Rubem Alves

Vestibulinho destrói a auto-imagem dos alunos

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Liguei a televisão, coisa que faço raramente.

Alegrei-me. Era uma longa esteira rolante, cheia de pintinhos, tão bonitinhos, amarelinhos. Para onde a esteira os estaria levando? Aí, apareceu um lugar onde havia uma outra esteira vazia, ao lado daquela onde estavam os pintinhos. Ali, algumas pessoas trabalhavam. Observavam os pintinhos com olhar concentrado. Sua missão era identificar os que não se ajustavam ao perfil de pintinho sadio e que seriam transformados em frangos economicamente rentáveis. Esses eram os fraquinhos, que tinham uma asa caída, uma perna a menos. Sua esteira os levaria a um outro destino: seriam conduzidos a um triturador que os transformaria em ração.

Os destinos dos pintinhos provocaram minha imaginação e eu vi muitas crianças alegres, todas diferentes, ricas e pobres, saudáveis e fraquinhas, gordas e magras, numa longa esteira rolante. Brincavam. Aí, aparecia uma esteira vazia ao lado da primeira. Na primeira, estava escrito “aprovados”; na segunda, “reprovados”. O nome dessa terrível bifurcação que separa os que se ajustam ao perfil daqueles que não se ajustam era “vestibulinho”. Cena do juízo final.

A lição duradoura, inesquecível, que as crianças carregarão pelo resto da vida será: quem não se ajusta ao perfil é excluído. Passa a pertencer ao rol dos derrotados. O “vestibulinho”, assim, não é um simples mecanismo burocrático de seleção. Ele coloca na criança reprovada um estigma, que marcará a sua auto-imagem pelo resto da vida e terá profunda influência sobre o desenvolvimento da inteligência. Os que se vêem inferiores ficam inferiores.

Um dos passatempos dos pais é contar as gracinhas e proezas dos filhos para os outros, que retrucam contando as gracinhas e proezas dos próprios filhos. É um jogo narcísico, no qual os pais são os jogadores e os filhos, as peças. E esse jogo entra pela escola. Lembro-me da expressão de raiva com a qual uma mãe olhava para o seu filho, que tirava notas más, ao compará-lo aos filhos das amigas, que tiravam notas boas. Era como se ela dissesse para si mesma: “Eu sou mãe de um burro…” Desde cedo as crianças aprendem que é preciso passar para que a mamãe e o papai fiquem orgulhosos e, assim, serem gostadas. Mas, quem está concentrado na obrigação de passar, não tem condições de se concentrar no prazer de aprender. Os “vestibulinhos” são uma catástrofe pedagógica e psicológica que tem de ser abolida por amor às crianças.

O Conselho Nacional de Educação (CNE) já os proibiu, por meio do parecer nº 26/2003, que dispõe o seguinte: “A avaliação para acesso à educação infantil e à primeira série do ensino fundamental não pode ter efeito classificatório, não se admitindo a reprovação ou os chamados ‘vestibulinhos'”.

Mas, em confronto com o parecer do CNE, o Conselho de Educação do Estado de São Paulo, pelo parecer nº 124/2004, permite a sua realização.

Educadores: é preciso proteger as crianças contra as loucuras dos burocratas!



RUBEM ALVES

Educador e escritor
rubem_alves@uol.com.br

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