Sem notas e sem frequência

O ensino de literatura que investe em seu poder encantatório

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Havia um sorriso de criança no seu rosto rechonchudo. Olhava-nos com um olhar curioso. Professor novo de literatura. Devia saber que não gostávamos de literatura. Era chato e não servia para nada. Nós, alunos, já havíamos desenvolvido uma capacidade de conhecer o professor a partir dos primeiros dez minutos de sua primeira aula. Mas aquele professor, Leônidas Sobrinho Porto, era um enigma. E o que disse como início de conversa foi tão inesperado que ficamos sem saber onde enquadrá-lo. Cheguei a pensar que estava se divertindo. Começou a sua aula assim: "Há dois assuntos preliminares que precisamos resolver de início para que possamos nos dedicar ao que importa. O primeiro deles é a presença. Todos vocês já têm cem por cento de presença. E o segundo são as provas e as notas. Todos vocês já passaram. Resolvidas essas questões irrelevantes que perturbam o prazer de aprender, podemos agora nos dedicar ao que interessa: literatura…" E aí começou.

Ele não ensinava literatura. Não discorria sobre escolas literárias. Não prescrevia leituras a serem feitas. Ele se transformava em literatura. Encarnava os personagens. Ria e sofria como um ator. E nós ficávamos em silêncio absoluto, enfeitiçados, como se estivéssemos num teatro. Lembro-me dele possuído, vivendo o amor de Cyrano de Bergerac por Roxana. "Beijo é o ponto róseo no ‘i’ da palavra ‘paixão’…" 

E ele explicava que no francês não era "paixão"; era "amar", "aimer" – impossível em português. Se tivesse nos obrigado a ler dez livros de literatura e a aprender as características das principais correntes literárias, é certo que teríamos colado e, ao final do semestre, estaríamos do mesmo jeito como quando começamos. Mas ele preferiu tomar o atalho secreto dos mágicos, fugiu dos caminhos da burocracia.

Nós o ouvíamos porque sua fala encantava. Hoje, me veio a ideia de que o flautista de Hamelin deveria se parecer com ele. Ele não nos ensinou literatura. Ensinou-nos a amar a literatura. Por isso nunca esqueci.

Foi só um semestre. Nunca mais o vi. É possível que tenha sido mandado embora pela direção do colégio por justa causa: suas cadernetas de presença eram falsas e suas notas também eram falsas. Os mágicos são sempre trocados pelos técnicos e burocratas…

Paul Goodman foi um educador esquecido. Hoje ninguém fala nele. Também ele se horrorizava com aquilo que se fazia nas escolas para ensinar literatura. "Nunca ouvi de qualquer método que pretenda ensinar as humanidades (literatura, artes) que não termine por matá-las", escreveu. "Lembro-me de que aos doze anos, mexendo nos livros da biblioteca,? descobri o
Macbeth

e o li com paixão. Mas na sala de aula eu não conseguia entender uma única palavra do Júlio César e o odiava. Parece que a sobrevivência das humanidades depende de milagres aleatórios que estão ficando cada vez menos freqüentes." (
New Reformation: Notes of a Neolithic Conservative

, Random House, New York, p. 71 ).

Um bibliotecário de verdade não é um guarda-livros. É alguém que conhece os cenários que os livros desenham para orientar-nos em nossas viagens. Cada professor deveria ser, na sua área, um bibliotecário. Sua função não é caminhar por trilhas batidas olhando para o chão. É mostrar os cenários literários que podem ser vistos da sua trilha, se olharmos para cima… Assim se aprende um mundo.


Rubem Alves


é educador e escritor


rubem_alves@uol.com.br

Sem notas e sem freqüência

Resolvidas as questões irrelevantes que perturbam o prazer de aprender, podemos nos dedicar ao que interessa

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Havia um sorriso de criança no seu rosto rechonchudo. Olhava-nos com um olhar curioso. Professor novo de literatura. Ele devia saber que não gostávamos de literatura. Era chato e não servia para nada. Nós, alunos, já havíamos desenvolvido uma capacidade de conhecer o professor a partir dos primeiros dez minutos de sua primeira aula.  Mas aquele professor, Leônidas Sobrinho Porto, era um enigma. E o que ele disse como início de conversa foi tão inesperado que ficamos sem saber onde enquadrá-lo.

Cheguei a pensar que ele estava se divertindo… Começou a sua aula assim: “Há dois assuntos preliminares que precisamos resolver de início para que possamos nos dedicar ao que importa. O primeiro deles é a presença. Todos vocês já têm 100% de presença. E o segundo são as provas e as notas. Todos vocês já passaram. Resolvidas essas questões irrelevantes que perturbam o prazer de aprender, podemos agora nos dedicar ao que interessa: literatura…” E aí começou.

Ele não ensinava literatura. Não discorria sobre escolas literárias. Ele se transformava em literatura. Encarnava os personagens. Ria e sofria como um ator. E nós ficávamos em silêncio absoluto, enfeitiçados, como se estivéssemos num teatro.  Lembro-me dele possuído, vivendo o amor de Cirano de Bergerac por Roxana. “Beijo é o ponto róseo no ‘i’ da palavra ‘paixão’…”  E ele explicava que no francês não era “paixão”; era “amor”, “
aimer

” – impossível em português.

Se ele nos tivesse obrigado a ler dez livros de literatura e a aprender as características das principais correntes literárias, é certo que teríamos colado. Mas ele preferiu tomar o atalho secreto dos mágicos, fugiu dos caminhos da burocracia. Nós o ouvíamos porque sua fala encantava. Hoje veio-me a idéia de que o flautista de Hamelin deveria se parecer com ele. Ele não nos ensinou literatura. Ensinou-nos a amar a literatura. Por isso nunca esqueci.

Foi só um semestre. Nunca mais o vi. É possível que tenha sido mandado embora pela direção do colégio por justa causa: suas cadernetas de presença eram falsas e suas notas também eram falsas. Os mágicos são sempre trocados pelos técnicos e burocratas…

Paul Goodman foi um educador esquecido. “Nunca ouvi de qualquer método que pretenda ensinar as humanidades (literatura, artes) que não termine por matá-las”, escreveu. “Lembro-me de que aos 12 anos, mexendo nos livros da biblioteca, descobri
Macbeth

e o li com paixão. Mas na sala de aula não conseguia entender uma única palavra de
Julio César

e o odiava. Parece que a sobrevivência das humanidades depende de milagres aleatórios que estão ficando cada vez menos freqüentes.” (
New Reformation: Notes of a Neolithic Conservative

, Random House, New York, p. 71 ).

Um bibliotecário de verdade conhece os cenários que os livros desenham para orientar-nos em nossas viagens. Cada professor, na sua área, deveria ser um bibliotecário. Sua função não é caminhar por trilhas batidas olhando para o chão. É mostrar os cenários literários que podem ser vistos se olharmos para cima… Assim se aprende um mundo.




Rubem Alves é educador e escritor

E-mail:



rubem_alves@uol.com.br



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