Sirenes ou músicas

O tempo da escola não é o do corpo. Os alunos devem aprender a marchar em ordem unida nas horas certas

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 Antonio Larghi




Os marcadores de tempo foram inventados para informar os homens de que o tempo do corpo não é igual ao tempo da sociedade. O tempo do corpo é dormir quando está com sono, acordar quando não tem sono, comer quando tem fome… A felicidade de viver sob o ritmo do tempo do corpo só é possível aos indivíduos isolados, fora da sociedade, esse grande relógio que nos obriga a fazer as coisas segundo o seu tempo – que não é o do corpo, é o da máquina.



Primeiro foram os sinos das igrejas. Tocavam para despertar os dorminhocos. O tempo de Deus não é o do sono.
 

Os sinos tocam e homens, mulheres e crianças se levantam com sono e contra a vontade para ir à Igreja e não irem para o inferno. O medo do inferno é um poderoso estímulo para que os homens obedeçam às ordens dos sinos.




Depois, com o advento das fábricas inventaram os apitos. As fábricas apitavam às 7h para despertar os operários que tinham de entrar no trabalho às 8h. Também os faltosos e retardatários sofriam punições. Não era o perigo do inferno; era o perigo de perder o emprego.
O corpo não tem direitos no tempo do trabalho.

Ele precisa aprender as lições das engrenagens.




Pois eu estava no pátio de uma escola conversando com adolescentes quando o nosso tempo de brincar com os pensamentos foi varado por uma sirene estridente. Também o tempo da escola não é o do corpo. Os alunos devem aprender a marchar em ordem unida nas horas certas. Se não obedecerem à ordem da sirene, sofrerão punições. Se assim não for, a escola vira uma bagunça.
 

O modelo é a fábrica, é o exército. Todos pensando as mesmas coisas, no mesmo lugar, ao mesmo tempo, no mesmo ritmo.




Toca a sirene. Aula de português. Toca a sirene. Fim da aula de português. Início da aula de matemática. Toca a sirene. É o fim da aula de matemática. Início da aula de ciências. As sirenes ordenam mudanças no pensamento. É preciso pensar as mesmas coisas nas mesmas horas e parar de pensar o que se estava pensando e passar a pensar pensamentos de outra matéria.
 

Isso, de acordo com a grade curricular, magnífica expressão inventada por um carcereiro que perdeu o emprego por chegar atrasado. A televisão é assim. Os programas acontecem nos horários pré-determinados. Esse é o caminho do pensamento – o mesmo dos programas de televisão.




Não gosto disso. Não há psicologia que explique. O pensamento não funciona ao tempo das sirenes e dos relógios. Provocado pelo barulho da sirene, pensei: “
Não vão abolir a sirene como marcador de tempo. Mas bem que poderiam substituir a sirene por um outro som. Música! Semana Beethoven: as marcações do tempo seriam pedaços de peças de Beethoven. Acordes da Nona Sinfonia, último movimento. Quinta Sinfonia.
 

Semana Mozart: Uma pequena serenata, os acordes iniciais da Missa da Coroação, a Marcha Turca.

Semana Villa-Lobos, semana Tom Jobim, semana Pixinguinha, semana Brahms.



E talvez surgisse, a pedido dos próprios alunos, a prática de se tocar música baixinho, durante as aulas. Dizem que as vacas dão mais leite quando escutam música clássica. Por analogia afirmo que os alunos ficam mais inteligentes quando ouvem música…



Rubem Alves é educador e escritor

E-mail:



rubem_alves@uol.com.br





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