Rotas variadas

Sistemas de outros países oferecem múltiplas trajetórias escolares. Em alguns casos, no entanto, alunos ficam confinados a uma educação utilitária

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Coreia do Sul, Estados Unidos, França e Inglaterra. Quatro sistemas educacionais distintos com um ponto em comum: todos têm parte do ensino regular reservado para a escolha de disciplinas eletivas, tal como o Ministério da Educação brasileiro propõe que o ensino médio nacional se estruture. Os sistemas dos quatro países também estabelecem formas de articulação com a educação profissional, porém em alguns casos as aulas dessa área somente aproximam o aluno da experiência, pois têm como objetivo principal a passagem para o ensino superior. A oferta dos cursos que preparam para o mercado de trabalho acontece, então, após a conclusão do 2º grau.

No entanto, tal como aqui, repete-se a lógica de que alunos com melhores notas e mais recursos financeiros podem ir mais longe. Um exemplo é o ensino profissionalizante, que corresponde à formação tecnológica brasileira. Na maioria das vezes frequentado pelas camadas mais pobres, seu diploma geralmente é considerado de uma categoria inferior ao universitário.

A grande diferença é que as classes nesses países não são tão desiguais como no Brasil e mesmo as mais baixas têm um poder de consumo relevante. Segundo Cândido Gomes, os governos sustentam a tese de que não cabe à educação ser a principal protagonista na diminuição das diferenças sociais. “Eles procuram oferecer condições de vida mais justas através de impostos mais baixos, serviços públicos mais eficientes e outros mecanismos, para que isso reflita na qualidade da educação, e não o caminho inverso”, ressalta.

Onde estudam os alunos do ensino médio
Na Coreia do Sul, apesar de ter reconhecidamente um dos melhores sistemas de educação do mundo, o ensino médio não é gratuito. Mesmo as escolas públicas cobram uma taxa, em média R$ 1.500 por ano.

O processo de admissão nas escolas públicas sul-coreanas de 2º grau é variado. Em alguns colégios da capital Seul e de Pusan, segunda cidade do país, por exemplo, a seleção é feita com base na análise do histórico dos anos finais do ensino fundamental. Já em Taegu e Taejon, no centro do país, além da análise, há também exames de seleção. Segundo dados do governo, 55% dos alunos frequentam a rede pública no ensino médio, o restante estuda em instituições particulares.

Na França, dos quase 12 milhões de estudantes do país, 10 milhões estão em colégios públicos gratuitos. Lá, as instituições do ensino médio também podem selecionar estudantes com base no histórico escolar da última parte do ensino fundamental, o Collège . Porém isso acontece quando a demanda é maior que a oferta. Caso contrário, o estudante tem liberdade para escolher a instituição que desejar.

Já nos Estados Unidos e na Inglaterra, o ingresso é baseado somente na região em que a pessoa mora e a grande maioria estuda em escolas públicas gratuitas: 85% e 90%, respectivamente. A maior parte dos alunos americanos, entretanto, muda de escola quando passa de uma etapa para outra, enquanto os ingleses costumam cursar o fundamental e o médio no mesmo lugar.

Em sala de aula
O sistema inglês é dividido em fases, as key stages . O 2º grau compreende os key stages 3, com três anos, e 4, com dois anos. A grade obrigatória do último ensina matemática, educação sexual, cidadania, ensino religioso, inglês, ciências, educação física, tecnologia da informação e duas matérias voltadas ao mundo profissional: careers education (educação de carreiras) e work-related learning (aprendizado referente ao trabalho).

As aulas de career education têm base teórica e abordam as tendências no mercado de trabalho, possíveis oportunidades de atuação e técnicas de entrevista, orçamento e planejamento de carreira. O segundo caso se trata de um estágio profissional. Para que isso aconteça, as escolas mantêm parcerias com diferentes organizações e o aluno pode escolher uma na área que preferir.

Ele também pode optar por uma empresa com a qual já tenha algum tipo de vínculo empregatício ou contato, desde que tenha a aprovação da sua instituição de ensino. No ambiente de trabalho o aluno é orientado por um profissional da companhia, designado para a função, que também é responsável pela sua avaliação. Por volta de 550 mil vagas são ocupadas anualmente.

Mas mesmo promovendo um contato direto com o trabalho, essa disciplina não tem o objetivo de habilitar para uma função específica. Serve para que o aluno conheça áreas em que ele pode ter uma ocupação futura. Nesses casos, os estágios são de curta duração. Além das disciplinas obrigatórias, as escolas também precisam oferecer cursos opcionais nas áreas de artes, design e tecnologia, humanas e línguas estrangeiras. A oferta muda de acordo com a instituição, mas as mais habituais são design gráfico, economia, eletrônica, psicologia, fotografia, dança, sociologia, japonês e italiano.

Apesar de esses cursos não serem estruturados para tal finalidade, é possível entrar no mercado de trabalho com eles. Mas só depois de obter o General Certificate of Secondary Education (GCSE), uma qualificação acadêmica para todos os alunos do ensino médio britânico, os alunos se formam. Na Inglaterra esse certificado abrange as notas em testes anuais que avaliam, entre as disciplinas da grade obrigatória, matemática, cidadania, ensino religioso, inglês, ciências, educação física e tecnologia da informação.

O aluno também precisa fazer exames para os cursos opcionais escolhidos. Os resultados influem na possibilidade de ele conseguir um trabalho. Um estudante que fez eletrônica, por exemplo, pode entrar em uma empresa do ramo, caso tenha boas notas no GCSE. A maioria, no entanto, utiliza o certificado para continuar os estudos após o término do secundário. Em 2007, esse foi o rumo de 86% dos formados com idade entre 16 e 17 anos, conforme dados do governo britânico.

Generalistas e vocacionais
No caso do ensino médio sul-coreano, há dois tipos de instituição: a vocacional, que forma para o mercado, e a generalista, onde estudam 75% dos alunos. A etapa dura três anos e o primeiro tem, obrigatoriamente, a mesma base curricular nas instituições generalistas e vocacionais. Ela é composta por 10 disciplinas fixas – coreano, matemática, inglês, música, estudos sociais, educação física, ciências, ética, artes e um curso prático (economia doméstica ou informática). Há também horários reservados para as chamadas atividades especiais e independentes, que oferecem aulas de estudos ambientais, uma segunda língua estrangeira e de reforço ou que aprofundam os temas ensinados em sala de aula.

No segundo ano, os alunos das escolas generalistas decidem se continuam os estudos nas categorias humanas/estudos sociais ou ciências. Dependendo da escolha, algumas das disciplinas fixas têm a carga horária reduzida em prol das eletivas. Um aluno que escolhe seguir o caminho de humanas/estudos sociais, terá uma grade em que matemática, música e ciências ocupam menos espaço, podendo preencher o tempo com matérias como gramática, geografia mundial e história moderna da Coreia do Sul. No caso de ciências, estudos sociais e coreano cedem espaço a física, química e estatística.

Já a área vocacional se divide entre agricultura, indústria, comércio, pescaria e economia doméstica. Nesse caso porém, como as escolas costumam ser especializadas em uma das categorias, os alunos optam logo ao entrar no ensino médio. As dez matérias comuns continuam a ser ensinadas até a conclusão do segundo grau, mas com carga menor.

Os estudantes despendem entre 40% e 60% do tempo em aulas teóricas e práticas específicas de um dos cursos disponíveis no segmento escolhido. Uma das alternativas para um aluno de agricultura, por exemplo, é estudar os processos alimentares. Ele tem de frequentar disciplinas como ciência dos alimentos e técnicas de processamento dos alimentos. Em indústria, alguns dos possíveis cursos são engenharia eletrônica e metalurgia. Nesses casos o estudante tem de cursar, respectivamente, circuitos eletrônicos e manufaturação de metais, entre outras.

Porém, mesmo com as ofertas do vocacional, o grande interesse dos jovens é o ensino superior. Um dado do governo sul-coreano apontou que, em 2007, 71,5% dos estudantes da área profissionalizante se matricularam em um curso universitário, enquanto apenas 20% entraram no mercado de trabalho.

França: diferentes oportunidades
A França também divide o ensino médio por áreas. Os alunos precisam escolher entre o générale, o technologique ou professionnel ao entrar nessa etapa. Os dois primeiros duram três anos e acontecem nos mesmos liceus. No primeiro ano, francês, matemática, língua estrangeira, história e geografia, física e química, ética, educação física e economia são matérias comuns para alunos dos dois cursos. Há também uma série de disciplinas preparatórias para a via escolhida (latim, história das artes, informática e sistemas de produção são alguns exemplos), das quais uma é eletiva e uma opcional.

Depois, no segundo e terceiro anos, os alunos passam a ter aulas de acordo com as áreas de especialização. No générale , precisam escolher entre as áreas de socioeconomia, literatura e científica. No technologique são ciências e tecnologias de laboratório, ciências e tecnologias industriais, ciências e tecnologias da gestão, ciências e tecnologias da saúde e do social, técnicas da música e da dança, hotelaria ou ciências e tecnologias de agronomia e vida.

A terceira opção, o professionnel , leva diretamente ao mercado de trabalho. Ela é composta de três diplomas e, dependendo daquele que se conquistar, as perspectivas podem ser campos de atuação em cargos de diferentes níveis. O primeiro – e de nível mais baixo – é o Certificat d”Aptitude Professionnel (CAP). Ele pode ser obtido após dois anos de estudos e sua grade oferece aulas teóricas e práticas dos mais de 200 cursos possíveis, como carpintaria, cabeleireiro e alfaiataria.

O Brevet d”Enseignement Professionnel (BEP) funciona como o CAP, mas é considerado um diploma intermediário, pois tem um ano a mais de estudo específico, considerado uma especialização. Estudantes com o CAP podem realizar o ano extra e obter esse diploma . E há o Baccalauréat Professionnel (BP), com duração entre três e quatro anos. Há mais de 80 cursos em 19 campos e é o único nessa via que ensina as disciplinas comuns – francês, matemática e língua estrangeira. Com o BP, estudantes conseguem entrar em uma instituição de ensino superior, ainda que seu direcionamento também seja o trabalho. Algumas das áreas mais procuradas são produção mecânica, eletrotécnica e manutenção industrial. Estudantes com o CAP e o BEP também têm a alternativa de voltar aos estudos para alcançar esse diploma.

Em 2009, segundo dados do governo francês, dos alunos que entraram no 2º grau, 286 mil se matricularam na via générale , enquanto 131 mil foram para technologique . No professionnel , ingressaram 146 mil estudantes em cursos para tirar o CAP, 170 mil para o BEP e 120 mil o BP.

Prova de fogo
Para entrar na universidade coreana, os alunos precisam realizar um exame anual, o Suneung, ou College Scholastic Ability Test (CSAT). As notas do exame e o histórico escolar do ensino médio são determinantes para entrar em uma universidade, universidade industrial, universidade de educação ou em um junior college .

Alunos provenientes das escolas técnicas podem tentar vagas nos três últimos tipos de instituição, mas há um esforço do governo sul-coreano para direcioná-los para as junior colleges , através de reservas de vagas que chegam a 50%. Todas essas unidades são pagas. As públicas cobram em média US$ 2,5 mil por ano e as particulares US$ 4,5 mil.

Elas funcionam como as norte-americanas e seu diploma é considerado inferior. Depois de formado é possível tentar a transferência para a universidade industrial ou de educação, mas cerca de 80% dos alunos vão para seus campos de atuação. Os cursos mais visados estão nas áreas de ciências sociais e engenharia.

No sistema francês, os alunos que querem ir para uma universidade precisam fazer  um exame anual, o Baccalauréat , ou Bac . Ele é dividido de acordo com as áreas das três vias. A aprovação permite a entrada em uma universidade ou nas grandes écoles , instituições que oferecem cursos superiores de áreas específicas.

As universidades francesas têm uma política de não seleção, ainda que seja comum os cursos exigirem o Bac de determinada área para entrar. Elas são pagas, mas a taxa anual é simbólica, em média US$ 250. Já as grandes écoles , consideradas melhores e mais elitistas, exigem exames criteriosos de qualificação e seu valor varia entre US$ 7 mil e US$ 14 mil anuais.


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