Sangue, suor e lágrimas

Em sua nova coluna, educador discute a experiência da Escola da Ponte, de Portugal

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Final dos anos 70. Os alunos andavam envolvidos numa pesquisa: por que morriam os peixes do rio? Concluíram que as fábricas lançavam veneno nas águas. Ainda não se falava de poluição e degradação ambiental, mas, sujeitos a pueris pressões das crianças, os donos das fábricas e os “coronéis” locais destilavam ameaças. A televisão procurou os alunos e, numa manhã de sábado, a reportagem apareceu na TV. Foi um delírio para familiares e amigos. Mas eu pensava, inquieto, que também os “coronéis” locais estariam a ver a reportagem. E que não iriam gostar nada.

No domingo, fui com as crianças alimentar os animais que a Ponte acolhia (pombas, patos, hamsters…). Na segunda-feira, quando me dirigia para a escola, não escutei os risos habituais, mas lancinantes gritos de terror. Juntei a minha mágoa ao choro convulsivo das crianças, quando os meus olhos presenciaram o horror instalado em redor da Ponte. Não havia animais, havia pele rasgada, carne dilacerada, terra ensopada em sangue, sangue nas paredes…

Diz-nos o Paulinho da Viola  que “a vida não é só isso que se vê, é um pouco mais, que os olhos não conseguem perceber”. Quem leu
A Escola com que Sempre Sonhei

poderá ter ficado com uma representação mítica da Ponte. O meu amigo Rubem Alves viu-a com olhos transbordantes de sonho e divulgou-a… poeticamente. Estou grato ao Rubem, por me ter permitido desassossegar muitos espíritos neste Brasil sedento de mudança. Porém, de uma leitura pouco avisada do livro poderá restar um sentimento de inacessível ou – o que será mais grave – uma adesão ao aparentemente fácil.

Talvez a Ponte tenha provado que a utopia é realizável. Aconteceu na Europa, há 30 anos, em condições muito semelhantes às que encontro na minha errância pelas escolas do Brasil. Escola da rede pública estatal, resistia no limiar da sobrevivência, com classes sobrelotadas, elevados índices de insucesso, exclusão, abandono, sofrimento e… sangue.

Depois da ruptura paradigmática operada ali, já ninguém pode afirmar a impossibilidade de transformar crianças no ofício de aluno em pessoas sábias e felizes. Porém, descobrimos uma forma; não inventamos uma fórmula. Faço este reparo, porque venho encontrando reinterpretações críticas da Ponte, mas também deparo com a “vertigem” do modismo e detecto indícios de um fenômeno que o educador Julio Groppa Aquino denominou de “pontefilia”.

Urge obstar a que o mito se instale. A Ponte é mais resultado de transpiração do que de inspiração. Para que o seu projeto possa ser útil, será necessário recorrer a um exercício que revele o reverso de uma escola considerada de sucesso. Assim como a lua tem o seu lado oculto, também a Ponte tem bastidores que importa expor, para deixar ver as entranhas de um projeto humano construído por imperfeitos seres.

Quem acredita ser fácil manter a união de uma equipe, ou resistir à maldade que se abate sobre quem ousa fazer diferente, ilude-se. Os projetos são fruto da resiliência. Por isso, me proponho falar das fragilidades da Ponte, uma escola feita de sangue, suor e lágrimas. Falei-vos do sangue. Irei falar-vos do suor e das lágrimas.




José Pacheco é educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)

E-mail:



josepacheco@editorasegmento.com.br



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