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ENTREVISTA com Brigitte Rieckmann Martins dos Santos | Edição 204 Estimular a iniciação científica ajuda IES a melhorar a qualidade da educação ofertada e …

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ENTREVISTA com Brigitte Rieckmann Martins dos Santos | Edição 204

Estimular a iniciação científica ajuda IES a melhorar a qualidade da educação ofertada e a criar maior vínculo com as comunidades onde estão inseridas, defende diretora de pesquisa da UniSanta, de Santos (SP)

por Rubem Barros

Divulgação/Assecom - UniSanta

Brigitte Rieckmann: para estimular a iniciação científica, IES devem identificar e, eventualmente, treinar os professores com vocação para a pesquisa

A iniciação científica vem sendo cada vez mais valorizada dentro das instituições de ensino superior, tanto por gestores como por professores e estudantes. E essa valorização é fundamental para melhorar a infraestrutura e o ensino das IES, criando um corpo docente mais comprometido e alunos mais envolvidos com projetos que possam significar soluções mais efetivas para o desenvolvimento e bem-estar das comunidades do entorno da instituição.

Quem defende esse ponto de vista é a professora Brigitte Rieckmann Martins dos Santos, diretora do Centro Institucional de Pesquisa da Universidade Santa Cecília (UniSanta), de Santos (SP), instituição que integra o Complexo Educacional Santa Cecília e que começou a atuar no ensino superior em 1969.

Desde 2002 na UniSanta, a professora Brigitte, mestre em biologia molecular e doutora em ciências pela Universidade Federal de São Paulo, destaca que é preciso criar um ambiente propício para que a cultura da pesquisa floresça nas universidades. E que esse ambiente passa pela identificação dos professores com perfil de pesquisadores, para que atuem em orientação para o corpo discente desde a graduação. E que alunos de graduação e pós-graduação possam fazer parte de projetos conjuntos.

A UniSanta também tem apostado suas fichas na realização do Congresso Brasileiro de Iniciação Científica (Cobric), que neste ano teve 299 trabalhos apresentados. Leia, a seguir, a análise que a professora Brigitte faz acerca da importância da iniciação científica para as instituições de ensino superior.

Como avalia o espaço que a iniciação científica tem hoje nas IES particulares?
É um espaço em franca expansão e valorização, não somente em função das exigências legais, decorrentes das visitas de comissões de avaliação. Percebe-se essa valorização também do ponto de vista dos gestores, assim como dos docentes e discentes. Existe uma busca cada vez maior para que o processo da iniciação aconteça, isso está sendo hipervalorizado.

Qual o perfil das instituições que mais incentivam a iniciação científica?
Não saberia dizer o que as outras instituições têm feito. Mas na UniSanta existe hoje em dia um incentivo por parte da universidade para que a iniciação aconteça de fato, e não seja um mero cumprimento de lei. Que aconteça como lócus em que o aluno e o professor estejam buscando soluções, inovação e respostas aos problemas que aparecem na comunidade. Existe uma mudança nesse perfil.

Quais são os mecanismos de incentivo à iniciação vigentes? O que mais poderia ser introduzido?
Nas universidades particulares, esses mecanismos são mais difíceis, pois envolvem muito custo. Essas instituições sobrevivem de mensalidades e repasses do Fies e do ProUni, diferentemente de uma universidade pública que não tem essa preocupação, pois já tem cota prevista para a iniciação. A instituição privada tem de garantir dois pilares para que a iniciação aconteça. Primeiro, o incentivo em termos de remuneração. O professor obrigatoriamente tem de ter um tempo disponível para poder dedicar-se efetivamente a essa atividade e precisa ter uma vocação para que isso aconteça. A universidade tem de identificar o professor que tenha perfil de pesquisador, que disponha de tempo e que não espere uma grande recompensa financeira, pois estamos passando por um momento difícil. Em todos os segmentos, percebe-se que houve uma mudança e nesse também. Os professores não estão sendo remunerados como deveriam ser para essa atividade. E, com o professor, é preciso identificar o aluno que queira fazer a iniciação, e que não a veja apenas como forma de obtenção de uma bolsa ou de desconto na mensalidade, pois corre-se muito risco nesse sentido.

Há cobrança por resultados?
Meu papel, neste momento, atuando como gestora, é de trabalhar com resultados. No momento em que a universidade investe tanto em professores como em alunos, é preciso apresentar resultados, que se traduzem em participação em congressos e publicações. Por isso, não há espaço para achismos. É preciso conhecer o professor, ele tem de ter uma história pregressa de pesquisador, ou de professor que efetivamente trabalhe com iniciação científica.

Não há como fazer um trabalho de formação com os docentes que não tenham esse histórico, mas estejam interessados em investir nessa área?
Com certeza. Isso é analisado caso a caso. Para ajudar nessa definição, conto com uma comissão de iniciação científica, multidisciplinar, em geral composta por professores mais antigos na casa e que convivem diariamente com esses outros docentes e ajudam na identificação de professores com potencial para orientação de iniciação científica.

Além dos objetivos mensuráveis, há outros objetivos estratégicos que a instituição visa ao fazer esse trabalho?
Sim, mas isso depende muito da missão de cada universidade. A iniciação científica deve atender primordialmente à missão e à vocação de cada instituição. A UniSanta, pela sua inserção na Baixada Santista, tem uma história muito importante de formação de profissionais para atuar na área e encontrar soluções para problemas específicos dessa região. A instituição tem muito a ver com a cidade, foi surgindo em função do polo petroquímico da região e, principalmente, do porto de Santos. Nossos projetos e as ideias que surgem são mais direcionados para a indústria e principalmente para as pessoas que vivem na Baixada.

Poderia dar um exemplo disso?
Sim. Em função de toda a mudança que houve na Baixada por causa do pré-sal, muitas pessoas mudaram para lá com suas famílias e o número de idosos aumentou consideravelmente. Mas o IDH da Baixada é um dos mais baixos. Então estamos enfrentando sérios problemas de saúde em função dessa mudança. Nesse momento cabe à gestão da pesquisa como um todo e da iniciação científica identificar esse cenário, pontuá-lo e direcionar eventualmente ideias que possam trazer respostas para esse processo.

Ou seja, estamos falando de um processo em que as instituições de ensino têm de ter uma sintonia fina com as atividades econômicas e os problemas da região em que estão inseridas, certo?
Isso é o primordial. Essa talvez seja a diferença entre as universidades públicas e as particulares. As públicas podem se dar ao luxo de fazer uma pesquisa básica. As particulares até conseguem, mas é mais difícil. O nosso foco é a comunidade, achar soluções e trazer bem- estar para essa comunidade. Trazer essa população para dentro da universidade e mostrar-lhes que existem soluções possíveis, que podemos fazer alguma coisa por ela.

A interação entre alunos de pós e de graduação, em projetos comuns, pode incentivar a iniciação?
Essa é uma das estratégias que ajudam bastante. Os docentes que estão no stricto sensu lecionam também na graduação – uma carga pequena – justamente para que o aluno da graduação conheça o que acontece na pós-graduação. Nesse ínterim, o professor faz uma ponte com o aluno de pós e envolve o estudante da graduação no projeto de pós. Então o aluno tem oportunidade de interagir em dois níveis, na graduação e na pós-graduação, lato sensu ou stricto sensu. Acaba ocorrendo mais no stricto sensu, pois esse aluno fica mais tempo conosco. Então, nos projetos elaborados na pós, sempre há algum aluno da graduação atuando como voluntário ou participando com bolsa. E muitas vezes, a partir daí, esse aluno da graduação acaba se envolvendo com outro projeto de iniciação científica que surge desse projeto do stricto sensu.

E a UniSanta tem parcerias com empresas também?
Sim. A história da UniSanta é de parcerias com empresas da Baixada, principalmente as indústrias químicas. Muitas vezes há reuniões entre essas indústrias e os professores da UniSanta em que se discutem propostas, ideias. Existe um setor também que elabora aulas específicas para atender necessidades da indústria. Com isso, envolvem-se os alunos em novos projetos.

E também com outras instituições de ensino.
Sim, temos parcerias com a Poli/USP, com a FEI, vários projetos conjuntos com a Unifesp da Baixada Santista. São alguns professores que transitam em duas universidades, professores que lecionam em ambas.

E qual a importância da realização de eventos de iniciação científica como o Conic, do Semesp, e o Cobric, realizado pela UniSanta no início de novembro?
O Cobric é muito semelhante ao Conic. Ele recebeu o nome de Congresso Brasileiro de Iniciação Científica. Surgiu há 14 anos como Jornada Ceciliana de Iniciação Científica, mas a atual reitoria julgou que, pela dimensão que estava tomando, o nome não expressava o porte do evento, era necessário expandi-lo. Primeiro para atender a Baixada. Foi transformado em evento regional, e depois em estadual e nacional. Atualmente, temos trabalhos de Tocantins, Minas Gerais, Mato Grosso, Rio Grande do Sul. É ainda pequena a participação de outras universidades, mas já existe.

Muitas instituições particulares são mais voltadas ao ensino do que à pesquisa. Mesmo estas podem ter ganhos na qualidade dos cursos se incentivarem a iniciação científica?
Com certeza, elas têm muito a ganhar. A iniciação científica requer esforço. Mas no momento em que você tem um professor que se dedica algumas horas a mais dentro da universidade, que cria o outro pilar essencial, que é o ambiente para que a iniciação ocorra, com uma boa biblioteca, laboratórios adequados, isso acaba revertendo diretamente na qualidade do ensino. Muitas instituições têm uma vocação maior para o ensino, instintivamente. Só que no momento em que promovem iniciação científica, projetos de pesquisa, passam a fazer um trabalho para melhorar a infraestrutura da instituição, fazem que o professor se transforme em algo mais, em um colaborador que se dedica mais à universidade e ao aluno. E vai ficar mais feliz com o trabalho que executa. Isso reverte diretamente num melhor atendimento, numa maior satisfação do aluno. E não há melhor propaganda para uma universidade do que ter um colaborador feliz e satisfeito e um aluno atendido e também feliz e satisfeito, realizado com sua opção. E essa opção vai ajudá-lo a trilhar o seu futuro praticamente até o final da vida.

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