Sobre ciência e sapiência

Os fabricantes de pianos moram na caixa de ferramentas e os pianistas, na de brinquedos

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Muitas pessoas não gostam do que escrevo. Dizem que o que eu faço não é ciência; é literatura. É verdade. Faz tempo que me mudei da caixa de ferramentas para a caixa dos brinquedos. O que me aborrece é pensarem que somente a ciência tem dignidade acadêmica. Houve mesmo o caso de uma candidata ao mestrado que teve seu projeto recusado por me citar demais e por propor um assunto que não era científico.

Psicóloga e pedagoga, ela sabia por experiência própria do poder do olhar. Há o olhar de desprezo, de admiração, de ternura, de ódio, de vergonha, de alegria… A mãe encosta o filhinho na parede e, a um metro de distância, lhe estende os braços e diz sorrindo: “Vem”. Há olhares que dão coragem. E há olhares que destroem, como o da professora que olha para a criança de um certo jeito, sem nada dizer. Mas a criança entende o que está dizendo: “Como você é burra”…

O olhar é real porque produz efeitos reais. O olho é também real. Há uma especialidade médica que se dedica a eles. Mas não encontraremos referências ao olhar nos tratados de oftalmologia. Nem tudo o que é real pode ser pescado com as redes metodológicas da ciência. Será possível fazer uma ciência dos olhares? Não tem jeito. Aí a proposta de uma dissertação sobre o olhar foi rejeitada sob a justa alegação de que não era científica. E não era mesmo. Mas o fato é que os olhares são reais! O estudo dos olhos é tarefa da ciência. E por isso eu sou agradecido. Nesse momento estou usando óculos para escrever. Mas eu me dedico ao olhar, para que meus olhos sejam sábios. O olhar é uma música que os olhos tocam.

Se os olhos não serviram como metáforas, falarei sobre os pianos Steinway, os mais perfeitos, que estão nas grandes salas de concerto, produzidos de forma rigorosa e científica. Tudo neles tem de ter a medida exata. Todos têm de ser absolutamente iguais, para que o pianista não estranhe. Mas um piano, em si mesmo, é estúpido: obedece tanto a um toque de macaco, de um louco ou do Nelson Freire.

Os pianos não são fins em si mesmos. São ferramentas construídas para tornar possível a beleza da música. Mas a beleza não é um objeto de conhecimento científico. Não me consta que nenhum dos especialistas em construção de pianos da fábrica Steinway jamais tenha dado um concerto. Ciência eles têm. Mas falta-lhes a arte. Para que o piano produza beleza há os pianistas. Mas os pianistas nada sabem sobre ciência da construção dos pianos. Os fabricantes de piano moram na caixa de ferramentas; os pianistas, na de brinquedos.

A diferença está entre “ciência” e “sapiência”. Os teólogos medievais diziam que a ciência era uma serva da teologia. Parodiando, digo que a ciência é uma serva da sapiência. A ciência é fogo que aumenta o poder dos homens sobre o mundo. A sapiência usa o fogo da ciência para transformar o mundo em comida, objeto de deleite. Sábio é aquele que degusta. Mas, se o cozinheiro só conhecer os saberes que moram na caixa de ferramentas, é possível que o excesso de fogo queime a comida e, eventualmente, o próprio cozinheiro…



Rubem Alves é educador e escritor.

e-mail:



rubem_alves@uol.com.br


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