Sem provas nem certezas

Confiar no aluno significa apostar na sua emancipação

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Ela não pode ser um imperativo moral, pois resiste a qualquer sorte de voluntarismo: não se pode ordenar ao outro que a tenha, tampouco a exigir de si mesmo. Ela não pode surgir como fruto da aplicação de uma técnica ou de um procedimento pedagógico, pois nunca é o resultado de uma ação sobre o outro. Ao contrário, é sempre o produto de uma relação com o outro e só desta forma se manifesta. Tal como a fé – seu parente etimológico – guarda um ar de mistério: pode surgir ou desaparecer sem que saibamos o porquê. A noção de confiança, crucial para uma ação educativa comprometida com a emancipação, parece condenada ao esquecimento nos discursos educacionais contemporâneos.


É nela, contudo, que se funda a capacidade de superar obstáculos: a confiança em si; o sentimento de ser objeto da confiança do outro são elementos centrais nas experiências educacionais que rompem com a rotina de um fracasso anunciado. Confiar no aluno, em sua potencialidade para nos surpreender, implica romper com a aceitação da lógica mecanicista que pretende saber de antemão seu destino. A noção de confiança exige, assim, que se abdique da certeza – de que a escola reproduz a desigualdade, de que João é carente… – em favor de uma aposta. Aposta na capacidade do outro de criar – e não simplesmente de encontrar – seus próprios caminhos.  Ela não supõe que saibamos nem que aprovemos o caminho que o outro tomará; simplesmente manifesta a firme crença de que ele pode e saberá encontrá-lo. Por isso a confiança aposta na emancipação do educando, em sua capacidade de superar o que lhe foi dado como condição inicial e forjar seu lugar no mundo.


E porque a confiança implica a renúncia às tentativas de controlar o futuro do outro, ela pode emancipar também o educador de seus sonhos de onipotência. Jamais o libera, no entanto, da responsabilidade das escolhas presentes (é muito possível, aliás, que a plena assunção dessa responsabilidade seja um dos elementos cruciais para que o educando venha a ter confiança no educador). Assim, a confiança não abole a assimetria característica da relação educativa, simplesmente torna patente seu caráter inexoravelmente temporário.


Sua presença cada vez mais escassa no vocabulário da educação contrasta com a difusão e aceitação  da noção de autoestima; como que a sugerir algum grau de familiaridade ou proximidade entre elas. Nada mais enganoso. Enquanto a autoestima diz respeito a uma relação entre o indivíduo e a imagem que ele tem de si, a confiança diz respeito a uma forma por meio da qual um sujeito se relaciona com o outro e com o mundo. Ela é um conceito político, pois diz respeito a uma forma de viver com os outros. Se a autoestima pode existir a despeito do mundo e dos outros, a confiança sempre exige a experiência da alteridade. É na relação com o outro que posso manifestar minha confiança de que aquele a quem hoje educo poderá ser o educador de amanhã; que posso confiar aos mais novos a tarefa de cuidar de tudo aquilo pelo qual hoje tenho apreço e estima.


Confiar naqueles que educamos é lhes transmitir simultaneamente um legado do passado e uma esperança em relação ao futuro; é resistir à tentação de querer configurar o amanhã, sem se furtar às obrigações do hoje. É acreditar no valor intrínseco da liberdade, sem nenhuma prova de sua existência, sem nenhuma certeza de seu benefício. 

*José Sérgio Fonseca de Carvalho
Doutor em filosofia da educação pela Feusp e pesquisador convidado da Universidade Paris VII
jsfc@editorasegmento.com.b

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