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Prêmio Mídia de Qualidade constata deficiências da televisão brasileira

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Laurindo Lalo Leal Filho








 






Ao receber o prêmio
Mídia de Qualidade

de 2005, destinado ao melhor programa de TV para a faixa etária de 4 a 7 anos, Julio Bernardes, um dos autores da atual versão do
Sítio do Picapau Amarelo

exibida pelo Rede Globo, fez questão de agradecer aos herdeiros de Monteiro Lobato pelo apoio dado às modificações introduzidas na obra.






Na verdade, ele estava respondendo às duras críticas que o trabalho vem recebendo por alterar o texto original. Os redatores da Globo têm criado novas histórias, chegando a incluir personagens jamais imaginados pelo autor. Diante disso, na internet telespectadores irritados estão chamando o
Sítio

global de “Malhação infantil”, numa referência ao programa da emissora voltado para
 

adolescentes.






Mas há também observações duras que vêm de pessoas abalizadas, como as da escritora Tatiana Belinky, amiga de Monteiro Lobato e responsável pelas adaptações do
Sítio

para a TV Tupi, nas décadas de 50 e 60, e Bandeirantes de 1967 a 1969. Em entrevista à
Folha de S.Paulo

, ela disse considerar uma “bobagem” a tentativa de modernizar o
Sítio

, escrito entre 1920 e 1944. Para Belinky, “não se moderniza um clássico, é preciso respeitá-lo. O que é isso? Deixem o autor em paz”.






Essas críticas não foram levadas em conta pelo júri do prêmio
MídiaQ

, iniciativa da ONG Midiativa, que homenageia anualmente os melhores programas infanto-juvenis exibidos pela TV no Brasil. Ao premiar o
Sítio do Picapau Amarelo,

o júri ressaltou o fato de ele ser “a única produção nacional de peso existente entre os programas selecionados, com uma importância histórica na teledramaturgia infanto-juvenil brasileira”, além de sinalizar a necessidade de maior estímulo às produções para esse público em nosso país.






Algo que fica ainda mais evidente na premiação destinada aos programas para as faixas etárias seguintes: de 8 a 11 anos e de 12 a 17. Na primeira, o vencedor foi o desenho animado
Bob Esponja

, produzido e exibido pelo canal Nickelodeon (um dos braços televisivos do conglomerado global Viacom); na segunda, a série
Os Simpsons,

transmitida no Brasil inicialmente pela Fox e mais tarde pelo SBT. Agora, a Globo exibe os dois programas.
     







São animações que não primam por uma forma
high-tech

, mas se sustentam num conteúdo capaz de identificar crianças, jovens e também os adultos – como mostram algumas pesquisas – com as ambigüidades e as aflições das camadas médias da sociedade mundializada. A ingenuidade de Bob Esponja e seu amigo Patrick, às voltas com os ardis criados por Lula Molusco e seus comparsas no fundo do mar, guardam correspondência com os métodos politicamente incorretos usados pelo sr. Simpson para sobreviver numa sociedade dividida entre o sonho da solidariedade e a realidade da competição, na imaginária Springfield.






Talvez por isso o júri do prêmio
MídiaQ

tenha sido obrigado a justificar suas escolhas dizendo “reconhecer a força da animação estrangeira”. Os jurados ressaltaram a capacidade que possui o gênero de captar “com sucesso a atenção de crianças e jovens, gerando identificação ao ultrapassar barreiras etárias e fronteiras culturais, numa receita que aborda com humor e inteligência o universo infanto-juvenil”. O que é a mais pura verdade. Pena que nossos criadores não tenham a oportunidade e o incentivo necessários para seguir esse mesmo caminho criativo globalizado, partindo porém das raízes culturais brasileiras.






Ao lado de suas virtudes, os três programas premiados chamam a atenção para as deficiências da nossa televisão. Em primeiro lugar, fica evidente o poder concentrador da Rede Globo: tudo que dá audiência está lá. O
Sítio

, graças à presença de seus personagens no imaginário de várias gerações, tem público cativo, com ou sem “modernizações”. E os dois desenhos, depois de se firmarem no Brasil através dos canais por assinatura e comprovarem o seu poder de atração, ganharam espaço na tela da Globo.






Mas a deficiência mais gritante é dada por meio da situação de quase abandono a que foram relegadas nossas crianças e jovens pela televisão. Consagrou-se no Brasil o modelo de programa de auditório infanto-juvenil, reino das Xuxas, Angélicas e Elianas, desprezando-se produções capazes de aliar diversão com pedagogia. Quando se quer dar um prêmio para os destaques dessa programação, como faz com muito sacrifício a ONG Midiativa, acaba-se descobrindo que só resta premiar o menos ruim, ou o que vem pronto e embalado do exterior.





Os responsáveis pelo
MídiaQ

não escondem essa realidade. Logo na abertura da cerimônia de entrega dos prêmios, a jornalista Âmbar de Barros, uma das fundadoras da Midiativa, subiu ao palco do Itaú Cultural, em São Paulo (SP), para dizer que



pelo segundo ano consecutivo, o Conselho do Prêmio
MídiaQ

teve grande dificuldade para escolher os programas vencedores. A conclusão é que a televisão brasileira continua sofrendo com a ausência de novas produções nacionais de excelência, adequadas às três faixas etárias. O cenário da TV aberta em 2005 mostrou-se praticamente inalterado em relação à pesquisa do ano passado, com atrações e horários restritos e insuficientes para as crianças e jovens. A inclusão da TV a cabo na consulta deste ano só veio confirmar a ascensão das produções estrangeiras na preferência de pais, crianças e adolescentes”.









Logo depois, veio o melhor da noite: cinco minutos
 

de prazer estético e emocional proporcionados pela animação holandesa
Marionete

, vencedora na categoria Ficção até 6 anos do Festival Prix Jeunesse, que há 40 anos reúne na Alemanha as melhores produções infanto-juvenis de todo o mundo. Um trabalho simples, sem nenhuma sofisticação tecnológica, mas de alta criatividade, capaz de encantar o público infantil e estimular nossos realizadores a se lançarem em projetos semelhantes.








 









Prêmio MídiaQ 2005













Faixa de 4 a 7 anos:
Sítio do Pica-Pau Amarelo

(Rede Globo)








Menção honrosa:
Cailluo

(Discovery Kids e TV Cultura-SP)








 








Faixa de 8 a 11 anos:
Bob Esponja

(Nickelodeon e Rede Globo)








 








Faixa de 12 a 17 anos:
Os Simpsons

(Fox e Rede Globo)








Menção honrosa:
RockGol 2005

(MTV)







 






Prêmio Especial do Júri:
A Grande Família

(Rede Globo)






 






Prêmio Hors-Concours:
Hoje é Dia de Maria

(Rede Globo)






 


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