Ruim para eles,pior para elas

Cuidados com os filhos, ciúmes e até violência doméstica dificultam a mulheres concluir o ensino regular à noite

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Claudília da Piedade: admiração por aluno que dava 

aulas de reforço aos colegas levou ao casamento


Mãe solteira de três crianças, negra e pobre, a esteticista Claudília da Piedade, 56 anos, só se alfabetizou aos 19. Na primeira vez em que parou de estudar, ela dera à luz o terceiro filho. Anos depois, de volta às salas, foi reprovada várias vezes. Mais uma tentativa e, no 1º ano do ensino médio noturno da escola Herbert de Souza, no Rio de Janeiro, conheceu André do Espírito Santo. Ele, no 3º ano, dava aula de reforço para colegas. “Fiquei admirado por sua garra, por não desistir”, afirma André.

A admiração resultou em casamento e numa decisão: o marido decidiu refazer ao lado dela todo o ensino médio.

Eles rodaram várias escolas em busca de qualidade e, em 2005, formaram-se. Juntos. “Eu precisava mesmo de uma força pra ir adiante”, diz Claudília.

Muitas mulheres não têm o mesmo apoio. As dificuldades para elas se multiplicam no período noturno. A dupla jornada casa-trabalho, o cuidado com os filhos e até o ciúme dos companheiros pesam na decisão de não continuar.

A diretora Maristela Valle, do Caic Nações Unidas, lembra-se bem do dia em que uma aluna, mais velha que ela, apareceu de olho roxo. “O marido batia para que, envergonhada das marcas, deixasse de vir à escola”, conta.

“Quando perguntei o que era aquilo, me disse que se cansou de ter vergonha e que iria estudar.” Ela chegou a autorizar o agressor ciumento a aguardar todas as noites a mulher no pátio. “Com o tempo, ele foi vendo que a única vontade que ela tinha era estudar.” Em 2005, Maristela finalmente entregou à dona-de-casa o diploma do ensino médio.

Déa Torres abandonou a escola para cuidar da casa e agora, aos 42 anos, cursa à noite o 3º ano do ensino médio.

O marido, antes ciumento, foi quem fez sua matrícula.

“Hoje, quando chego a janta está pronta.” Ela voltou também a trabalhar: dá aulas particulares para crianças. Seu sonho é estudar letras e ser professora.

No fim do ano, receberá o diploma em companhia de um colega de sala: o filho mais velho, de 17 anos.


Atração especial

– Na noite em que a reportagem de Educação visitou o Ciep Professor César









 Déa Torres: conclusão do ensino médio 

em companhia do filho mais velho, de 17 anos


Pernetta, enquanto o professor ensinava gramática, Gabriely Santos Antero, de 2 anos, rabiscava garatujas numa folha. Ao lado, a estudante Jaqueline dos Santos, de 18 anos, copiava sua lição. “Ela é boazinha, fica desenhando, não me atrapalha”, explica a mãe.

Tatiane Pinheiro, 21 anos, parou de estudar quando Stefane, hoje com 4 anos, nasceu. Agora ela tem Stela, de 1 ano, mas voltou às aulas, por conta de uma bolsa de R$ 100 do governo federal. Ela termina este ano o ensino fundamental. “Sei que quero fazer faculdade, mas ainda não sei de quê. Quero sustentar minhas filhas com meu próprio suor.” (TP)


Desistir ou insistir?










Evandro Mangueira 

Alves: desde os 18 anos no ensino noturno, que ainda não concluiu, aos 31


Já são mais de 20h e o estudante Élcio Braga Júnior, 20 anos, acaba de chegar à sala da direção do Caic Nações Unidas, em Inhoaíba, no Rio. Com duas horas de atraso, esgotado, ele se esqueceu de pôr a camisa da escola na bolsa do trabalho e tem sua entrada barrada pelo inspetor. O officeboy chega sempre atrasado, como no hit de Kid Vinil nos anos 80. “Saio de casa às 6h30, volto às 22h30 e ainda trabalho aos sábados”, diz Élcio.

Ele sabe que a rotina atrapalha os estudos. Por isso, pede a ajuda de amigos. Estudar, mesmo, só na véspera das provas: “Aí dou um jeito, vou lendo no ônibus.” Se necessário, admite, paga para fazerem seu trabalho escolar. Para quem quer ser bombeiro ou cursar faculdade, sabe que está errado. “Mas faço o que posso, pelo menos ainda não desisti”, afirma.

O servente de pedreiro Evandro Mangueira Alves, 31 anos, não teve outra opção e largou o segundo ano do ensino médio, há cerca de seis anos. “Só faltava fazer as provas finais, mas eu já tinha dois filhos e estava desempregado quando apareceu um trabalho de segurança noturno.” Ele se matriculou pela primeira vez no noturno aos 18 anos, para procurar emprego fixo. Pensava em voltar à escola este ano, mas um serviço temporário e problemas burocráticos com a matrícula o fizeram adiar mais uma vez os planos.

Em 2007, garante, voltará a fazer o que adora: estudar.

O sonho? Cursar engenharia. “A parte bruta, do serviço braçal, eu faço, mas quando é que eu vou entender aquilo tudo ali?” (TP)

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