Tabu em cena

A trajetória de educadoras francesas na busca da abordagem adequada para um tema ainda difícil: a educação para a sexualidade

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“Vocês arrumaram as carteiras? – pergunta o professor – vamos começar a primeira sessão de educação para a sexualidade.” Cassandra, de 5 anos, tira o nariz da folha de papel: “O que é isso, professor, sexualidade?” Os vinte alunos da grande classe de maternal da escola de Die, município de 5 mil habitantes na região do Drôme, no sudeste da França, não terão resposta a essa questão. Ao menos, não uma resposta precisa. Mas, durante cinco seções, discutirão as relações entre meninos e meninas, o respeito por si mesmos e pelo próximo, os sentidos, as emoções, o nascimento… Não se trata de educação sexual, mas de educação para a sexualidade, no sentido amplo do termo, adaptada a crianças dessa idade. Guiadas por duas educadoras, as crianças aprendem principalmente que os meninos têm um pênis e as meninas uma vulva. Eles descobrirão como pais e mães fazem os bebês, como o bebê cresce, quanto tempo se espera por ele, como sai da barriga etc. E também vão tratar de noções de feminino e masculino, vão falar de estereótipos sexuais, compreender que a expressão da sexualidade tem uma dimensão social e cultural. Programa pesado. Demais?

“Minha filha adorou a conversa sobre os bebês – conta um jovem pai – mas não sei bem o que tirou disso.” De fato, a menina continua persuadida de que os bebês nascem do umbigo das mães. “O amadurecimento psíquico das crianças se dá aos poucos”, defende Claude Rozier, formada em sexologia médica e uma das raras pessoas na França a terem posto em prática esse tipo de intervenção para os pequeninos. “Nessa idade, é mais importante conversar do que aprender. Ao longo do tempo, as crianças acabam por assimilar que é possível falar de sexualidade com referenciais, o que nem sempre acontece em família. Quando jovens, eles falarão mais à vontade, sobretudo com seus parceiros, e nos momentos em que sentirem dificuldade.” O setor que Claude chefia engloba duas escolas de ensino médio, duas do fundamental e 68 escolas primárias e maternais. Ela intervém sobre sexualidade a pedido dos diretores, “mas raramente antes do 2º grau”.


Cursos em dupla


Claude Rozier se diz “militante”, pois seu investimento pessoal junto a jovens é importante, comparado aos meios de que dispõe. Nessa missão de saúde pública, ela forma, em sua academia, futuros educadores para a sexualidade, continuadores de sua ação. Com Laurence Communal, professora num colégio da Haute-Savoie e encarregada da missão pelo reitorado de Grenoble, ela anima cursos em dupla e responde indiretamente à angústia de certos profissionais da adolescência.

Em Loriol, na região de Ródano-Alpes (sul da França), por exemplo, 26 adultos participaram de seis dias de estágio interinstitucional. Enfermeiras escolares, educadores de diferentes instituições e professores foram buscar ali ferramentas para melhor dialogar com os jovens: “Os pais também não conseguem falar de sexualidade com seus adolescentes”, constata Céline, participante da primeira mesa-redonda destinada às apresentações. Essa educadora tem a impressão de ser única diante das questões às vezes cruas ou difíceis que são feitas pelos jovens. Frédéric, professor, não sabe, por sua vez, “até onde abordar a questão em sala: falamos de anatomia e biologia, mas o aspecto emocional, que lhes interessa em primeiro lugar, é totalmente ocultado em  nossas aulas. Alguns alunos expõem problemas íntimos e não me sinto nunca à vontade para responder”.

Monique, enfermeira escolar, confirma as fortes expectativas do grupo: “Falamos muito dos riscos, nunca do resto – o que dá uma visão enviesada da sexualidade”.

Também formada em “sexualidade humana”, Laurence Communal chefia uma dezena de cursos todo ano em seu setor, de estágios solicitados: “Desde meus primeiros anos de ensino, que corresponderam ao surgimento da Aids, foi uma escolha e uma vontade própria falar do assunto com meus alunos”. No início dos anos 1990, o primeiro coletivo de educação para a sexualidade surgiu na escola em que Laurence ensinava: “Acompanhei a criação desse comitê, que rapidamente instaurou duas horas de educação para a sexualidade, da 5ª à 8ª série”. Uma decisão muito inovadora na França, já que a primeira circular da educação nacional indo nesse sentido só data de 1996: “Isso nos permitiu tatear, encontrar as ferramentas para nos comunicarmos com os jovens. Hoje estamos mais bem armados”. As temáticas abordadas mudaram: depois da Aids, chegou a influência da pornografia entre os jovens: “Há cinco ou seis anos, não se ousava falar nisso”, lembra Laurence, que destoa totalmente da preocupação dos adultos nesse ponto. “Desde então, houve uma reflexão sobre a questão, e sabe-se agora que o consumo ocasional de imagens pornográficas não é tão dramático, contanto que se dêem referências aos adolescentes.”

Todavia, entre jovens, é a intimidade que aparece como algo a aprender a proteger. Por conta da inclusão digital, as crianças estão habituadas a se verem em todos os tipos de fundo de tela. “De fato, contrariamente à nossa geração, eles não ligam sua imagem pessoal à esfera íntima”, observa Laurence Communal. Durante os estágios dirigidos por essas duas educadoras, os professores relatam há alguns meses histórias semelhantes: uma felação filmada num celular em troca de um maço de cigarros; alunas do 3º ano do segundo grau apostando dois euros que se filmariam nuas e enviariam as imagens aos telefones dos colegas; um professor contando que um aluno lhe botou no nariz um telefone exibindo seus últimos embates amorosos… “Os diretores de escola estão desarmados diante do aumento de poder dessa intimidade filmada e propagada”, observa Laurence. Suprimir os celulares não basta. É preciso falar com os alunos, conscientizá-los da importância da imagem, da avalanche incontornável dos celulares e da internet na escola e além. Hoje, como ontem, trata-se de informar e educar.

(Tradução: Mônica Cristina Corrêa)

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