Sambas, cobras e lagartos

Compositor de músicas consagradas e zoólogo renomado, Paulo Vanzolini gravita entre a ciência e a arte

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Alexandre Pavan

Personagem fundamental para o samba de São Paulo, Paulo Vanzolini tem uma obra ainda mais marcante no campo da zoologia, como professor, pesquisador e teórico. Se o homem de 80 anos figura nas enciclopédias musicais brasileiras, por conta de sucessos como
Ronda

,
Volta por Cima

e
Praça Clóvis

, seu nome também está impresso nos compêndios internacionais de biologia. Um professor de ciência (Drauzio Varella foi seu aluno), um mestre de arte (Chico Buarque, em início de carreira, gravou dois de seus sambas).




Garoto pouco aplicado no colégio – “rebelde”, como costuma dizer-, Vanzolini preocupava a família com seu desempenho nos estudos. Quando tinha 10 anos e perigava levar bomba na 4
a

série, o pai lhe prometeu uma bicicleta caso passasse de ano. Conquistou as notas desejadas e no primeiro passeio de magrela foi ao Instituto Butantan, em São Paulo (SP), que, a partir daquele dia, tornou-se o lugar predileto de sua infância.




O interesse pela bicharada o levou, aos 14 anos, a conseguir um estágio no Instituto Biológico. Já nesse período lia livros sobre a evolução das espécies com o mesmo entusiasmo com que ouvia sambas no rádio. Mistura curiosa: Noel Rosa e Charles Darwin. Vanzolini sabia que queria ser zoólogo, mas, na hora de escolher uma faculdade, optou pela medicina, em busca de uma formação mais ampla.




Sua produção poética e musical aflorou na época em que servia no Exército e morava no Edifício Martinelli, no centro de São Paulo. No encontro das avenidas Ipiranga e São João, então conhecida como “esquina do pecado”, conviveu com inúmeros artistas e encontrava na noite histórias e personagens que passava para o papel. Em suas patrulhas como cabo, incomodava-se com a prostituição, com as mulheres vagando de bar em bar sem destino.
Ronda

, sua composição de maior sucesso, foi criada a com base nessa observação. Escrita em 1945, quando Vanzolini tinha 21 anos, a música teve sua primeira gravação em 1953, na voz de Inezita Barroso.




No quinto ano da Faculdade de Medicina, na USP, o cabo/poeta assumiu a direção do Museu de Zoologia. O acervo de livros da casa não era digno de ser chamado de biblioteca, se comparado com as coleções de museus similares no exterior – contava com meros 1.200 títulos. Vanzolini passou a canalizar a receita em direitos autorais de suas músicas para enriquecer as prateleiras e, hoje, o acervo do museu ultrapassa 220 mil livros.




O compositor construiu uma obra significativa que, em número, parece modesta: cerca de 70 músicas, boa parte delas reunida na caixa de CDs
Acerto de Contas

(Biscoito Fino, R$ 55,50), lançada há dois anos. Com sua tradicional pinta de sisudo, Vanzolini sempre recusa o rótulo de boêmio, explicando que este é um estilo de vida incompatível com seu ofício de zoólogo. Se freqüentava reuniões com Adoniran Barbosa, Eduardo Gudin e Jorge Ben à noite, no dia seguinte, logo cedo, estava vestindo um guarda-pó e sendo ouvido por cientistas do quilate de Theodosius Dobzhansky, Ernst Mayr e Aziz Ab’Sáber, também seus amigos.




Vanzolini viajou o Norte e o Nordeste do país (“conheço esses lugares como o fundo do meu bolso”) realizando suas pesquisas, desenvolvendo teses e coletando répteis para a coleção do Museu de Zoologia. Descobriu e catalogou centenas de novas espécies e, como é comum na biologia, muitos desses seres foram batizados com seu nome. Por isso, não estranhe se encontrar um lagarto chamado
Vanzossauro

ou um sapo
Vanzolínius

.




O trabalho de criação de Vanzolini – seja um verso de samba, seja uma tese zoológica – se encaixa perfeitamente no que disse certa vez o físico brasileiro Cesar Lattes, outro bamba da pesquisa científica: “A ciência é uma irmã caçula (talvez bastarda) da arte.”


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