Sonhos…

Já não me interesso por ensinar o que eu sei, nem o que não sei. Hoje, vivo um novo amor

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Pensando sobre a minha vida de educador, acho que ela pode ser dividida em três fases, semelhantes às que Roland Barthes, já velho, encontrou no seu passado. Jovem, eu me dediquei a ensinar as coisas que sabia. É assim que se perpetua a sociedade: as gerações mais velhas transmitem às gerações mais novas os saberes necessários para que a vida continue. Esse é o primeiro dever dos mais velhos: legar, como herança, às gerações mais novas as suas “caixas de ferramentas”, os saberes já testados.

Aí fiquei mais velho. Procurei então ensinar coisas que eu não sabia. Eu não as sabia, mas tinha intuições dos caminhos que poderiam levar a elas. Uma das funções mais importantes do educador é encorajar o aluno a ter a ousadia de trilhar caminhos desconhecidos. Nos caminhos desconhecidos não há certezas. Freqüentemente eles não levam a nada e é necessário voltar atrás e começar de novo.

Mas o mestre tranqüiliza o aluno:
“Nenhum erro será castigado…”

Eu gostaria de participar de uma banca de mestrado ou doutoramento em que a tese do candidato terminasse com essa afirmação:
“E depois de testar todas as nossas hipóteses concluímos que todas elas estavam erradas. Fim”

.  Todos os que se aventuram por caminhos desconhecidos correm esse risco. Riscos só não há nos caminhos velhos.

Hoje já não me interesso por ensinar o que eu sei e nem por ensinar o que não sei. Hoje eu vivo um novo amor: desejo ensinar os meus sonhos.
“Deus quer. O homem sonha. A obra nasce”

: assim escreveu Fernando Pessoa. Atrevo-me, então, com a autoridade do poeta, a alterar o primeiro verso do evangelho de João:
“No princípio era o sonho…”

Tudo nasce do sonho. A se acreditar nos poemas bíblicos da Criação, Deus sonhou primeiro e criou depois. Sonhou porque estava infeliz. Criou para ficar feliz. Tudo o que Deus fez foi feito para que o sonho se tornasse realidade. A Criação começou do fim, daquilo que não existia, o sonho que Deus sonhou: um Paraíso.

C. Wright Mills comparou o momento em que vivemos a uma galera em cujos porões estão remadores que remam cada vez mais rápido. Eles aprenderam bem a sua arte. Remam com competência. A galera corta os mares com velocidade cada vez maior. Mas há um problema sobre o qual ninguém pensa, tão ocupados estão os remadores com a velocidade que devem imprimir ao barco: nada se sabe sobre o destino da galera…

Num dos seus poemas, Cecília Meireles escreveu:
“Se te perguntarem quem era essa que às areias e gelos quis ensinar a primavera…”

Nas areias e gelos não existe primavera. Nas areias e gelos a primavera só existe como sonho… Ali a primavera é apenas uma esperança.

É isso que desejo fazer agora que sou velho. Não ensinar o que sei. Não ensinar o que não sei. Quero falar sobre o destino da galera, essa terra em que vivemos. E que destino mais belo pode haver que o sonho de Bachelard:
“O universo tem, para além de todas as misérias, um destino de felicidade. O homem deve reencontrar o Paraíso…”

.




Rubem Alves é educador e escritor




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