Superfluidade da experiência

Questões sobre o contingente em um mundo que aspira à padronização

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“Seu Dito”, como o chamávamos, era um artesão queijeiro que aprendera seu ofício quando menino e ainda o exercia aos 80 anos de idade. Tudo o que sabia sobre preparação de queijos aprendera do velho Jorgsen, um dinamarquês que aportou na pequena cidade de Minduri para fundar um laticínio. Décadas depois, mudou-se para Cruzília, empregado em um novo laticínio. Lá colocou seu saber de artesão a serviço da produção de queijos finos que rapidamente ganharam prêmios e prestígio. Preparava-os como o fazem as velhas cozinheiras: recorrendo ao saber da experiência, sem medidas padronizadas. E assim foi até que o sucesso de seu trabalho exigiu a expansão da produção. Mas só havia um seu Dito…

Era preciso imprimir escala industrial à produção artesanal. Assim, a administração do laticínio decidiu que cada gesto de seu Dito seria monitorado, medido, cronometrado, pesado. Registraram-se a proporção de sal que ele vertia em cada recipiente, o número de vezes que mexia para cada lado o leite do tacho, a temperatura do cozimento, o tempo de preparo. Feito o registro, o próprio Dito passou a experimentar e selecionar os melhores queijos entre aqueles que produzira. Depois de meses de controle e avaliação, chegaram a uma fórmula que condensava seu saber. Na verdade, chegaram a uma técnica que expropriava seu saber, tornando a experiência de seu Dito da ordem do supérfluo. A partir de então, qualquer jovem operário inexperiente produziria algo parecido com o queijo de seu Dito, desde que seguisse rigorosamente o padrão.

Assim é a lógica da produção industrial automatizada: a padronização de procedimentos substitui o fazer artesanal acumulado pela experiência. E embora possamos sentir a nostalgia do cuidado da produção artesanal, sabemos que essa substituição viabiliza a produção e o consumo de bens numa escala capaz de atender aos anseios de uma sociedade de consumo. Mas, tão insensato quanto esperar um procedimento artesanal na escala de uma produção industrial é querer transpor sua lógica para campos nos quais ela não pode ser aplicada, como o da educação.

 

Participar da formação de uma pessoa não equivale a produzir um objeto. Não há procedimentos técnicos – nem abordagens metodológicas – que substituam a experiência de um professor, a importância de suas escolhas ou o valor de seus compromissos. Daí porque embo­ra se possa substituir trabalhadores de uma linha de montagem sem prejuízo para o produto final, o mesmo não se passa no caso da formação educacional. Mesmo em um sistema dominado por procedimentos preestabelecidos, como no caso de sistemas apostilados de ensino, a variável decisiva sempre é o professor e sua relação com os alunos e a disciplina que ensina. No processo educacional o que importa não é a eficácia na difusão de informações ou no desenvolvimento de habilidades e competências, mas a qualidade da transmissão de uma experiência simbólica entre gerações diferentes que habitam um mundo comum.

Porque educar significa compartilhar um tempo e um espaço nos quais uma herança simbólica de realizações históricas – como linguagens, obras de arte, teorias científicas, práticas corporais, princípios morais – são tornadas disponíveis para uma nova geração que a ela deverá atribuir novos significados, a experiência de um professor jamais poderá se tornar algo da ordem do supérfluo. A experiência humana – que nos constitui como sujeitos capazes de atribuir sentido ao vivido e ao fabricado – não é simplesmente o conteúdo da educação. É sua razão de ser.

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