Sem orientação

Jovens fazem da web a principal fonte de pesquisa escolar

Compartilhe
, / 834 0




Sérgio Rizzo




Era uma vez um lugar para o qual as crianças e os jovens se dirigiam, encaminhados por seus pais, em busca de formação. Ali, graças a pessoas mais sábias que recebiam o título de professores, eram apresentados diariamente a assuntos novos que enchiam o quadro negro. Um bom aluno ouvia com atenção o que os mestres diziam, copiava o que escreviam, lia os livros que recomendavam. Ao chegar em casa, contava aos pais o que aprendera. E então se constatava que o tal lugar cumpria o papel social (e exclusivo) a que era destinado – guiar crianças e jovens pela estrada do conhecimento.









 Annelise Salder





 Tocantins: quanto mais distantes dos grandes centros, mais curiosos são os alunos



Escola, era como batizavam esse lugar. Ainda o chamam assim, embora já não tenha o antigo status. O primeiro golpe foi desferido no final dos anos 50, com a popularização da TV, atraente fonte de entretenimento, informação e transmissão de valores. Até hoje a escola não sabe direito como se comportar em relação a ela, ainda que crianças e jovens passem, ao longo do ano, mais horas diante do aparelho do que na sala de aula. Desde meados dos anos 90, outra novidade tecnológica surgiu no cenário. Desta vez, no entanto, ninguém fala em ignorá-la, muito menos em combatê-la.



Ao contrário: celebra-se, como um avanço para a produção de conhecimento, a universalização do acesso à Internet – rede mundial de computadores que fornece, por meio de seu ambiente gráfico, a
World Wide Web

, um volume de informações muitas vezes superior à capacidade de assimilação do ser humano. Informações sobre todos os assuntos, incluindo os que interessam à formação de crianças e jovens. Para ter acesso a elas, bastam dois procedimentos básicos de navegação: abrir um
browser

(no ambiente Windows, o Internet Explorer – o “explorador da rede”) e clicar nos ícones de acesso aos endereços dos
web sites

, os sítios em que se armazenam textos, imagens e sons.



Usar, portanto, é fácil. Mas como usar? E com quais objetivos? As respostas, para muitos professores, ainda são vagas. Muitos são internautas de primeira viagem e navegam por esse vastíssimo oceano como nossos antepassados, na época dos descobrimentos, enfrentavam o desconhecido: alguma idéia de onde chegar, alguma idéia de como fazê-lo, mas nenhuma certeza de que alcançariam o objetivo. Seus alunos vêem-se muitas vezes diante das mesmas dificuldades. O desafio, nesses casos, envolve inevitavelmente tempo e esforço: o professor disposto a usar a Internet como ferramenta pedagógica será obrigado a rever e adaptar seus processos de trabalho. Não basta indicar a Internet como fonte de pesquisa e esperar que os “buscadores” resolvam tudo


.

“Para que o aluno encontre informações úteis e significativas para a consecução do projeto que se está desenvolvendo, são indispensáveis paciência, determinação, organização e orientação, sem falar de um bom computador e de uma conexão firme”, afirma a pedagoga Sônia Bertocchi, formadora e pesquisadora do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária). “Pesquisar exige bom senso, intuição, direção. É preciso que o aluno leia e perceba as informações que aparecem na tela com um propósito determinado. Cabe ao professor deixar bem claro ao aluno esse propósito, o objetivo da busca e a natureza da informação que se busca. Cabe a ele, também, propor ao aluno fazer uma confrontação das ocorrências de uma pesquisa”.

Essa atitude, lembra Sônia, pressupõe investir tempo em planejamento e na sua comunicação aos alunos. “Um bom caminho para se evitar o ‘Ctrl+c Ctrl+v’ [
atalhos do teclado para copiar e colar informações

] desenfreado, o comodismo e o plágio”, avisa. Já existem metodologias para direcionar os alunos a fontes de qualidade em sua pesquisa. “Uma delas é o
webquest

, estratégia de trabalho previamente preparada pelo professor, colocando aos alunos desafios que envolvem a pesquisa em sites indicados, mas que também cobra a interação dos alunos com o conteúdo pesquisado”, analisa Lílian Starobinas, coordenadora do programa “Educar na Sociedade da Informação”, da Cidade do Conhecimento, projeto da Universidade de São Paulo.

“Solicitar um texto criativo (uma entrevista fictícia, um manifesto de moradores de uma região, a defesa de um advogado etc) obriga o aluno a aprofundar-se na leitura e ir mais além do ‘copiar e colar'”, sugere. O professor discute com os alunos a criação de critérios para avaliar a confiabilidade das fontes pesquisadas. Trata-se de material de instituição renomada? Há informações sobre o autor do texto? Há endereço para contato, caso haja a necessidade de checar dados? Percebe-se alguma posição tendenciosa no material? “O aluno deve se exercitar enquanto leitor autônomo de qualquer mídia. A Internet é só uma delas”, argumenta.

A própria Internet traz farto material de orientação ao professor. Os velhos e bons livros também ajudam. Um dos primeiros best-sellers especializados foi o
Guia do Professor para a Internet

, das norte-americanas Ann Heide e Linda Stilborne (Ed. Artes Médicas). As autoras examinam o impacto da rede na aprendizagem e sua integração de forma significativa ao currículo e apresentam as ferramentas e recursos disponíveis.

A publicação
Escola Pública – A Informática como Instrumento Pedagógico

, da Fundação Heydenreich, descreve um dos diversos projetos de capacitação desenvolvidos recentemente no Brasil, o
Navegar é Preciso

. Mais de 800 professores, em 46 escolas de São Paulo e Osasco (SP), participaram da experiência, aplicada ao longo de quatro anos. “Muitos deles nem sequer sabiam ligar o computador. Como poderiam ensinar as crianças a lidar com ele?”, lembra Daniella Michel, organizadora do livro, que traz orientações sobre o uso educacional da Internet.



Se o aluno não for capaz de transformar a informação obtida na Internet em algo significativo, então ela não resolve nada”, afirma Roseli Alves, gerente do setor de currículo, ensino e desenvolvimento profissional da Fundação Bradesco, que mantém 40 escolas gratuitas de educação infantil e ensino fundamental e médio, distribuídas por todos os Estados e também no Distrito Federal. Todas têm laboratórios de informática. O uso da Internet como ferramenta pedagógica faz parte dos referenciais curriculares, com indicações expressas. “O professor deve referenciar a pesquisa, apresentando aos alunos os critérios, indicando os sites, deixando claro o que será feito com os dados e qual o gênero de texto a ser produzido”, explica.




O cuidado não impede, contudo, que surjam casos de plágio nas escolas da fundação – fenômeno em que o aluno copia textos da Internet e os apresenta como se fossem seus. “Não aceitamos um trabalho assim, mas chamamos o aluno para conversar, porque se trata de um momento importante para refletir sobre a sua atitude. Queremos saber o que aquilo significou para ele”, diz Roseli

.



Há um desafio, no entanto, que não se apresenta aos professores, e sim aos governos: possibilitar infra-estrutura de acesso à Internet às escolas públicas, como no ensino privado, sob o risco, no médio e longo prazos, de criar diferentes categorias de cidadãos. “O aluno bem iniciado no uso da Internet na escola particular transitará com muito mais facilidade pelo mundo profissional”, prevê Lílian Starobinas. “Em geral, esse aluno possui também acesso em casa, o que permite que ele experimente muito mais do que a escola lhe oferece, dado o tempo e temas restritos que caracterizam o uso dos laboratórios”.

Essa possibilidade de navegação não-orientada, destaca Lílian, é muito enriquecedora, como “um momento de pesquisar interesses pessoais, chegar a universos totalmente diferentes do seu, descobrir possibilidades de criação e troca de informações sobre uma infinidade de temas”. Daí a importância de permitir que o aluno da escola pública viva tanto a experiência didática do uso da Internet, quanto a da livre navegação. “Ao propor o desenvolvimento de projetos que atendam as necessidades específicas de cada comunidade, como expressão cultural, organização comunitária e orientação profissional, programas como o
Educar na Sociedade da Informação

tentam aliar o perfil do uso escolar à perspectiva do uso comunitário. Nesse sentido, o trabalho de inclusão digital assume também o caráter de inclusão social”.

É o que demonstram outras experiências, como a da Fundação Bradesco em sua escola de Canuanã, na Ilha do Bananal (TO). “Os trabalhos mais significativos de uso da Internet, dentre todas as nossas escolas, vêm de lá”, comenta Roseli Alves. “Notamos, ali, que o acesso à Internet tem função social muito importante. Sem a escola, comunidades como essa não saberiam do que se trata. E, quanto mais distantes dos grandes centros, mais curiosos são os alunos e suas famílias”.




Nem mesmo é preciso se afastar geograficamente das metrópoles para notar os sintomas da nascente sociedade em rede. O Centro de Educação e Cultura Indígena Jaraguá, mantido pela Prefeitura de São Paulo, tem um laboratório com 13 computadores conectados à Internet. “Foi uma das solicitações das lideranças comunitárias”, explica Soraia Alexandra Zanzine Ribaric, gestora geral do centro. “Achei que seria uma luta para ensinarmos como acessar. Quando virei de costas, um dos indígenas já estava entrando em territórios proibidos, quase como um
hacker

. Foi um susto, mas até as comunidades mais arraigadas em suas tradições já vêem o computador como um item do qual não podem prescindir”.



Com a implantação do laboratório, Soraia nota que melhorou comunicação com outras aldeias. “Há também a prática corriqueira de buscarem sites que dizem respeito às questões indígenas. E, no início deste ano, fomos contatados pelo colégio São Domingos, de Perdizes [
bairro nobre da Capital

], que pretende estabelecer comunicação dos adolescentes com a aldeia para compreender melhor aspectos da cultura guarani”. O potencial
hacker

, infelizmente, foi afastado das atividades no laboratório. “Não conseguia deixar de acessar sites pornográficos”, conta Soraia. A Internet, como se vê, iguala usos, costumes e riscos.






Serviço





Escola Pública – A Informática


como Instrumento Pedagógico




, da Fundação Heydenreich




www.fbh.org.br




Educar na Sociedade da Informação



, da Cidade do Conhecimento




www.cidade.usp.br







Para ler mais, acesse:




Buscadores, a ferramenta básica






A experiência portuguesa






A psicologia do plágio



Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN