Sem disfarces

Brincar com fantasias ajuda crianças a exteriorizar sentimentos, mostra traços da personalidade – e pode ser importante ferramenta pedagógica

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Daniela Tófoli



 

No salão de faz-de-conta da Escola Carlitos, em São Paulo (SP), princesas de reinos diversos conversam entre si enquanto super-heróis de todos os tipos correm uns atrás dos outros. Quem olha pela porta pode achar que eles estão apenas brincando. Mas, para os educadores do colégio, essas crianças fantasiadas estão exteriorizando seus sentimentos, desenvolvendo a imaginação e mostrando traços da sua personalidade. Pode não parecer, mas uma fantasia pode ser tão importante quanto um livro, um jogo ou a lousa dentro de uma escola.



Atentos ao comportamento e ao desenvolvimento dos alunos, cada vez mais colégios estão usando as fantasias como parte do material didático. Na Carlitos, quase todos os dias os pequenos podem escolher o personagem que vão ser. “A fantasia é importante porque permite à criança vivenciar outros papéis e, nessa experiência, ela começa a compreender as relações dos adultos com o mundo e vai amadurecendo”, explica Ana Maria Martirani de Almeida Felice orientadora da educação infantil da escola. “Também conseguimos identificar os interesses das crianças naquele momento e entender melhor algumas situações.”



Por meio da fantasia, os educadores podem perceber, por exemplo, se a criança é muito tímida (e nem gosta de usar essas roupas divertidas) ou se tem espírito de liderança (e quer ser sempre o personagem principal). Podem descobrir também comportamentos que os pais adotam em casa. “Quando uma criança brinca de casinha, imita os pais.

E daí é possível notar até de que jeito a mãe fala com a empregada e como o pai dá bronca”, explica Fany Barocas, assessora-pedagógica do paulistano Colégio I.L. Peretz. “Também dá para descobrir se tem alguma criança muito isolada, muito rebelde ou muito influenciada pela TV, por exemplo. E, se notamos alguma coisa diferente, conversamos com a família. A fantasia nos ajuda bastante.”



No I.L.Peretz, as crianças podem usar fantasias uma vez por semana, na casa de bonecas. “Elas escolhem aquela que mais se identificam e acabam dramatizando situações que vivem no dia-a-dia”, conta Fany. Para não ter confusão, as professoras combinam o horário de tirar a roupa antes de outra atividade começar, mas sempre tem aquele que quer continuar fantasiado. Nesses casos, a escola conversa com a criança para explicar como funcionam as regras. “A gente vai colocando limites aos poucos”, completa Fany.



Assim como há alunos que não querem deixar a fantasia de lado, tem os que não querem nem chegar perto delas. “Algumas crianças têm vergonha de colocar uma fantasia, tem medo de deixar de ser ela e precisamos respeitar esse comportamento”, diz Ana Maria, da Carlitos. “Nesses casos, estimulamos que elas entrem no faz-de-conta de outra forma, como na brincadeira de casinha.”



Edda Bomtempo, professora da Faculdade de Psicologia da USP, concorda que as crianças não devem ser forçadas a se fantasiar. “Mas as escolas devem oferecer essa oportunidade a elas porque uma fantasia pode se tornar um excelente material didático”, diz. “Por meio dela, o professor estimula a criatividade e a expressão de seus alunos.”



A pedagoga Maria Ângela Barbato Carneiro, da Faculdade de Educação da PUC-SP, afirma, ainda, que a fantasia faz com que os pequenos se preparem para a vida adulta porque permite que eles vivam diferentes personagens. “Nessa inversão de papéis, a criança começa a perceber como funcionam as relações sociais e, por isso, oferecer fantasia a uma criança é muito positivo.”



Com óculos de sol e uma boina jamaicana repleta de trancinhas rastafari, Mônica Klepacz, de 5 anos, se achava a própria cantora de reggae na hora da fantasia da Escola Stance Dual, de São Paulo (SP). “Achei essa roupa linda porque ela é muito enfeitada e também gosto de cantar”, conta a menina. “Em casa, tenho fantasias de princesa e de cigana, mas a que mais gosto é a de bruxa, por causa do chapéuzão.”



No canto da sala de aula, uma das professoras observa a performance da aluna. “A fantasia permite que as crianças tragam questões do cotidiano para discussão. Quando estão brincando de ser outra pessoa, elas não têm vergonha de se expressar”, explica Liliane Neves Gomes, coordenadora-pedagógica da escola. “Por isso a atividade é tão importante.”



Na Stance Dual, toda semana os alunos da educação infantil podem escolher suas fantasias e brincar com elas por uma hora. “Para eles, é diversão pura. Mas, para os professores, é trabalho porque eles fazem a mediação das questões que vão sendo apresentadas.”



Cláudia Tricate, diretora da educação infantil e do ensino fundamental do Colégio Magno/Mágico de Oz, também em São Paulo (SP), acredita que as fantasias ajudam os alunos até a se auto-conhecer. “Percebendo como é uma personalidade diferente, eles vão identificando suas próprias características, físicas ou emocionais.”



A escola criou, no mês passado, a primeira edição do Dia do Disfarce. Vestidas de mãe, de médico e até como o amiguinho, as crianças de 6 anos tiveram aulas disfarçadas de algum personagem da vida real.



“Estamos trabalhando em um projeto que faz com que as crianças descubram a sua identidade e a do próximo”, explica Cláudia. “Disfarçados, eles conseguem perceber as diferenças.” Uma das alunas, conta, foi de quimono e pintou o olho para homenagear a amiguinha japonesa. “O resultado foi tão bom que queremos repetir a atividade.”


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