Sopa de letrinhas

José Pacheco reflete sobre importância de superar modelos antigos de escola

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sopa de letrinhas

Foto: Shutterstock

Ele não era ético, mas não o sabia. O acaso o protegeu, quando lhe foi confiada uma turma constituída por jovens de 15 anos, todos analfabetos.

Perguntou-lhes: Por que não sabeis ler?

Estou na escola vai para oito anos – disse um dos jovens – e foi sempre assim, como vou dizer: a professora nova chegava e ensinava o a-e-i-o-u. E a gente fazia carreirinhas de as, es, is… Depois juntava o pa-pe-pi-po-pu.

O professor caiu em si. Ano após ano, também havia servido aos seus alunos uma indigesta sopa de letrinhas. Era competente, dava aula na perfeição, bem planejada, apoiada em bons materiais. Mas compreendeu que, se aqueles jovens não aprendiam pelo método fônico, deveria buscar outros modos de alfabetizar. Se não o fizesse, continuaria a ser um professor competente, mas… antiético.

Talvez não por acaso, naquele lugar aprendeu a trabalhar em equipe, libertando-se da solidão da sala de aula. Aprofundou o domínio da alfabetização linguística, enquanto as suas companheiras da equipe de projeto se especializaram em outras alfabetizações. Foi aprender psicologia da aprendizagem, da cognição, da percepção, da memória. Aprendeu mais de vinte caminhos para a alfabetização: o silábico, o global de palavras, frases, contos, o “tu já lê” das palavras geradoras do Freire, o “método natural” do Freinet… Foi aprender a compor repertórios linguísticos e surpreendeu-se com o fato de haver crianças de quatro, ou cinco anos, que identificavam mais de duzentas palavras: em português (Coca-Cola) e até em inglês (McDonald’s). Compreendeu que havia agido erradamente, quando prescindira de um vasto repertório linguístico e obrigava a silabar ca-ce-ci-co-cu, quando poderia aproveitar o conhecimento sincrético das palavras “coca” e “cola”. Que, com o “seu método”, aquele que lhe havia sido ensinado, enviara muitos jovens para classes de apoio, condenara muitos alunos à supletiva educação de jovens e adultos.

Compreendeu que havia ensinado todos do mesmo modo e ao mesmo tempo, no ritmo da aula, ignorando o ritmo de aprendizagem de cada criança. Prescindiu de usar “o seu método”. E, se cada qual aprendia a seu modo, a todos deu oportunidade de aprender a ler.

Subsistia uma dúvida: por que razão ainda havia alunos alfabetizados, que reprovavam? Só achou razões na “teoria dos dotes” e nas teorias explicativas do insucesso por via socioeconômica e cultural.

Rumou à universidade, onde estudou história, psicologia, etologia, sociologia da educação, e aprendeu a ensinar de modo que todos pudessem aprender. Quando lhe deram a conhecer Freinet, Lauro, Bourdieu, Freire, Giroux e outros autores reconheceu a necessidade, não só de operar rupturas paradigmáticas, mas de erradicar um velho e excludente modelo de escola. A dúvida se desfez, quando encontrou um princípio de resposta nas palavras de um Vieira do século 17: O mestre na cadeira diz para todos; mas não ensina a todos. Diz para todos porque todos ouvem; mas não ensina a todos, porque uns aprendem e outros não. E qual é a razão desta diversidade se o mestre é o mesmo e a doutrina a mesma? Porque para aprender não basta só ouvir por fora, é necessário entender por dentro.

Isso mesmo: a razão maior do insucesso residia numa contradição. Na Universidade, a prática dos formadores era a negação da teoria que “ensinavam”. Os seus professores continuavam dando aula, uma indigesta sopa de letrinhas do século 17.

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