Show business

A escola dita tradicional ultrapassou, há muito, o nível do absurdo

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Concordo com o Mestre Agostinho, quando ele nos diz que as instituições sempre se corrompem e acabam por ser inúteis. A instituição Escola arrasta a sua degradação pelos caminhos do ridículo e da desumanização. O último exemplo de degradação colhi-o numa revista, onde li esta pérola de "jornalismo educacional":

Prender a atenção de dezenas de jovens que passam horas a fio entre apostilhas é um desafio e tanto. Para manter os alunos atentos, professores de cursinhos cantam, tocam e simulam. Esses professores são disputados e se transformam em chamarizes dos cursinhos. Alguns destes novos bardos da pedagogia escrevem apostilhas e ganham comissão pelas vendas.

A escola dita tradicional ultrapassou, há muito, o nível do absurdo. Mas parece que poucos disso se apercebem. Chegámos ao tempo do show business pedagógico. Dê-se a uma geração de hedonismo exacerbado os conteúdos sob a forma de rave, de balada, porque, depois de a imbecilidade se ter travestido de pedagogia, nada mais poderá ser inventado para disfarçar o drama.

Embalados por canoros mestres, os jovens vão sobreviver mais facilmente no "salve-se quem puder" egoísta, que lhes poderá render o acesso à universidade em detrimento do acesso do outro. que vai cantarolando ao seu lado. A ética da alteridade está ausente nos lugares onde, pavlovianamente, alunos memorizam a resposta certa, sem chegarem a saber por que é aquela a resposta certa…

Referindo-se às escolas do século 19 – que, mais data show menos pau de giz, em nada diferem das escolas que temos no século 21 -, Stefan Zweig escreveu: Um exército formidável de guardiães disfarçados de professores organiza-se para roubar à juventude a sua espontaneidade e a sua alegria. Nesta época, uma pedagogia maldita, à custa de meios artificiais e antinaturais, afasta os jovens de toda a sinceridade. Uma geração de pedagogos sem conhecimentos faz um mal inapreciável à juventude. No século 21, resta saber até quando as escolas irão enfeitando a sua falência com frivolidades, infantilizações metodológicas e outros disfarces. 

A jornalista que assina o artigo do qual extraí as citações conclui: O vestibular exige muito dos estudantes, e não podemos ficar só na decoreba. E eu compreendo a lógica: o absurdo do vestibular é amaciado com o absurdo do show business. E a pobre da jornalista não tem culpa dos disparates que escreveu. Não é pedagoga, nem tem obrigação de saber que, tal como nos diz Apel, ciência não é acumulação de saber cristalizado, mas inovação em processo. Ou o que nos disse Tchékov: "os homens inteligentes querem aprender; os outros querem ensinar". 

Ainda no referido artigo, uma estudante que pretende cursar medicina exclama: Ficamos curiosos para saber que música o professor escolheu e que ponte vai fazer com a matéria! A estudante está curiosa e eu estou preocupado com os médicos que irei encontrar pelo caminho, na vida que me resta. Mas, se é verdade que, escutando Bach e Mozart, as vacas produzem mais leite, e se os pastores de certas igrejas seduzem os crentes com "shows de fé", por que não transformar as escolas num permanente festival da canção? Resultará? Não esqueçamos que, no conto "O Flautista de Hamelin", é pela música que o flautista seduz os ratos e os arrasta para o abismo.

Se o sábio Salomão disse que respondêssemos aos loucos conforme sua loucura, talvez possamos aplicar a essas vedetas do show business vestibular aquilo que Nietzsche, sarcasticamente escreveu: O professor constitui um mal necessário. Afinal, é inevitável que os intermediários desvirtuem, quase sem querer, o alimento que transmitem.
 



José Pacheco – Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal) –



josepacheco@editorasegmento.com.br

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