Sinal de alerta

ESPECIAL CRISE / SALÁRIO | Edição 205 Com a desaceleração da economia e a inflação em alta, diferentes setores econômicos enfrentam dificuldades para recompor …

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ESPECIAL CRISE / SALÁRIO | Edição 205

Com a desaceleração da economia e a inflação em alta, diferentes setores econômicos enfrentam dificuldades para recompor as perdas salariais dos trabalhadores

por Luciene Leszczynski

© Shutterstock

A cada nova divulgação de resultados, aumenta a sensação de agravamento da crise econômica. De janeiro a novembro, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou alta de 9,62% – o maior valor desde 2002 (10,22%) – e o Produto Interno Bruto (PIB) recuou 4,5% no 3º trimestre em relação ao mesmo período de 2014. Já a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) revelou que o desemprego nacional chegou a 8,7%. Entre os jovens com idade entre 18 e 24 anos, a taxa se aproximou da casa dos 20%.

Em análise sobre a evolução do mercado de trabalho, divulgada em outubro de 2015, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) ainda apontou um encolhimento de 0,7% no rendimento médio real dos trabalhadores, que passou de R$ 1.841,99 para

R$ 1.828,53 entre o segundo e o terceiro trimestres. “Talvez ainda mais preocupante seja a ausência de indícios de reversão nesse contexto. Pelo contrário, a contratação por salários cada vez menores, ao menos no âmbito do setor formal, constitui um fator que tende a contribuir para o agravamento no desempenho desse mercado em um futuro próximo”, alerta o boletim.

Todos esses fatores somados estão impactando diretamente a saúde financeira de empresas e organizações dos mais diversos setores. Segundo o relatório Balanço das negociações dos reajustes salariais do 1º semestre de 2015, divulgado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), 15% dos reajustes salariais ficaram abaixo da inflação. O percentual é o maior desde o primeiro semestre de 2008, quando 11% dos reajustes não recompuseram as perdas com a inflação. Uma vez que os reajustes iguais à inflação corresponderam a pouco mais de 16% do total, os acordos que não obtiveram aumentos reais totalizaram 32%, aproximadamente.

De acordo com José Silvestre, coordenador de relações salariais do Dieese, a crise tem batido forte na indústria, setor que há mais de três anos vem sinalizando o enfraquecimento da economia. “A indústria é o setor que irradia para toda a economia, para o bem e para o mal. Se a indústria vai mal, isso acaba se refletindo na economia como um todo”, analisa.

Ensino superior

De fato, as perdas também se estendem a outras áreas, como a educação. “A questão é que toda crise traz muitas incertezas. Além da crise econômica, vivemos uma crise política e institucional. O reflexo no setor educacional é direto em função do impacto da desaceleração na renda das famílias e na expectativa de empregabilidade dos jovens, que está em queda”, analisa o economista Anaor D. Carneiro da Silva, diretor de finanças e planejamento da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Levantamento realizado pelo Semesp mostrou que as instituições de ensino superior privadas tiveram uma queda de 30% nas matrículas no 2º semestre de 2015 em comparação com o mesmo período do ano anterior. Com menos alunos ingressando, as instituições estão tendo de rever seus investimentos para minimizar o desequilíbrio provocado, principalmente, pelo corte no Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e no ProUni.

Como resultado, a política salarial do setor também está sob pressão. “Em momentos de dificuldades como este, a tendência é os empregadores serem mais austeros nas negociações”, comenta Silvestre. O coordenador do Dieese também comenta que o desempenho das negociações salariais costuma ser melhor no segundo semestre do ano, no entanto os números da economia não parecem ajudar. “A conjuntura já é extremamente difícil, mas a crise política é ainda maior e deve continuar contaminando a economia”, lamenta.

Em 2015, o reajuste salarial no ensino superior privado foi acima da inflação e chegou a 8%. Para 2016, no entanto, o cenário ainda está incerto. “É preciso ver como ficará a crise política e econômica. Na área educacional, a crise acontece mais especificamente por falta de decisão no âmbito político e de diretrizes mais claras. O setor precisa de segurança para planejar”, ressalta Hermes Ferreira Figueiredo, presidente do Semesp.

Celso Napolitano, presidente da Federação dos Professores do Estado de São Paulo (Fepesp), concorda que as dificuldades nas negociações salariais e em outras pautas levantadas pelos trabalhadores da educação acabam prejudicadas pelas incertezas da atual conjuntura político-econômica. A boa notícia, porém, é que não há indicativos de um grande fluxo de demissões nas instituições de ensino superior. Napolitano aguardava para o final de 2015 um turnover natural no quadro de trabalhadores, que acontece tradicionalmente a cada final de semestre, quando as instituições avaliam o desempenho dos professores e fazem as substituições baseadas no cumprimento de metas estabelecidas para os docentes.

Revisão de investimentos

A queda nas receitas não está ameaçando apenas a recomposição salarial dos empregados do setor. O reajuste das mensalidades também terá de ser segurado, o que corrobora a baixa perspectiva de investimentos das instituições, prejudicando a abertura de novas salas de aula ou a adoção de novas tecnologias, por exemplo. A solução para minimizar a queda no número de ingressantes e conter a evasão também passa pela perda da rentabilidade. É o que está acontecendo ou o que acontecerá com as IES que adotarem linhas alternativas de crédito e concederem um número maior de descontos e bolsas de estudo.

Na opinião do diretor do Mackenzie, grande parte do custo das instituições de ensino está ligada à manutenção das salas de aula, seja com o pagamento de salário dos professores ou insumos necessários à atividade docente. “As instituições de ensino funcionam em ciclos acadêmicos que não conseguem mitigar a expectativa de receita. Dado o início, deve-se carregar o custo pelo ciclo todo”, salienta Silva. Nesse aspecto, as IES acabam punidas com mudanças repentinas nas políticas sociais ligadas à educação, como as restrições ao Fies, ou incertezas da economia, que diminuem o poder aquisitivo das famílias, como reforça o diretor.

As consequências da atual conjuntura político-econômica também atingem o capital humano. “Em termos de desenvolvimento do país, as dificuldades enfrentadas pelas instituições de ensino acabam gerando uma grande perda na transferência de conhecimento, o que é ruim para a economia”, ressalta o diretor do Mackenzie. “Qualquer movimento que afete negativamente a educação é ruim para o país. O atraso na formação dos alunos significa menos mão de obra qualificada. A indústria perde e o setor de serviços fica prejudicado”, lamenta.

Na opinião do presidente do Semesp, contudo, o Brasil atingiu um patamar de importância na economia mundial que barra a ocorrência de um retrocesso mais impactante na educação. O aumento da conscientização sobre a importância da escolarização, somado ao aumento expressivo de pessoas com curso superior – o que influencia de forma decisiva as gerações seguintes –, torna ainda mais inconcebível um encolhimento de grandes proporções. De seu ponto de vista, em momentos de crise é que se observa uma busca ainda maior pela qualificação profissional – uma forma de fazer frente às dificuldades econômicas. É essa demanda que deve manter o setor aquecido pelos próximos períodos. “É em épocas de crise que as escolas crescem, porque as pessoas entendem que o avanço na formação é o que vai permitir que melhorem de vida”, analisa Figueiredo, prevendo assim que este também é um momento de oportunidade para as instituições.

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