Super-hackers

Escola prepara adolescentes para o combate de crimes digitais

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Lívia Perozim




Por trás das telas dos computadores, o mundo vive uma guerra invisível entre o bem e o mal. De um lado, estão os
hackers

, protetores de sistemas e apaixonados por códigos de informática. Do outro, os
crackers

, criminosos que invadem redes digitais e roubam informações sigilosas. Nessa história de heróis e vilões faltava uma agência de inteligência para ajudar jovens gênios do computador a fazer a escolha certa. Para cumprir essa missão, foi criada uma escola que prepara adolescentes para combater fraudes on-line, que só no ano passado cresceram 579%, segundo o Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de Segurança no Brasil.

Dessa forma, propositadamente maniqueísta, pode ser contada a história da criação da HackerTeen, escola onde mais de 100 adolescentes, de 14 a 19 anos, são educados para proteger a sociedade dos piratas da Internet e empreender negócios da informática. Durante três horas, a turma se reúne duas vezes por semana em uma sala de bate-papo (
chat

). Aulas a distância e provas presenciais. Para ser aprovado nas cinco etapas do curso de 2 anos, os super-
hackers
 


têm de desvendar crimes digitais de uma trama virtual. Mas o desafio dos futuros heróis não pára por aí.

Na nada tradicional escola da Zona Sul de São Paulo, os alunos também precisam apresentar um bom desempenho na instituição de ensino formal em que estão matriculados. “Para ser um
hacker

, é preciso, a cada bimestre, melhorar a avaliação na disciplina em que apresentam a nota mais baixa. Isso, é claro, sem despencar o rendimento nas matérias em que já iam bem”, explica Marcelo Marques, professor e um dos sócios do HackerTeen.

O acompanhamento é feito por uma psicopedagoga durante todo o curso. Entre as metas, por mais estranho que pareça, está diminuir o tempo que os gênios dos códigos no computador.

Jogo difícil para alguns que, como Antônio Felipe Ferreira Hammerl, eram viciados em
games

. Todos os dias, ele perdia mais de cinco horas tentando eliminar seus inimigos da tela. Ainda não conseguiu se libertar totalmente do vício, mas diminuiu a brincadeira para apenas duas horas durante o fim de semana.

“Cheguei a repetir o ano na escola porque me desconcentrava bastante e não estudava em casa”, lembra o garoto de 16 anos. Depois que entrou na HackerTeen, Antônio Felipe avalia que aprendeu a usar melhor seu tempo no computador “com coisas mais legais que os
games

” e, por vontade própria, preferiu cursar o ensino médio em uma escola técnica de Guarulhos (SP), cidade onde vive com pai.

Os avanços de Antônio Felipe também foram vantajosos para seu pai, que o viu motivado a estudar e não precisou mais se preocupar com os excessos do filho no computador. “Saí no lucro. Ele está até me ensinando coisas que eu não sabia”, comemora Antônio Victor Hammerl.

Antônio Felipe tem o perfil típico do HackerTeen: jovem, apaixonado por computador e viciado em
game

. Mas para a surpresa dos quatro sócios da escola, uma unidade de negócios da empresa 4Linux, não só esses jovens foram atraídos, como também aqueles que buscavam uma profissão. “Achávamos que nossos alunos seriam de classe alta, mas percebemos que grande parte deles procura uma oportunidade de trabalho”, analisa Marques.

E eles realmente encontram. Com dois anos de vida, a escola já é reconhecida e procurada por empresas como a IBM e HP. Além de se especializar na área de administração de rede e segurança da informação, os alunos podem se preparar para tirar a certificação LPI – Linux Profissional Institute, que está entre as dez mais procuradas nos Estados Unidos. Válido mundialmente, esse certificado garante a competência técnica dos alunos e os coloca à frente de um mercado carente de profissionais especializados.

Foi assim que Bruno Gola, 18, conseguiu uma vaga em uma empresa de desenvolvimento de software. Prestes a se formar na primeira turma da HackerTeen, ele comemora: “Agora entrei na faculdade e tenho certeza que quero seguir esse caminho”.

Assim como Bruno, Juliana Guimarães Magalhães, 17,
 

e Weder Feliciano, 18, também trabalham em empresas de tecnologia digital. Em comum, eles têm o plano de abrir o seu próprio negócio na área. “Vi que esse sonho é possível e quero investir na formação de outros profissionais”, planeja Juliana, que faz parte dos míseros 12% da ala feminina que compõe a HackerTeen. Já Weder, acostumado a arrumar o computador dos amigos no fim de semana, quer terminar a faculdade e abrir uma empresa de consultoria em segurança digital.

Boas oportunidades de trabalho, melhora no desempenho da escola e mudança no comportamento. Esses são alguns dos benefícios que o curso oferece aos jovens defensores da segurança digital. No entanto, não é tão fácil fazer parte dessa equipe.

O desafio começa logo na seleção dos alunos, quando são avaliadas as intenções dos interessados. Os que querem aprender a invadir máquinas são logo barrados. Os que procuram ajuda para se livrar de crime digitais já cometidos também não têm vez. “É comum aparecer
crackers

pedindo ajuda porque invadiram uma universidade americana, por exemplo, e não podem mais entrar nos Estados Unidos. Nesse caso, nada podemos fazer”, conta Marques.

Os aprovados na primeira seleção assistem a uma aula gratuita sobre “Ética Hacker” e fazem uma prova. Só entram se obtiverem notas superiores a média 5. Ainda assim, cerca de 8 mil jovens esperam por uma vaga.

São muitos os interessados em entrar nessa escola, em que o diferencial não se limita só ao conteúdo e à forma de aplicá-lo. Chega também aos pais. Só pode fazer parte da equipe quem tiver a autorização e a participação deles no processo de formação dos jovens
hackers

. “No princípio, entrevistávamos todas as famílias, antes de aceitarmos os alunos. Hoje, não conseguimos mais fazer isso, mas nos reunimos a cada etapa com os pais para mostrar-lhes que tipo de trabalho está sendo feito com seus filhos”, afirma Marques.

É o tipo de envolvimento justo. Além das mensalidades serem salgadas (R$ 616), com o conhecimento que adquirem, esses adolescentes recebem super poderes que não podem ser usados levianamente. Eles poderiam se tornar
crackers

? “Até poderiam, mas não se tornam. Os
crackers

sentem prazer em invadir máquinas e se acham um máximo quando conseguem. Acompanhamos se os nossos alunos têm essa necessidade de chamar atenção e, se ela é detectada, ele pode até ser convidado a abandonar o curso”, diz Marques.

A preocupação fez com que no currículo do curso estivesse não só as disciplinas de Segurança de Informação (parte técnica) e Empreendedorismo (que conta como gênios da raça com Linus Torvalds e Bill Gates, por exemplo, desenvolveram seus códigos e os estimula a criar novos sistemas), como também ética
hacker

. O curso é dividido por faixas (branca, amarela, verde, azul
 

e preta) e, para merecer conquistar uma nova etapa, os alunos precisam ir bem nas três disciplinas.

Faz parte das aulas de ética discutir pensamentos de filósofos importantes que tinham concepções do que é o bem e o mal. Eles estudam o alemão Immanuel Kant (1724-1804), por exemplo, que dizia que o homem é o fim em si mesmo. “A idéia é mostrar que é possível ser ético pela razão. Ou seja: o homem tem que ter critérios, não pode usar algo para seu próprio fim”, ressalta o sociólogo Sérgio Amadeu, autor do curso de Ética Hacker e ex-presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação, ligado ao Ministério da Casa Civil.

Os textos filosóficos são contextualizados, assim como filmes atraentes para os jovens, como
Guerra nas Estrelas

e
Senhor dos Anéis

. Tudo isso para formar cidadãos e não alienados por código. Vida de
hacker

não é fácil e seus valores têm que ser levados a sério. “O curso mostra para os jovens que, para ser livres, eles precisam ter o conhecimento e usá-los para o bem”, defende Amadeu.

São questões complexas que atiçam debates calorosos. Um dos dilemas propostos é: um
hacker

pode tirar do ar um site de pedófila, por exemplo? A resposta, segundo Amadeu, é não: “Ninguém pode fazer justiça com o próprio teclado. Existem leis, regras. Nesses casos, o
hacker

é orientado a denunciar e contar com a ajuda do Estado e da sociedade civil”. Uma missão crucial na luta desses jovens contra o lado obscuro das forças digitais.

O próximo passo da HackerTeen é preparar professores de informática das escolas formais. “Vamos aos colégios fazer uma palestra e se, posteriormente, 20 alunos se inscreverem, o professor ganha uma bolsa completa no curso”, diz Marcelo Marques, da HackerTeen . Além de virar aprendiz das forças do bem, o educador poderá também acompanhar seus alunos e trocar experiências com a equipe de professores da HackerTeen. Aos poucos, a intenção é preparar os professores para lidar com uma geração muito mais ligada ao computador do que eles e, quem sabe, conquistar reforços na luta dos super-heróis.





Para se proteger na rede






– É importante saber que segurança é um processo e que a rede é um ambiente de incertezas. Nenhum software garante proteção o tempo todo.







– Não abrir nenhum tipo de arquivo de pessoas desconhecidas, principalmente os que são enviados sem você pedir.





 





– Atualizar sempre o antivírus, mas saber que ele não é garantia de um possível ataque. Não há antivírus para um vírus novo.

– Não fornecer informações pessoais em salas de conferência, bate papo e programas de mensagens instantâneas, como o MSN. Você pode estar sendo espionado sem saber.




 






Educar para a era digital






Para o sociólogo Sérgio Amadeu, pais e professores têm de estar preparados para orientar os jovens a usar a Internet






 





“A mera repressão é ineficaz”. É assim que Sérgio Amadeu, militante de políticas de inclusão digital, liberdade e compartilhamento do conhecimento, avalia toda e qualquer forma de proibir os jovens ao acesso virtual. Em entrevista à Revista Educação, ele explica por que considera o diálogo e a conscientização de pais e educadores com os adolescentes a única forma de protegê-los de riscos e ensiná-los a usar “as maravilhas no mundo digital”.





 






Há como controlar as páginas em que os jovens navegam?





Têm recursos que filtram sites já conhecidos, como os de pornografia. Ou de bloqueios de conteúdos que impedem a navegação. Mas isso não impede que os sites tenham novos IPs e formas de ser encontrados. Além do que, os filtros criam problemas porque ao bloquear a palavra “sex”, por exemplo, você não consegue entrar em páginas que tenham as palavras sexta-feira.





 






Como a educação fica nesse ambiente?





A mera proibição é ineficaz. Teve uma escola que, não sabendo enfrentar essas novidades do mundo virtual, proibiu que os alunos entregassem trabalhos digitados, o que não resolve o problema do plágio. Posso copiar a mão e é até mais difícil de saber se foi cópia ou não.





 






Mas a Internet facilitou plágio, não?





Facilitou. Mas ele sempre existiu. A diferença é que antes os alunos copiavam de livros e ficava menos evidente.





 






Como a escola resolve essa questão?





O professor tem que entender que a era digital é uma realidade e saber trocar com o aluno suas experiências. Estar preparado para mostrar porque o plágio é um estelionato intelectual e que o aluno deixa de aprender. Tem de usar a Internet a seu favor. Um caminho pode ser orientar sites interessantes e propor atividades em cima da criação de textos copiados, por exemplo. O importante é saber que a rede é muito grande e que quem não cria, perde a importância como cidadão e profissional.





 






Estamos preparados para isso?





Infelizmente não. A questão fundamental é: quanto mais livres, mais autônomo você tem que ser. Na escola, a liberdade é proibida e autonomia é uma palavra vazia. Falta perceber que o aluno tem que refletir por conta própria. O professor geralmente tem uma postura dura de não quero, não aceito, não pode. Ele está mal formado, porque a educação ainda é muito ligada ao modelo do início da idade moderna. Foi a que menos mudou em formato, método e relação professor/aluno. Agora que está chegando a idéia do computador muito barato de 100 a 200 dólares como uma ferramenta didático-pedagógica, isso vai ser uma realidade e eles vão ter que se preparar, o que não é simples.





 






E em casa? O que os pais podem fazer?




Só o diálogo resolve. O pai tem que fazer um acordo com o adolescente e saber orientá-lo. Há maravilhas no mundo digital para serem exploradas para o bem, para o conhecimento.




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