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Prefeitura de São Bernardo do Campo melhora rede pública de educação investindo em professores e tecnologia

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A Parceria com a comunidade, reciclagem de professores e tecnologia. Esses três pontos transformaram a educação no município de São Bernardo do Campo (SP). Há quatro anos, a rede pública sofria da doença crônica que corrói o sistema de ensino de muitas cidades brasileiras: analfabetismo. O aluno entrava analfabeto na escola, passava quatro anos esquentando as carteiras e saía sem ler nada. Levantamento da Secretaria de Educação de São Bernardo do Campo mostra que antes da municipalização do ensino fundamental (iniciada em 1998), 50% das crianças da 4
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série eram semi-alfabetizadas, ou melhor, ainda não sabiam ler e escrever corretamente. Hoje, esse número é de 0,1%. O dinheiro gasto com educação na cidade é praticamente o mesmo, até menor, pois com a municipalização, o orçamento municipal incluiu as escolas de ensino fundamental, que estavam fora da rede.





Todo mundo tinha sua parcela de culpa na ineficácia do ensino, dos pais omissos aos professores e alunos desmotivados e gestores desinteressados. Cada um deles passou de “problema” para parte da solução. A comunidade agora gere os recursos locais das escolas via Associação de Pais e Mestres (APM), os professores passam por constante reciclagem e o ensino das crianças ganhou um atrativo a mais com os laboratórios de informática.




“Estamos gastando melhor as verbas de educação”, resume Neide Felicidade, recém-empossada como secretária de Educação e Cultura do município. Ela explica que, até 1996, São Bernardo do Campo gastava 25% do orçamento com educação infantil. A partir dessa data, com a mudança na legislação, 60% dos recursos da Secretaria de Educação foram dirigidos ao ensino fundamental – que não era atendido pela rede pública.




A municipalização de 1
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série em toda a rede pública, consolidada neste ano, obrigou a um melhor gerenciamento dos recursos. “Optamos inicialmente por investir na requalificação dos professores, ponto de partida de qualquer programa de melhoria do ensino”, lembra Ademir Ferro, ex-secretário de Educação e Cultura, que se descompatibilizou com o cargo por disputar reeleição como vereador.




O processo de treinamento de professores foi o marco dessa gestão. O município inaugura, em agosto, o Centro de Formação dos Profissionais da Educação, um complexo de 20 mil m2 construído em área de 53 mil m2. São cinco prédios independentes destinados à formação dos mais de 3 mil profissionais da rede. Além disso, servirá à população em geral, pois terá um centro de convivência, bibliotecas, espaços culturais e para eventos. “O centro promoverá capacitação e pretende sediar congressos de educação”, detalha Neide.




O complexo abrigará ainda uma escola-modelo, unidade que servirá de referência para a rede pública, com dez salas de aula, quadra poliesportiva, refeitório, biblioteca interativa, banheiros adaptados para crianças e brinquedoteca – atendendo mais de mil alunos com novas técnicas educacionais. Para o prefeito Willian Dib (PSB), o projeto é a maior obra da cidade em seus 450 anos de fundação: “O Centro de Formação servirá à educação, que é o mais importante instrumento de desenvolvimento social. A concepção dessa obra, em si, já é algo artístico, futurista.” A prefeitura de São Bernardo investiu cerca de R$ 29 milhões no projeto, que contará com obras de 14 pintores e escultores.




De acordo com Ciro Pirondi, arquiteto e idealizador das obras do Centro de Formação, o espaço receberá 16 esculturas, três painéis e um jardim aquático, com esculturas de metal e vidro. “Há uma tradição no Brasil em integrar as artes plásticas à arquitetura”, comenta Pirondi.




A reforma do ensino na cidade teve a participação ativa da comunidade. Em parceria com a prefeitura, as APMs são responsáveis diretas pela melhoria na qualidade de ensino, preservação, ampliação e reaparelhamento das escolas municipais. Desde 1997, a administração já repassou R$ 60 milhões às entidades, que fazem o levantamento das necessidades de cada escola e controlam a aplicação dos recursos. “Com a participação das famílias, os alunos passam a ver a escola como a extensão de sua própria casa e preservam aquilo que é da própria comunidade”, avalia o prefeito Willian Dib.




No ano passado, por exemplo, o prefeito destinou R$ 134.356 à Escola Municipal de Educação Básica (Emeb) Marineida Meneghelli de Lucca. O dinheiro foi aplicado em obras de reforma, ampliação, compra de mobiliário e contratação de prestadores de serviços. A Emeb Marineida fazia parte da rede estadual de ensino e foi municipalizada no início de 2003. A escola já conta com as inovações executadas na rede municipal, como educação tecnológica, e passou por uma reorganização estrutural, como a contratação de professores e a implementação de merenda escolar – o almoço substituiu o lanche oferecido aos alunos.




Por falar em merenda, a prefeitura está substituindo os tradicionais bandejões pelo sistema
self-service

, evitando desperdícios de cerca de 50% dos alimentos. No horário da refeição, a própria criança se serve de suco ou leite e escolhe o que quer comer, fazendo o próprio prato. Os alunos são estimulados a experimentar diferentes tipos de alimentos, sempre com a quantidade desejada.




“Nosso projeto pedagógico foi formulado por pais, professores, funcionários e está visando à formação de pessoas boas”, destaca Andréa Rocha Alves, diretora executiva da Associação de Pais e Mestres, ao falar da confiança da prefeitura em entregar a gestão financeira para a comunidade escolar.




Clegilda Gomes de Melo, mãe de Mateus Gomes de Carvalho, estudante da 1
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série da rede municipal, afirmou que seu filho está tendo a oportunidade que ela não teve, pois estudou em condições precárias no Piauí. Para Clóvis Aparecido Ribeiro, pai de Tamires, também aluna da 1
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série, a escola está ótima e com mais qualidade de ensino: “A prefeitura garantiu o uniforme e o material, isso veio me ajudar muito, pois sou trabalhador autônomo e não tinha condições de comprar o que minha filha precisa na escola.”




Além dessas iniciativas, há ainda o Centro de Educação Especial, que deverá ser entregue até julho, com diversas salas, piscina aquecida e quadras poliesportivas. O novo espaço irá centralizar as atividades para os alunos de educação especial, que hoje estão distribuídos em unidades da rede.




Em São Bernardo, são atendidas cerca de 3 mil crianças e jovens carentes com deficiências mental, auditiva, física ou múltiplas. Em 1996, eram atendidos apenas 900 usuários pela rede pública municipal. Desde 1997, a educação especial conta com uma estrutura física e de ensino mais especializada e mais bem aparelhada para atender os casos de deficiência mental, visual, neuropsicomotora e auditiva.




Além da reforma, ampliação de escolas e compra de mobiliário, os recursos também têm sido aplicados em programas, como o laboratório de informática e a biblioteca interativa (
leia mais no quadro ao lado

).




Outra iniciativa da secretaria é a criação dos Ateliês de Arte. Existem 12 em funcionamento nas escolas da rede pública, com espaço exclusivo para aulas de arte e exposições. As crianças também freqüentam diversas exposições de artes e os principais museus de São Paulo. O artista plástico Adélio Sarro foi um dos convidados a visitar a rede pública da cidade. Sarro está expondo na 9
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Mostra de Arte da cidade, que acontece na sede da Secretaria de Educação e Cultura.




Reconhecido no Brasil e no exterior, Adélio Sarro tem pinturas e esculturas expostas em galerias de São Paulo, Curitiba, Goiânia, Bélgica, França, Alemanha e Nova York, entre outras localidades. Em sua visita à Emeb Valderez Avelino, Adélio Sarro reproduziu um de seus trabalhos em um painel, contou aos alunos um pouco de sua trajetória artística e falou sobre técnicas de pintura. “Espero que essa visita sirva de incentivo para as crianças que sonham um dia seguir esse caminho”, disse, para depois afirmar que o trabalho de incentivo à arte nas escolas ajuda na formação cidadã do aluno. “Sentimos o reflexo da violência porque no passado não houve essa preocupação com as crianças. A arte faz com que elas se tornem mais dóceis, menos agressivas. É importante para o futuro delas e do país”, avalia.




Com 38 anos de vida pública na prefeitura – em cargos de professora, diretora, assistente e agora secretária de Educação e Cultura -, Neide atesta a evolução do ensino no município. “Saímos de uma condição muito precária para o orgulho de sermos modelo até para o MEC”, diz, referindo-se ao interesse do governo em estimular a experiência das bibliotecas interativas para todo o país.


Desde 1998, além de reformar todas as escolas até então sob responsabilidade do Estado, a prefeitura construiu outras 30 e ampliou de 29 mil para 92 mil o número de alunos matriculados. Até o fim de 2004, deverão ser entregues seis prédios para atender cerca de mais 4,5 mil alunos que não tinham acesso à educação infantil.
(JMR)



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