Suicídios

Os problemas decorrentes de uma ética individualista

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Portugal, março de 2010: um jovem e um professor suicidaram-se. Estupefatos, jornalistas e especialistas interrogam-se sobre as causas dos infaustos acontecimentos. Talvez tivessem desistido da vida porque convivência não rima com ausência, e relação não rima com solidão. Talvez porque as escolas sejam arquipélagos de solidões.

A modernidade remeteu-nos para uma ética individualista. Carecemos de projetos humanos que não se coadunam com práticas escolares que ainda temos, que requerem um novo sistema ético, uma matriz axiológica clara, baseada no saber cuidar e conviver.

Diz-nos Maturana que a educação acontece na convivência, de maneira recíproca entre os que convivem. E Winnicott define o ser humano como
pessoa em relação, ser singular, que não pode existir sem a presença do outro

. O indivíduo-com-os-outros tem consciência do seu papel numa ordem simbólica complexa e concreta, que o protege dos efeitos mortais da uniformização. Se é verdade que o conceito de partilha está eivado de conotações moralistas, também é certo que é de partilha que se trata, da manifestação de um sentimento de partilha que rejeita atitudes de quem se julgue no direito de dar respostas a perguntas que não escutou…

Contrariando racionalidades mecanicistas, numa relação de escuta, a circulação de afetos produz novos modos de estruturação social. Não negando o potencial da razão e da reflexão, junta-lhe as emoções, os sentimentos, as intuições e as experiências de vida. A escuta, para além do seu significado metodológico, terá de ser humanamente significativa. No contexto escolar, terá de abdicar de atitudes magistrais e paternalistas, para que todos aprendam mediados pelo mundo…

Aos adeptos do pensamento único (que ainda encontro por aí…) direi ser necessário saber fazer silêncio "escutatório", fundamento do reconhecimento do outro. Direi que precisamos rever a nossa necessidade de desejar o outro conforme nossa imagem, respeitando-o numa perspectiva não narcísica, ou seja, aquela que respeita o outro, o não eu, o diferente de mim, aquele que não quer catequizar ninguém, que defende a liberdade de ideias e crenças, como nos avisaria Freud. Aos cínicos, direi que onde houver turmas de alunos enfileirados em salas-celas dificilmente encontraremos resquícios de convivência. Que onde houver séries e aulas assentes na crença de ser possível ensinar a todos como se de um só se tratasse, enquanto o professor estiver sozinho na sala de aula, será impossível pensar em dialogia e convivencialidade.

As nossas escolas carecem de espaços de convivência reflexiva. Precisamos compreender que pessoas são aquelas com quem partilhamos os dias, quais são as suas necessidades (educativas e outras), cuidar da pessoa do professor, para que este se veja na dignidade de pessoa humana e possa ver os outros como pessoas. Precisamos exercer a
consideração positiva incondicional

de que falava Carl Rogers, praticar a confirmação, no dizer de Martin Buber, ou
o amor incondicional

postulado pela Alice Miller.

Resta-me acreditar que os educadores podem inspirar-se nesses e em outros autores, para a reconfiguração das suas práticas, para a passagem de uma profissão solitária para uma profissão solidária. Resta-me acreditar que o suicídio não é algo inevitável. Apesar de assistir ao drama de muitos professores, que morrem aos 20 e são enterrados aos 60…


José Pacheco
 



Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)



josepacheco@editorasegmento.com.br

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