Somar e multiplicar

Apucarana, no interior do Paraná, aposta no modelo de educação em tempo integral desde 2001 e hoje colhe os resultados

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Carmen Guerreiro









 Edison Denobi Caldeira: Prefeitura de Apucarana





Crianças em oficina de balé: período integral oferece, no contraturno,

33 atividades extracurriculares


“Bem-vindos a Apucarana, cidade educação.” O letreiro na estrada já indica a prioridade estabelecida pelo município, na região norte do Paraná, com população estimada em 115 mil habitantes. A partir da implantação, em 2001, do tempo integral nas escolas da rede municipal, Apucarana conseguiu, tendo como base a educação, gerar mais empregos, melhorar os índices na área da saúde e diminuir a violência urbana. Além disso, o modelo adotado pelo município integrou os habitantes, que passaram a participar mais ativamente dos assuntos relacionados à cidade.



“Parto do princípio de que, se o município tiver uma boa educação, o resto vem por acréscimo e o desenvolvimento acontece”, afirma o prefeito Valter Pegorer (PMDB), que ocupa o cargo pela terceira vez. Para ele, uma sociedade ideal deve ter conhecimento, tecnologia, desenvolvimento e qualidade de vida, e um fator é conseqüência do outro. A decisão da mudança para o tempo integral foi tomada no início de seu mandato.



O ponto de partida foi o Pacto pela Educação, firmado entre a Prefeitura e cerca de 500 lideranças locais, em 8 de fevereiro de 2001, com o objetivo de definir ações básicas para a implantação do projeto. Uma das iniciativas inovadoras foi a criação das células comunitárias, 24 unidades divididas por regiões, que reúnem entre 80 e 100 representantes de segmentos organizados (de times de futebol a igrejas) e cuja “capital” — ou seja, a sede das reuniões — é uma escola próxima.








 Profeta





 Lucas Vinícius da Silva, 10 anos: aulas

de street dance (dança de rua) e

apresentação na praça central da cidade




O objetivo das células é debater, em encontros mensais, os cinco aspectos fundamentais para a melhoria do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) — educação, saúde, habitação, geração de emprego e violência — e apontar os problemas para a prefeitura. A partir deste ano, com a evolução dos grupos, serão realizados “encontros de formação”, nos quais os membros das células receberão capacitação e serão instigados a propor soluções e projetos nas áreas de discussão.



A deliberação feita pelas células já resultou em alguns frutos, como um programa de alfabetização de adultos (do qual já participaram 4 mil pessoas em cinco anos), as “células de saúde” (postos locais que descentralizam o movimento dos hospitais e facilitam o atendimento) e a Lei Seca, que determina o fechamento de bares às 23h e reduziu a zero, segundo os dados da Prefeitura, os acidentes de trânsito por embriaguez.



Os resultados mais surpreendentes, no entanto, estão relacionados ao aumento da carga horária dos aproximadamente 10 mil alunos das escolas municipais – educação infantil e primeiro ciclo do Ensino Fundamental. O índice de evasão em 2005 foi cerca de 0,5%; o de reprovação, 9,2%. São números muito baixos em relação à média nacional de 6,8% e 19,2%, respectivamente. Comparados às estatísticas de 2001, quando o projeto foi implantado, houve uma redução de 27,7% na evasão e de 12,5% nas reprovações.



As crianças agora permanecem no colégio das 8h às 16h30, e por isso recebem uma refeição a mais (são três por dia no EF e quatro na educação infantil). Na parte da manhã, as escolas seguem o currículo regular. No período da tarde, o contraturno, são oferecidas 33 atividades extracurriculares, divididas em oficinas pedagógicas (inglês e espanhol, por exemplo) e complementares (desde culinária e higiene pessoal até circo e robótica).



Além disso, os alunos também participam dos projetos
Vamos Ler, Apucarana!

, no qual lêem as notícias do dia no jornal local e são estimulados a desenvolver espírito crítico, e
Pedagogia Empreendedora

, que explora os sonhos individuais das crianças e que, trabalhado junto a outras disciplinas, pretende alimentar expectativas quanto ao futuro dos estudantes e constituir um pensamento empreendedor.









 Profeta





 Thaís Vieira da Silva, 9 anos: tudo “muito

organizado”, com “jeito de escola particular”




“O programa é espetacular justamente porque potencializa as áreas do conhecimento”, afirma o professor Cláudio Aparecido da Silva, secretário municipal de Desenvolvimento Humano. Para ele, a falta de um currículo pré-estabelecido para as atividades do contraturno é um ganho. “Cada escola cultiva uma cultura própria, um jeito de trabalhar diferente, e cada oficina se desenvolve melhor em um tipo de realidade”, argumenta. O secretário cita o exemplo de uma escola que se adaptou melhor à horta medicinal e a fez progredir, e de outra que evoluiu no caratê e acabou por levar seus alunos para participar de competições.



As mães foram liberadas para o trabalho à tarde, o que aumenta a renda em casa e, por conseqüência, a auto-estima da família, que passa a depender menos do poder público. A violência doméstica caiu, de acordo com a Prefeitura, em 40%. E uma pesquisa do Senai, divulgada no final de 2005, aponta Apucarana como a terceira maior geradora de empregos do Paraná no segundo setor (indústrias). A esse “fenômeno”, Pegorer deu o nome de “revolução silenciosa pelas letras”.



O prefeito assegura que continua destinando 25% da receita municipal à educação, com a única diferença do aumento de 5% para 7% da verba para a alimentação escolar, já que os alunos fazem uma refeição adicional. Por meio de parcerias e da união de projetos em vários segmentos, a prefeitura consegue, com o mesmo orçamento anterior, administrar as escolas em tempo integral. Para reforçar a mão-de-obra no contraturno, por exemplo, contratou estagiários de universidades locais.



Hoje, das 38 escolas municipais de ensino fundamental, 37 oferecem o tempo integral. Apenas uma ficou com o sistema antigo, dirigida a quem não estava satisfeito com a adaptação. “Essa é a escola com menos alunos”, ri o prefeito. No começo, porém, a maioria dos pais não queria aceitar a mudança, por diversos motivos. “Alguns achavam que era assistência social, outros diziam que a iniciativa tiraria a criança do convívio familiar”, diz Pegorer. Para acalmá-los, a prefeitura convocou uma assembléia, na qual explicou o projeto e esclareceu dúvidas; só houve a mudança de opinião quando foi permitida a entrada dos responsáveis pelas crianças durante as refeições, e eles comprovaram a qualidade da comida.








 Divulgação





 Mara Lúcia Sales, do colégio José Idésio:

proximidade dos pais é fundamental




Maria Aparecida Codato da Silva, 38 anos, mãe de Mateus e André Gonçalves da Silva, 9 anos, alunos da 4ª série da Escola Municipal José Idésio Brianezi, conta que era uma das mães que foram contra o tempo integral. “Eu achava que não deveria ser obrigatório, porque eu tinha dó de deixá-los o dia todo na escola”, diz. Com o passar do tempo, Maria Aparecida percebeu que os filhos chegavam empolgados em casa depois da escola, e ficou satisfeita.



Para a professora de matemática Mara Lúcia Sales, do mesmo colégio, a proximidade com os pais é fundamental. “Nossa responsabilidade cresceu em relação às crianças, porque elas passam o dia inteiro aqui. Então, a família tem de ficar perto mesmo”, defende. Mara acredita que, por haver mais tempo, o comportamento dos estudantes mudou, desde a disciplina até a aprendizagem, e que a produtividade da tarde se reflete em melhor desempenho no período da manhã.



“Nas oficinas de artesanato, trabalhamos a coordenação motora, a atenção, concentração e disciplina da criança”, diz a professora de crochê Vera Lúcia Rukitzki. Para variar as atividades, exercícios práticos ocupam o contraturno (durante a manhã, o conteúdo é, majoritariamente, teórico). Márcia Aparecida Sales, que leciona as aulas de ciências pela manhã e à tarde a oficina de ciências, uma das preferidas pelos estudantes, pede para que eles tragam de casa materiais e realizem as experiências na escola. “Depois da atividade, sinto que eles realmente entendem o fenômeno”, explica.



Entre os alunos, sempre há a preferência por uma das oficinas. No caso de Lucas Vinícius da Silva, 10 anos, que vai para a 5ª série e terá de mudar de colégio, a atividade que mais gostava era a aula de dança, na qual as meninas estudam o balé e os meninos,
street dance

(dança de rua). Ele conta, orgulhoso, de quando se apresentou na praça da cidade. “A gente dançou duas músicas, e foi só o nosso colégio que pôde dançar mais de uma coreografia.” Thaís Vieira da Silva, 9 anos, aluna da 4ª série, diz que adora ir para a escola. “Acho muito organizada, porque apesar de ela ser municipal, tem jeito de escola particular.”



“A cidade inteira vê o programa, porque os alunos fazem muitas apresentações no centro, nas praças e no anfiteatro. Então, andando na rua, qualquer um esbarra com uma ação do tempo integral”, diz Susimara Oláh de Almeida Lima, diretora da José Idésio. O espaço físico, porém, ainda é o principal problema do colégio, que não tem mais para onde crescer. “Seria muito bom se conseguíssemos com que as crianças escolhessem as oficinas que desejam, mas por enquanto ainda não podemos fazer isso por causa da infra-estrutura. Se diminuirmos o número de alunos ficará melhor, mas, enquanto houver procura, não podemos fazer isso.”



“Vamos ampliar salas de aula, construir refeitórios, aumentar instalações sanitárias e construir uma quadra de esportes para cada escola”, afirma o prefeito. Outro objetivo é atingir todas as crianças com a informática, que hoje só chega a cerca de 2 mil alunos, construindo seis ou sete laboratórios. “O que normalmente soa para o administrador municipal como um limitador é a falta de estrutura. Se o Brasil for esperar ter estrutura para começar, vai demorar mais um século, ou talvez nunca faça”, argumenta Silva. “Em Apucarana, nossas escolas estão em permanente estágio de estruturação.”



O próximo desafio do governo é a capacitação dos professores locais e também de outras cidades, feita por meio da recém-inaugurada Fundação Apucarana Cidade Educação. Segundo o secretário, já existe interesse de municípios do Paraná, São Paulo e Mato Grosso, e de países latino-americanos, como Venezuela, Argentina, Colômbia e Costa Rica, em conhecer a experiência e implementar projetos semelhantes. “Temos mais tempo para trabalhar os alunos, isso é uma comprovação lógica”, argumenta Silva. “Não é, porém, a quantidade de tempo que a criança fica na escola que provoca a revolução do conhecimento, mas o somatório de ações com um fundo pedagógico.”




Os projetos da “revolução”




Células comunitárias

São 24 unidades formadas por representantes dos moradores que discutem saúde, educação, habitação, emprego e violência




Escola da Gestante

Acompanhamento de mulheres durante a gravidez para prevenir doenças e mortalidade infantil




Centro Infantil Sonhos de Criança

Sete pediatras atendem nesta clínica voltada à saúde da criança




Escola da Oportunidade

Capacitação de moradores pessoas por meio de cursos preparatórios gratuitos voltados ao mercado de trabalho




Alfabetização de adultos

O programa, que já atingiu cerca de 4 mil pessoas, tem o objetivo de erradicar o analfabetismo, que abrange 6% da população, o equivalente a aproximadamente 7 mil pessoas




Assistência Social com Dignidade (ASD)

Quando um cidadão precisa de ajuda (passagem de ônibus ou cesta básica, por exemplo), trabalha um ou dois dias no Hortão Comunitário. Metade da produção pode ser levada para casa, e a outra metade é usada na merenda escolar




Rede Solidária da Vida (Resolvi)

Sucessor do ASD, com algumas modificações




Centro Dia

Local de socialização no qual os idosos passam o dia, geralmente até o final da tarde, e realizam atividades como danças e jogos




Clube da Sabedoria

Centro de atendimento a cidadãos da terceira idade, com médicos, piscinas, salões e instalações para a prática de esportes




Cursinho pré-vestibular gratuito

Oferece a jovens de baixa renda a oportunidade de ingressar no ensino superior




Casa da Gente

Atendimento a jovens em reabilitação, com problemas de drogas e alcoolismo




Programa de Empregabilidade Juvenil

Em parceria com o governo federal, a prefeitura investe na capacitação dos jovens para o primeiro emprego, por meio de cursos gratuitos que ensinam, por exemplo, noções de ética profissional, marketing pessoal, vendas e atendimento ao cliente




Programa de Prevenção à Gravidez na Adolescência

Resultado da Escola da Gestante, tem como objetivo mudar o quadro atual: 20% das grávidas têm entre 10 e 19 anos




Saudável e barato




“Buscamos a alimentação mais saudável possível, e o mais saudável é também o mais barato”, afirma o secretário Cláudio Aparecido da Silva. O custo diário da prefeitura por aluno é de R$ 0,44 — que, somados aos R$ 0,18 repassados pela União, totalizam R$ 0,62. Para baratear o gasto, a administração investiu em capacitações e parcerias. Assim, a aposta é na eliminação de desperdícios e na compra de alimentos de qualidade diretamente dos pequenos produtores das Vilas Rurais (plantações locais), na quantidade certa. Além disso, as verduras e os legumes cultivados nas hortas medicinais das escolas e no Hortão Comunitário são aproveitados na merenda.



A Prefeitura também gerencia dois programas voltados para a alimentação barata e de qualidade:
Alimentação Alternativa

e
Prato Limpo

. O primeiro consiste na constante capacitação das merendeiras para a elaboração de pratos variados e o reaproveitamento de partes dos alimentos geralmente consideradas restos e jogadas no lixo, como talos, cascas, sementes e folhas. “Ao invés de refrigerante, temos suco de cenoura e de beterraba”, explica o prefeito. O
Prato Limpo

educa os alunos a pegar menos comida, ainda que tenham de repetir o gesto diversas vezes.



As três refeições dos estudantes do EF – café da manhã, almoço e lanche da tarde – são acompanhadas por nutricionistas, que encontraram opções para enriquecer os pratos, como carne moída, frango, açúcar mascavo, verduras e legumes, leite de soja, rapadura e o pão feito com a farinha multimistura, produto de uma ONG local que contém farelos de trigo e arroz, folhas de batata, abóbora e de mandioca, e semente de abóbora.



O grande diferencial nas refeições das escolas de Apucarana, porém, é a planta Ora-pro-nobis (Pereskia Aculeata Mill), usada como tempero. É uma cactácea rica em Omega 3 (ácido graxo importante na prevenção de infartos e no fortalecimento do sistema imunológico), vitaminas A, B e C, minerais como cálcio, fósforo e ferro. Desidratada, contém 25,4% de proteína.



Pelo trabalho desenvolvido na cidade, o prefeito Valter Pegorer recebeu, em 2005, o
Prêmio Gestor Eficiente da Merenda Escolar

. Dentre os 311 municípios inscritos, 12 foram selecionados, sendo Apucarana o único no estado do Paraná.



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