todos os municípios. Estimamos hoje que ele chega a 600 escolas públicas”, diz José Alberto.

De acordo com a Secretaria de Educação Básica (SEB), do MEC, no segundo semestre desse ano, será implantado o projeto
Xadrez nas Escolas

. Em parceria com Ministério dos Esportes, o programa capacitará educadores de todos os estados do país, com exceção de São Paulo e do Acre, para ensinar o jogo formalmente para nas escolas. As secretarias de educação (Seducs) dos estados selecionarão 50 escolas e a prioridade são as instituições carentes. Segundo o MEC, outras escolas serão atendidas ao longo do tempo.




Livros apresentam o jogo


Primeiro, o xadrez chega com os professores. Depois, entra na grade curricular. Por fim, os livros paradidáticos. O xadrez já cumpriu esse caminho, embora os títulos no mercado ainda sejam escassos. Um deles é
O Ensino de Xadrez na Escola

, de Abel Segura Fontarnau (Artmed, 336 págs., R$ 48), que nasceu e vive na Espanha, um dos países em que o ensino do esporte foi mais incentivado nos últimos anos.

Fontarnau usa a experiência adquirida como fundador da Escola de Xadrez de Barcelona para enfatizar a prática da modalidade. Feito como um caderno de exercícios, o livro mostra situações do jogo e pede para que os alunos as resolvam. No final, há um caderno de soluções. A faixa etária a que se destina o livro é para crianças entre 6 e 11 anos. Um problema, contudo, atrapalha a sua adoção: falta de teoria e de uma contextualização mais adequada do surgimento do esporte e do sentido de cada peça. Apesar da faixa etária ao qual se destina, o livro não satisfaz perguntas que poderiam ajudar a criança a se envolver melhor com o esporte.

Esse é justamente o caminho escolhido por
Xadrez para Crianças

, das brasileiras Regina Ribeiro e Fernanda Letícia Loth (EKO, 180 págs., R$ 24). As autoras unem a experiência de quem pratica o esporte – Regina foi cinco vezes campeã brasileira – à sensibilidade de quem sabe o que é ensinar: Regina trabalha com xadrez nas escolas há 23 anos e Fernanda, há 10. Por meio do menino Yuri, personagem central, elas contam a história do jogo, o sentido de cada peça e ainda propõem exercícios. Com abundância de ilustrações, o livro pode ser usado como complemento para o de Fontarnau. Se no primeiro falta empatia, mas sobram exercícios práticos, no segundo faltam justamente os exercícios que ajudam a criança a se familiarizar melhor com o jogo antes de partir confiante para o tabuleiro.


Auxílio à auto-estima




Enquanto as escolas estaduais tinham os primeiros contatos com o ensino de xadrez, os tabuleiros já eram velhos conhecidos nas unidades da Fundação para o Bem-Estar do Menor (Febem). Segundo José Alberto dos Santos, presidente da Federação Paulista de Xadrez, todas as unidades da instituição tem material para o jogo. “Em 2001, Saulo de Castro Abreu Filho (
atual secretário de Segurança Pública

) era o diretor-geral da Febem. Como gosta de xadrez, e houve uma aproximação entre ele, o Gabriel Chalita (
então secretário da Juventude, atual secretário de Educação

) e a federação. O aspecto social de se ensinar xadrez para menores infratores era interessante. A partir de janeiro de 2002, começamos a preparar funcionários para ensiná-los.”

Atualmente, mais de três anos após o início do projeto, o xadrez é o segundo esporte mais praticado nas unidades, perdendo somente para o futebol. A empolgação já rendeu frutos. “Chegamos a organizar um campeonato com 40 internos de todo o estado”, lembra José Alberto.” Os três primeiros colocados foram convocados para disputar um torneio estudantil. Compramos roupas novas para os três disputarem o torneio e não dissemos a ninguém que eles eram da Febem. A satisfação de serem tratados como um jovem qualquer, e não como infratores, foi única na vida deles.”




Reportagem: Fernando Vives e Leandro Beguoci




Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN