Sobre cérebros e computadores

Senso comum tende a comparar o funcionamento cerebral com o de softwares e hardwares — mas a neurociência desmente esses mitos. Leia mais na coluna de Fernando Louzada

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cérebro

Crédito: Shutterstock

Há alguns anos, a revista Nature publicou um estudo realizado com professores em cinco diferentes contextos (Reino Unido, Holanda, Grécia, Turquia e China), nos quais foi avaliada a concordância dos profissionais em relação aos chamados neuromitos — afirmações equivocadas sobre o cérebro que acabam se tornando senso comum. Os números são alarmantes. Por exemplo, a maioria esmagadora, acima de 95%, acredita que os alunos aprendem melhor quando recebem informações em seu estilo preferido de aprendizagem – visual, auditivo ou sinestésico. Esta concepção não encontra nenhum respaldo na neurociência. No ano passado, um grupo de aproximadamente 30 neurocientistas (que incluía nomes como Steven Pinker, Colin Blakemore e Uta Frith), utilizando o caso dos estilos de aprendizagem, escreveu uma carta ao jornal inglês The Guardian alertando os educadores a respeito da necessidade de promover um olhar crítico sobre os supostos benefícios educacionais baseados na neuro­ciência. Outra ideia também equivocada e bastante difundida é a crença de que o cérebro é um computador.

Gerald Edelman, Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1972, dizia que o cérebro é o objeto material mais complicado do universo. Realmente, compreender e explicar o funcionamento da matéria viva não é uma tarefa fácil. Ao longo da história, surgiram inúmeras metáforas na tentativa de simplificar fenômenos complexos dos seres vivos. No caso do cérebro, é interessante observarmos como as metáforas mudaram, não apenas por ter sido adquirida uma melhor compreensão de seu funcionamento, mas porque elas estão intimamente atreladas ao desenvolvimento tecnológico da época. O funcionamento cerebral, inicialmente explicado por princípios hidráulicos, mais tarde virou uma rede telefônica, para posteriormente ser comparado a um supercomputador. Atualmente, conceitos da física quântica têm gerado novas metáforas, que talvez cumpram melhor sua função do que as anteriores.

A imagem do cérebro como um computador não reflete a essência da dinâmica cerebral. De acordo com os modelos computacionais que o representariam, os sinais ambientais fornecem informações de entrada sem nenhuma ambiguidade. O cérebro possuiria uma série de programas, os quais seriam capazes de modificar estados baseados nas informações trazidas pelas entradas, fornecendo saídas apropriadas. Caso tudo isso fosse verdade, a previsibilidade das saídas, ou seja, do comportamento humano, seria praticamente absoluta. Entretanto, não é assim que acontece. Sabemos que as entradas de informação não são desprovidas de ambiguidade. Além disso, o mundo não é uma fita ou um gabarito com uma
sequência fixa de símbolos que o cérebro tem de ler.

Ainda assim, não deixa de ser tentador estabelecer uma analogia entre os circuitos de um computador e aqueles formados pelos neurônios, os quais começaram a ser dissecados no século 19 com a brilhante contribuição de um médico espanhol. Santiago Ramón y Cajal, também ganhador do Nobel de Medicina, em 1906, estava à frente de seu tempo – não é à toa que é chamado de “pai da neurociência moderna”. Mesmo usando microscópios rudimentares, Cajal produziu belíssimos desenhos de células nervosas e suas ramificações. Seu trabalho foi fundamental para o desenvolvimento da concepção atual das conexões existentes entre os neurônios, as sinapses. Ele acreditava que os neurônios poderiam modificar sua estrutura física a partir de contínuos estímulos que recebem. O termo ginástica cerebral, utilizado por ele para falar a respeito dessas mudanças, foi motivo de zombaria na época. Afinal, apenas células musculares sofrem hipertrofia. Na verdade, hipertrofia neuronal não acontece, mas a estrutura física dos neurônios e, consequentemente, das redes que são por eles formadas, muda continuamente.

Cajal comparou o cérebro a um jardim repleto de incontáveis árvores, que podem multiplicar seus galhos e fazer com que suas raízes cresçam mais profundamente, produzindo diariamente requintadas flores e frutos. Essas mudanças descritas de maneira poética por Cajal podem significar o fortalecimento ou enfraquecimento das conexões estabelecidas entre essas células. Atualmente, técnicas mais sofisticadas possibilitam a visualização dessas mudanças em encéfalos de animais de laboratório. A plasticidade neural é mais ampla do que se imaginava, principalmente em alguns períodos do desenvolvimento, como a primeira infância e a puberdade. A influência ambiental, representada por nossas experiências, é capaz de alterar o funcionamento cerebral. Consequentemente, a estrutura física do cérebro também se altera. Em outras palavras, nossas experiências esculpem continuamente os circuitos cerebrais; nosso cérebro hoje será diferente do que ele foi ontem.

Para aqueles que insistem em fazer comparações entre cérebros e máquinas, dizendo que o cérebro é o hardware do computador e a atividade mental o soft­ware, faço uma provocação: alguém compraria um computador cujo hardware mudasse a cada vez que fosse utilizado? É isto que acontece com o cérebro. Por este motivo, ao contrário do que muitos acreditam, o cérebro não é um computador, não funciona como tal e sua essência é muito distinta dos princípios do mundo digital. E é nessa essência que reside a riqueza da espécie humana.

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