Sobrevivendo a outubro

No mês do professor, cabe a pergunta: com o que eles sonham?

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Outubro é mês pródigo de comemorações. Santos há à profusão, alguns famosos: Francisco de Assis, Benedito, Judas Tadeu, Tereza D’Ávila, Aparecida etc. É também o mês de várias categorias profissionais: os bóias-frias, os médicos, os guardas-noturnos, os estivadores, os dentistas, os sapateiros, os repórteres e, enfim, as bruxas.
 





Todavia, outubro é reconhecido de antemão pelo dia do professor. Nos meados do mês, o país curva-se aos “mestres” e lhes rende acalorados gestos de reverência – algo que, curiosamente, não costuma ocorrer com ofícios afins.



Louva-se efusivamente o profissional da educação por seu espírito cívico e sua abnegada vocação, aplaudem-se os requisitos morais de tão nobre ocupação, proliferam-se as saudações protocolares. Nos estabelecimentos de ensino, preparam-se festinhas singelas, distribuem-se presentinhos módicos, ganha-se um pão modestamente distinto daquele sovado a cada dia.
  





Mediante tamanha tagarelice adulatória, melhor seria dar voz aos próprios homenageados. A depender deles, haveria razões para comemorar? Afinal, com o que sonham os professores atuais?



Sonham, quase sempre, com outros alunos. Sonham também com outras famílias, com outros dirigentes, com outros teóricos. Alguns, com outros colegas. A totalidade, com outra remuneração. A maioria sonha com outra ocupação, por meio da qual viessem à tona os talentos recônditos que imaginam possuir, os quais teriam sido sufocados pela escolha profissional apressada, ou mesmo equivocada.





E poucos, muito poucos nada sonham, já que não nutrem expectativas infrutíferas. Nada esperam da docência porque sabem que ela,
per se

, nada pode lhes retribuir. Ao contrário, trata-se tão-somente de uma ocasião – ímpar, decerto – para que se exerça um tipo particular de desígnio: aquele de não deixar morrer à míngua o mundo das idéias, tão custoso para sobrevir.
 






Esses poucos encarnam o ofício no limite da vulnerabilidade que lhe é inerente, e vão angariando, no passo arrastado dos dias, algum sentido instável para suas vidas solitárias, desgarradas, incertas. Porque habituados à penúria cultural da contemporaneidade, alimentam-se das migalhas que lhes oferece este mundo amnésico que não mais se encanta nem se comove com a narrativa daqueles feitos humanos dignos de serem rememorados pelas novas gerações. Dificilmente serão, admitamos. Aqui e acolá, algum alento há, mas sempre em estado germinal e, logo, em dissipação.





Tais professores, raríssimos, são párias desses tempos tão instantâneos quanto dissolutos que chamamos, por falta de outro vocábulo mais convincente, de presente. Abstêm-se eles de sonhar com dias melhores e, talvez por isso, têm a chance de angariar conquistas discretas. Conquistas tão minúsculas e esparsas que os obrigam a declinar dos aplausos e da gratidão. Almejam silêncio apenas. Ei-lo, pois. 



 




Julio Groppa Aquino é professor da Faculdade de Educação da USP

E-mail:



julio.groppa@editorasegmento.com.br


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