Sobre princesas e ervilhas

Conto de Andersen é revisitado em edições que investem em diferentes linguagens

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Um dos principais méritos dos contos de fadas durante a infância talvez seja o de suscitar a imaginação de tal forma que levem a criança a enxergar além das lições morais pretendidas pelo autor, produzindo inferências e pensando desfechos diferentes para eles. Na edição comentada e ilustrada Contos de fadas, da coleção “Clássicos Zahar”, figuram 26 textos de autores como Irmãos Grimm e Joseph Jacobs (João e o pé de feijão), exemplos desse tipo de estímulo para a imaginação. Entre os contos do volume, um pequeno, não tão reproduzido e recontado quanto a Cinderela, de Charles Perrault, é capaz de chamar a atenção tanto pelo absurdo da situação apresentada quanto pelo convite feito ao leitor em sua última frase: A princesa e a ervilha, de Hans Christian Andersen, termina com a questão “É um bom arremedo de história, não é?”.
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No conto, a rainha, que quer ver o filho casado com uma princesa, testa se uma garota forasteira, que chega ao reino em noite de temporal, é realmente a princesa que diz ser. Para tirar a dúvida, a rainha coloca secretamente um grão de ervilha embaixo das dezenas de colchões sobre os quais a jovem dormiria e inventa um critério segundo o qual esse grão seria o suficiente para incomodar uma princesa de verdade – em sua visão, obrigatoriamente sensível e frágil.


Se na vida adulta esse tipo de narrativa é visto como ingênuo, na infância ele consegue, mesmo sendo ficcional, apresentar constatações sobre a experiência humana, como a existência de conflitos e infortúnios. Assim como tantas outras do gênero, essa história também é mote de versões atuais. A ervilha que não era torta… mas deixou uma princesa assim, de Maria Amália Camargo, é um exemplo. Em termos de quantidade de palavras, a versão é maior do que o conto de Andersen e emprega rimas, trocadilhos e onomatopeias com o objetivo de divertir os mais novos, e também de ilustrar passagens rápidas do original, mas que em um livro para crianças menores rende imagens instigantes.


A autora também se vale de novos elementos narrativos – personagens adicionais e descrições – para criar um final diferente, no qual é a princesa Emília Ercília, “única herdeira do País das Marervilhas”, que decide com quem vai se casar, e não o resultado da prova imposta pela rainha.


Já a versão da escritora e ilustradora Rachel Isadora mantém o título original, mas também faz uso de outros elementos: incorpora referências a línguas da África e ilustrações inspiradas em paisagens do continente. A obra ensina como se diz “olá” em somali (Iska Waran), etíope (Selam) e suaíli (Jambo, Habari).

+ Outras leituras

O gato e o diabo, de James Joyce, ilustrações de Michaella Pivetti, tradução de Dirce Waltrick do Amarante (Iluminuras, 32 págs.,R$ 35)
O prefeito de uma pequena cidade resolve fazer um trato com o diabo em troca da construção de uma ponte, sem qualquer custo. Nesse breve conto de um dos mais importantes escritores do século 20, o leitor só fica sabendo quem é o mais esperto no último instante.



Teimosinha, de Fabrício Carpinejar, ilustrações de Guto Lins(Melhoramentos, 32 págs., R$ 35)
Lucila é a filha querida de uma mãe superprotetora e pede a ajuda do leitor. Em primeira pessoa, o texto poético, que fica completo com as ilustrações, explica por que a menina odeia tanto suas festas de aniversário.



Se você quiser ver uma baleia, de Julie Fogliano, ilustrações de Erin E. Stead (Pequena Zahar, 40 págs., R$ 34,90)
A poesia comove ao enumerar o que não se deve fazer quando se quer ver uma baleia. Podem ser coisas igualmente interessantes, como olhar para as rosas cor-de-rosa, reparar no pelicano que pode ou não estar sorrindo, ou procurar um provável navio pirata. Nada vai ajudar.



O lanche, de Vanessa Prezoto (Tordesilhinhas, 48 págs., R$ 32)
O livro imagem utiliza tinta, giz e carimbos sobre papel para contar a história de uma menina que está indo de bicicleta à padaria com seus bichos de estimação e se diverte reparando no que há pelo caminho.

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