Sem preconceito, com atenção

Lidar com crianças adotadas exige cuidado das escolas e dos professores

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Na escolinha de Ana Carolina, o cartão do Dia das Mães ressaltava o fato de que elas carregaram os filhos na barriga durante nove meses. A menina ficou preocupada com os colegas que eram filhos adotivos e decidiu, com a ajuda da mãe, enviar uma carta à direção. No ano seguinte, o convite não era discriminatório. Mas, no outro ano, a mudança na direção trouxe de volta a antiga abordagem.




O episódio, narrado por Gabriela Schreiner, mãe de Ana Carolina, demonstram como a escola tem papel fundamental na formação de crianças adotadas. Gabriela é diretora executiva e fundadora do Centro de Capacitação e Incentivo à Formação (CeCIF), em São Paulo (SP), voltado a profissionais, voluntários e organizações que desenvolvem trabalho de apoio à convivência familiar.



A capacitação de professores é uma das ações do CeCIF. A troca de experiências é a principal ferramenta nesse treinamento. “A escola é fundamental para assinar embaixo ou fazer frente aos preconceitos sociais”, afirma Gabriela. Como exemplo, ela menciona o caso de um aluno do interior de São Paulo, negro e adotado por uma mulher loira, que vivia trazendo reclamações da escola sobre o comportamento de professores e funcionários em relação a ele.



Embora a mãe desconfiasse de superdimensionamento dos problemas, ela sentia preconceito por parte de outros pais e da instituição, o que transparecia em reuniões, por exemplo. Por fim, decidiu matricular o menino em outra escola e usou de artifícios para se manter oculta. No início, seu filho só recebia elogios, sempre por telefone. Mas, quando a mãe se apresentou em uma das reuniões de pais e mestres, houve um choque. Sintomas de “atraso social” como esse contribuíram para que Gabriela optasse, com o CeCIF, por um trabalho mais amplo, e não apenas pontual e emergencial.





O Projeto Acalanto, de São Paulo, também trabalha diretamente com adoção e desenvolve iniciativas voltadas a escolas. Sua filosofia, desenvolvida em diversos programas, é unir esforços com a comunidade e o poder público para evitar a “institucionalização” de crianças. Mais uma vez, a troca de experiências e informações cumpre seu papel no esclarecimento da comunidade. Há ramificações do Acalanto em outros estados, com no Rio Grande do Norte.





Atento a essas questões, o jornalista Antoune Nakkhle pretende fazer com sua mulher uma pesquisa cuidadosa antes de matricular a filha, de um ano e meio, em uma instituição de ensino. “Pedagogicamente, há que se trabalhar a questão da adoção na sociedade”, analisa. Ele freqüenta as reuniões do CeCIF e do Projeto Acalanto, onde pais adotivos ou pretendentes à adoção dividem vivências e sentimentos. Nakkhle acredita que uma educação construtivista possa ser mais adequada para sua filha, e considera fundamental a atuação do professor na formação de crianças adotadas.





Na experiência da educadora Helen Dias de Moura, do Colégio Albert Sabin, em São Paulo (SP), ter como alunos crianças adotadas “nunca foi um problema, mas um elemento para entender e auxiliar no aprendizado”. Já faz parte da filosofia da escola, afirma ela, ter cuidado com situações que possam ratificar preconceitos ou gerar constrangimento. Trabalhar de maneira interdisciplinar é um dos caminhos possíveis para combater as idéias pré-concebidas, acredita Helen.





Em um dos trabalhos desenvolvidos com suas turmas, sobre a cidade grega de Esparta, os estudantes discutiram a prática de abandonar crianças defeituosas ou consideradas de saúde frágil. Com isso, foi possível debater a inclusão social de crianças deixadas à margem. O conceito de criação, que extrapola o parentesco genético, também foi debatido. Helen procura reforçar os laços de confiança com os alunos e aumentar o comprometimento deles.






Sem rótulos —

Em um debate sobre adoção, o palestrante perguntou como poderiam definir uma criança adotada. Todos começaram a dar adjetivos para classificá-la. De repente, o palestrante interrompeu a busca por definições do grupo. “Criança adotada é criança”, lembrou. Quem relata a história é Cecília Zelic, presidente da Associação Projeto Acolher, grupo de apoio à adoção e à convivência familiar. “Não há que se rotular uma criança adotada. Crianças são sempre crianças, independentemente de suas diferenças de cor, raça, sexo ou sua origem na família”, diz.





Cecília, que também é mãe de dois meninos adotivos, acredita que a maioria das escolas ainda não está preparada para lidar com o assunto adoção. Ela conta que já ouviu a seguinte frase de uma educadora: “Aquele adotado me riscou toda a parede.” Com relação a seus filhos, também já enfrentou discriminação. O mais velho sempre foi muito levado, o que levou a professora a chamá-la para conversar sobre “aquele problema” – que, segundo a educadora, era o fator responsável pelo comportamento da criança. “Se você está se referindo à adoção, em casa ele não tem nenhum problema com isso e não vai ser a escola que passará a criá-los”, respondeu Cecília.





A curiosidade dos amigos de Tiago, seu primeiro filho, a respeito da chegada de seu irmão, já com um ano de idade, fez com que ele pedisse à mãe que fosse em sua classe explicar aos colegas como isso era possível. Cecília logo entrou em contato com a professora para pedir autorização, visto que também seria ótima oportunidade de aprendizado para os alunos, mas não houve interesse.





“A escola não pode se omitir ou não falar claramente sobre a adoção, mas infelizmente é o que mais acontece”, afirma. Por essa razão, ela e o marido preferiram deixar claro aos professores de seus filhos que não admitem rotulação de nenhuma maneira por serem adotados. “A diferença tem que ser respeitada e não salientada”, observa.






Preconceito —

“Existe preconceito em relação à adoção inclusive por parte dos pais adotantes, ou porque temem o preconceito da sociedade, ou porque têm seus próprios preconceitos, e daí começam uma criação com base na mentira”, analisa Maria Antonieta. Naturalizar a idéia da adoção é uma das principais metas dos grupos de apoio. Mas ainda há um longo caminho a ser trilhado: os mitos são vários, como o de que as crianças adotadas tardiamente dão mais problemas de comportamento. A herança genética e as seqüelas ou traumas do abandono também costumam causar preocupação.





Em geral, esses mitos surgem devido à falta de conhecimento. Segundo Maria Antonieta, é necessário conscientizar as pessoas para que se abram ao acolhimento de crianças que estão à disposição, como as maiores de três anos, grupos de irmãos ou que necessitam de cuidados especiais, e não somente àquelas que se encaixam em pré-requisitos.





Ela também acredita que faltam políticas públicas no acompanhamento das mães que entregam seus filhos para adoção, além de campanhas que levem ao conhecimento público a situação das crianças institucionalizadas, sensibilizando e conscientizando a sociedade. “É necessário que o governo realize algum trabalho em torno da reintegração familiar. Os abrigos fazem isso, e com muito suor!”.





Nada além da verdade





Como e quando contar a verdade à criança adotada sobre sua origem é aspecto delicado para famílias e educadores em geral. O jornalista Antoune Nakkhle não tem dúvidas de que a transparência seja o melhor caminho e condena veementemente que se esconda a adoção da criança. Desde já (sua filha Gabriela tem apenas um ano e meio de idade), ele e sua esposa se preparam para esse momento. E para outra eventualidade, comum entre jovens que sabem terem sido adotados, que é o desejo de conhecer pessoalmente os pais biológicos.




A professora Helen Dias de Moura, do Colégio Albert Sabin, em São Paulo (SP), tem em suas turmas seis alunos que são filhos adotivos. Somente um deles, de 10 anos, manifestou vontade de conhecer seus pais biológicos. No caso das adoções inter-raciais, a tendência é que esse desejo acabe se mostrando um pouco mais cedo. Mas não há regra ou idade definida para que aconteça. É fato, entretanto, que o ambiente escolar acaba por fomentar essa curiosidade, pois é comum a realização de atividades sobre a história pessoal de cada um. O educador deve estar atento para agir em conjunto com a família e tratar dessa questão com naturalidade.



 



 





Reportagem: Faoze Chibli e Camila Turriani





 





CeCIF







www.cecif.org.br








 





Projeto Acalanto







www.projetoacalanto.cjb.net








 



 


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