Sem apelações

Pesquisa aponta que pais querem programas que transmitam valores éticos e que reforcem o que é ensinado em casa

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Laurindo Lalo Leal Filho



 



No começo da noite de um sábado, Record e Bandeirantes mostravam, ao mesmo tempo, para todo o Brasil, a imagem de um rapaz à beira da morte, estendido no asfalto do Minhocão, em São Paulo (SP).







A equipe de resgate tentava reanimá-lo, enquanto repórteres no local e apresentadores no estúdio dramatizavam ainda mais a situação. Nenhum respeito à vítima, à sua família que poderia estar vendo a cena, ao telespectador-adulto que não merece tal dose de sadismo e, principalmente, às crianças submetidas a esse tipo de programa num horário em que a TV deveria ser só para elas. Mas qual TV?





Uma televisão que, em primeiro lugar, respeite a criança como ser em formação. Se as emissoras querem colocar no ar programas desse tipo a qualquer preço, que o façam tarde da noite, longe do alcance das crianças, como se faz com os remédios. Recentemente, uma autoridade do Ministério da Justiça publicou portaria nesse sentido. Não só a medida foi revogada logo no dia seguinte, como a pessoa perdeu o cargo, tal a pressão exercida pelas emissoras sobre o governo. Mas devemos continuar insistindo.




Quando conseguirmos retirar o sensacionalismo policialesco do horário infanto-juvenil, precisaremos saber o que colocar no lugar. Sabemos, todos, que são necessários programas de qualidade – embora, para muitos, a definição do que seja isso ainda não está clara. Enfrentando o problema, a ONG Midiativa encomendou uma pesquisa para saber o que é um programa de qualidade na opinião de pais com filhos entre 4 e 17 anos.




Os resultados apontam para a necessidade de programas antes de tudo “atraentes”, capazes de transmitir com vivacidade conceitos como “família, respeito ao próximo, solidariedade e princípios éticos”.  E reforcem o que é ensinado em casa. Quanto do que pais e professores transmitem é destruído por programas onde a violência aparece como a única forma para solucionar conflitos ou onde o vigarista é sempre vencedor?




A pesquisa mostra ainda que os pais querem programas estimuladores da brincadeira, fazendo a criança sonhar, permitindo que ela viva o seu imaginário. E também que despertem interesses para além da televisão, no esporte e na cultura, por exemplo. Aí, não dá para esquecer o médico Julio Gouvêa que, ao apresentar o Teatro da Juventude, na extinta TV Tupi, fazia questão de abrir e fechar o programa com um livro nas mãos. Era a forma que ele usava para fazer da televisão um veículo de estímulo à leitura.




É isso e um pouco mais o que os pais querem. Uma TV que “desperte o senso crítico”, leve os jovens a “refletir e dar espaço às diferenças”, não transmitindo preconceitos e discriminação através de estereótipos. Que abra horizontes, mostre opções de vida, ajude o telespectador a escolher seu rumo, discutindo possibilidades profissionais e sociais.





É pedir muito? Na atual situação da TV brasileira, até pode ser. No entanto é o mínimo necessário para que possamos viver numa sociedade civilizada. Os pais não querem o que a televisão oferece hoje.



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