Sem cerimônia

E quando a gente pensa “pra mim, basta um dia”?

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Mario Sergio Cortella*




Há alguns meses estava eu terminando a preparação para sair de casa em mais uma jornada de trabalho como professor quando ouvi ao longe um berreiro danado de uma criança de pouca idade. Assustei-me, pois ainda não eram seis e meia da manhã, horário no qual a maior parte de nós, docentes, sai por milhares e milhares de dias durante a vida para ir semear utopias e tentar proteger o futuro.

Apreensivo com a eventual causa daquele desespero infantil, imaginei pela agudeza do choro que era, infelizmente, algum ferimento sério ou, inclusive, uma situação de ameaça e pavor incontido. 



Morando em um prédio que tem uma espécie de poço vazio entre os vários andares e apartamentos, não é difícil aproveitar a maior propagação do som que tal arquitetura permite e aproximar os ouvidos das janelas internas até reconhecer melhor vozes e gemidos.

Foi exatamente o que fiz, de modo a distinguir não só o que a criança exclamava, mas qual andar e localização da cena. Consegui finalmente perceber as palavras em meio aos soluços convulsivos. A criança bradava: “Eu quero ir para a escola! Eu quero ir para a escola!”



Apesar da evidente aflição do menino, não pude deixar de, menos piedosamente, rir bastante.

Primeiro, pela ressurreição súbita de uma frase que ficara em algum lugar do passado dos que não tem dificuldades para ter acesso à escolarização. Segundo, pela estridente exigência feita pelo pequeno em uma época em que nem sempre a escola parece ser um lugar desejado com ardor. Em terceiro lugar, passou pela minha cabeça uma pontinha de admiração por alguém que queria tanto uma coisa que nem sempre quero.



Ri de novo ao lembrar-me de antiga anedota na qual a mãe cutuca o filho logo cedo e diz “filho, acorde, você precisa ir para a escola”. Ele resmunga, cabeça sob as cobertas: “Quero não, mãe. Não agüento mais aqueles professores, aqueles meninos que ficam me atazanando, aquela barulheira toda”. Ela retruca “Filho, levante, você é o diretor da escola”.



Isso mesmo.

Às vezes, eu também não quero ir para a escola. Poucas vezes, muito poucas, mas, fique claro, esses dias existem. Afinal, na escola exercemos nosso ofício vital, mas, não deixa de ser ofício. Mesmo com as reverências e lembranças rápidas provocadas por outubro, mesmo com as homenagens verdadeiras que nos fazem quando nos chamam de mestra ou mestre, mesmo com o valor simbólico que impregna a nossa ocupação, tem dias que não quero ir para a escola.



São os dias nos quais gostaria de dormir um pouco mais, talvez acordar sem horário ou, até, levantar e não ter de sair. Há momentos em que dá uma vontade danada de ficar em casa regando as plantas, brincando com os filhos, tomando café bem devagar, lendo inutilmente a página de anúncios do jornal, conversando fiado, olhando as pessoas que passam na rua, observando os outros trabalharem.



Não faz mal ansiar por essas coisas. É sinal de nossa humanidade e isso não impede que, depois, a gente continue por décadas indo à escola. Seria, apenas, um dia para eu fruir inteirinho sem culpa, um estupendo dia do professor.




*Professor de Pós-Graduação em Educação (Currículo) da PUC/SP.




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