A sombra dos ditadores imortais

Dois documentários disponíveis na Netflix ajudam a conhecer um pouco mais da Coreia do Norte, país mais fechado do mundo

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Visita aos arquivos: documentário traz documentos sobre relação entre ditador da Coreia do Norte e casal de artistas (Crédito: Divulgação)

Visita aos arquivos: documentário traz documentos sobre relação entre ditador da Coreia do Norte e casal de artistas (Crédito: Divulgação)

Em 1978, a famosa atriz sul-coreana Choi Eun-hee desapareceu misteriosamente enquanto estava em Hong Kong. Passados alguns meses, seu ex-marido, o conhecido diretor de cinema Shin Sang-ok, também sumiu sem deixar rastros. Anos depois, espantosamente, voltaram a aparecer em filmes produzidos na Coreia do Norte, um regime tão fechado na época quanto é hoje.

O casal passou a frequentar festivais internacionais – sempre acompanhado por seguranças – e, aparentemente, estavam felizes com seu status de estrelas do cinema. O estranho enredo se torna ainda mais nebuloso em 1986, quando eles irrompem na embaixada americana em Viena alegando que haviam sido sequestrados pelo governo do ditador norte-coreano Kim Jong-il e obrigados a produzir filmes para ele. Para muitos sul-coreanos, no entanto, o casal havia apenas mudado de lado e se arrependido.

Em resumo, é essa a história do documentário Os amantes e o déspota (2016), dirigido pelos britânicos Robert Cannan e Ross Adam. O filme traz relatos de Choi (Shin já é falecido), de seus filhos e de investigadores do caso. Embora não seja uma produção brilhante, o filme tem bons depoimentos e um valioso material de arquivo, incluindo imagens do casal com Kim Jong-il e raros registros de voz do ditador – ao que consta, ele era apaixonado por cinema e mantinha uma filmoteca com mais de 15 mil títulos, incluindo produções de Hollywood. Kim Jong-il é filho de Kim Il-sung, o chamado Presidente Eterno, e ficou no poder até sua morte, em 2011. Quem assumiu foi Kim Jong-un, um jovem rechonchudo, sem experiência militar conhecida, que hoje ameaça iniciar uma guerra nuclear com o colega Donald Trump.

Se o filme sobre Choi e Shin revela algo da megalomania da dinastia Kim e da lavagem cerebral imposta ao povo norte-coreano, o documentário Under the sun (2016) vai mais a fundo para (tentar) mostrar como é o dia a dia no país mais fechado do mundo. Na produção, o diretor russo Vitaly Mansky acompanha um ano na vida de Zin-mi, uma menina que vive com os pais em Pyongyang e está se preparando para fazer parte da Liga das Crianças –espécie de ala infantil do Partido dos Trabalhadores da Coreia, que comanda o país.

Ao perceber que todas as tomadas de seu filme seriam vistoriadas por seus “guias” norte-coreanos, que inclusive ensaiavam as falas de Zin-mi e sua família, o diretor decidiu gravar em segredo também os bastidores das filmagens, revelando a encenação promovida pelos funcionários do governo de Kim Jong-un. O resultado é um filme que explicita o caráter patético do governo comunista e, ao mesmo tempo, é capaz de traduzir em belas imagens um estilo de vida alienígena para o resto do mundo. Ambas as produções estão disponíveis na Netflix.

➤ Regime fechado

As Coreias se dividiram ao final da Segunda Guerra, com a expulsão dos japoneses da península. O Sul ficou sob influência dos EUA, o Norte alinhou-se à União Soviética e passou a ser governado pelo guerrilheiro Kim Il-sung. Seu neto, Kim Jong-un, manteve essa “ditadura hereditária”.

➤ Pulgasari

É o título do filme mais conhecido de Shin Sang-ok feito na Coreia do Norte. Kim Jong-il figura como produtor nos créditos. Pulgasari é um monstro inspirado em Godzilla e ajuda o povo oprimido a lutar contra o rei totalitário. De 1985, teve exibições na Coreia do Sul e nos EUA. É um libelo anticapitalista.


Filmoteca: sombra autoritária

Regimes de força assombram o imaginário de muitos países e são objeto de cineastas que buscam explicitar suas atrocidades.

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Noite e neblina (França, 1956)

Média-metragem de Alain Resnais, visita os campos de concentração na Polônia. Com imagens feitas pelos aliados ao final da guerra, narra o percurso das prisões ao extermínio. Realizado num momento em que se tentava negar o Holocausto.

 

 

 

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Brazil – O filme (Reino Unido, 1985)

Num futuro distópico, um agente do Ministério da Informação tenta reparar um erro administrativo que levou à morte de uma pessoa, cujo sobrenome foi confundido com um suspeito de terrorismo. Dirigido por Terry Gilliam, lembra 1984, de George Orwell.

 

 

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O último rei da Escócia (Reino Unido, 2006)

Na década de 1970, um médico escocês vai trabalhar em Uganda, onde conhece o ditador Idi Amin Dada, e se torna seu médico pessoal. Embora o personagem do médico seja fictício, o filme reproduz fatos reais de um dos mais brutais ditadores da história.

 

 

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O ano em que meus pais saíram de férias (Brasil, 2006)

Às vésperas da Copa de 1970, Mauro, 12 anos, é deixado sem explicação na casa do avô – os pais são militantes de esquerda fugitivos. Mas o avô morre naquele dia, e o menino precisa se habituar a uma vizinhança estranha. Dirigido por Cao Hamburger.

 

 

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