Salto mortal

Parece a mesma coisa, mas não é: que não se confunda idoso com velho

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Mario Sergio Cortella*





Há alguns meses, estava eu em uma escola pública na periferia paulistana, participando de debate com jovens estudantes do ensino médio que se preparam para ser docentes. Na hora do intervalo, fiquei no pátio observando um grupo de meninos e meninas praticando alegremente uma mistura de rap com “dança de rua” (aquela cheia de volteios, movimentos e saltos ritmados a partir do solo). Deu vontade de entrar na roda, mas, rapidamente lembrei-me da anônima sabedoria popular que diz que “a partir dos 50 anos de idade, todo salto é mortal”.





No mesmo instante ri (com um pouco de nostalgia) desse ditado e também pude recordar de uma situação bastante pedagógica que gosto muito de contar e da qual, involuntariamente, participou o André, meu filho mais velho, um publicitário e grande apreciador de música, da ópera ao próprio rap.





Em certo sábado de 1995, quando tinha dezoito anos, estava ele fechado no quarto ouvindo rap, e eu na sala ouvindo ópera. Quem gosta de ópera sabe que é uma música que se escuta um pouquinho mais alto. O André saiu do quarto dele injuriado, foi até a sala e falou: “Pelo amor de Deus, pai, desliga isso, isso lá é música?” Eu falei: “André, meu filho, que pena. Você, aos dezoito anos, já está ficando vítima da indigência mental? Você, aos dezoito anos, já está ficando capturado pela incapacidade das idéias, acha que sabe o que serve e o que não serve, já está sendo capaz de apodrecer a capacidade de renovação? Você, aos dezoito anos, é incapaz de perceber aquilo que é diferente do que você conhece, está cheio de certezas?” Assustado com a minha reação, ele falou: “Pai, você está ficando louco.” Repliquei imediatamente: “Eu estou ficando louco? E você está ficando velho.”





Cuidado para não cair numa armadilha: não confunda idoso com velho. Idoso é quem tem bastante idade, velho é o que acha que já sabe, o que acha que já conhece, o que acha que já está pronto, velho é arrogante.





Idosa é uma pessoa de 60 anos, 65 anos, 70 anos. Velho você pode ser aos 15 anos, aos 20 anos, aos 30, 40, 50, 60 anos. Velho não tem humildade, velho não aprende, velho perece, porque acha que já conhece, é incapaz de acompanhar o diverso. Um museu, por exemplo, ao contrário do que pensam os tolos, não é lugar de coisa velha, (pois lugar de coisa velha é lixo); museu é lugar de coisa idosa, coisa idosa tem valor.





Gente velha é chata, gente velha é metida, gente velha acha que está certa o tempo todo, vive de passado, “ah, no meu tempo”. Já o idoso, ele vive de futuro, é capaz de coisas novas, de ir adiante.





Algumas escolas, tal como muitas empresas há alguns anos, fizeram uma bobagem danada: em nome da reengenharia e das novidades, mandaram embora vários idosos e ficaram com um bando de velhos. Mandaram embora uns idosos de 60, 65 anos, e ficaram com uns velhos de 25, 30, 40, 50 e 60 anos. Agora, o que elas estão tendo de fazer? Chamar os idosos de volta, com o nome de consultor ou assessor. Qual é a encrenca? Ao mandar o idoso embora, o que ela mandou junto? A experiência.

Mas o velho também tem experiência, só que a experiência do velho é apoiada na repetição, enquanto a experiência do idoso é apoiada na renovação.



Velho não tem a ver com idade, tem a ver com atitude.



 




*Professor de Pós-Graduação em Educação (Currículo) da PUC/SP




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