Rosa Maria Bueno Fischer

professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

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Qual o diagnóstico que você faz da educação básica no Brasil? Quais os principais problemas, avanços e retrocessos que a educação vive?




De uma maneira geral, considerando a experiência do Rio Grande do Sul, diria que houve significativo avanço quanto ao acesso à educação básica nos últimos cinco anos. Os dados de matrícula, não só aqui no Rio Grande do Sul, confirmam esse dito. Da mesma forma, cresce o nível de qualificação dos professores, em termos de titulação. No entanto, parece-me que permanecem problemas antigos, alguns dos quais poderiam configurar retrocessos.

Considerando que não se pode separar a realidade da educação básica de outros fatores sociais e econômicos maiores, diria que estar matriculado nas escolas e contar com professores titulados não impede que um contingente considerável de crianças e de professores esteja vivendo, nas escolas, dificuldades de toda ordem: por exemplo, o mal-estar, especialmente nas escolas de periferia, dos grandes centros urbanos, relacionado a práticas de violência real e simbólica (violência física, consumo de drogas, porte de armas por crianças e jovens, professores e crianças com diagnóstico de depressão, relações pessoais desrespeitosas entre adultos e jovens).

Parece-me que temos atribuído à escola um sem-número de atribuições, não resolvidas no âmbito de outras instituições, públicas e privadas: os professores são chamados a atuar como educadores sexuais, educadores ambientais, substitutos de pais e psicólogos, seguranças, nutricionistas etc., de modo que – embora tais questões “transversais” tenham sua efetiva importância – as funções primordiais, ligadas à educação escolar, ficam em segundo plano. Questões relativas à produção do conhecimento, à própria formação ética, estética e moral parecem perder espaço.



Finalmente, diria que o problema da remuneração justa do trabalho do professor ainda permanece em aberto (e em falta), especialmente quando se trata do ensino público estadual.



 





Da forma como o ensino superior está sendo administrado atualmente, como você avalia a formação dos professores do ensino básico? Eles estão preparados para a sala de aula?





Embora haja ainda necessidade de formar um contingente significativo de professores no nível superior, não sou favorável à livre proliferação de escolas normais superiores ou a cursos de curta duração, nos quais praticamente desaparecem disciplinas e práticas relacionadas a uma formação mais ampla, filosófica, teórica, artística, sociológica, dos futuros professores. Tal formação teórica, associada a um aperfeiçoamento dos universitários no sentido de fazê-los professores-pesquisadores, parece-me que fica muitíssimo prejudicada nesses cursos de curta duração.




Penso igualmente que os quatro anos de um curso de pedagogia, por si só, não garantiriam a boa preparação dos professores para atuarem em sala de aula. Os currículos desses cursos precisariam estabelecer um nível de exigência maior, em relação à qualificação dos estudantes, especialmente quanto à leitura e à produção textual – elementos básicos nessa preparação.
 





 





Existe hoje algum modelo no Brasil em ensino fundamental e médio?





Algumas prefeituras municipais de vários Estados do Brasil têm tentado experiências que se tornaram uma espécie de modelo, especialmente no que se refere ao ensino fundamental – cito o caso da prefeitura de Porto Alegre (RS), especialmente nos 16 anos em que foi governada pelo PT; também o da prefeitura de Campinas (SP), até janeiro de 2004; há ainda o caso da Secretaria de Educação do município do Rio de Janeiro (RJ), nos últimos cinco anos especialmente. As tentativas são muitas, e uma delas tem provocado intenso debate: a organização curricular por ciclos de formação, como ocorre na experiência do município de Porto Alegre.

Vários pesquisadores têm se debruçado sobre esse modo de organizar a vida das crianças e dos jovens na escola, apontando ora as visíveis melhorias para os alunos, especialmente os mais desfavorecidos social e economicamente, uma vez que, por essa prática, estariam evadindo-se bem menos; ou seja, teriam assim maior acolhida dentro do sistema escolar. Por outro lado, essa mesma prática poderia estar facilitando um ensino menos exigente e, ainda, propiciando que mais e mais crianças permaneçam em turmas de progressão, socialmente desprestigiadas.

Em suma, não há modelos e nem sei se deveria haver. As escolas poderiam, a meu ver, fazer mais e mais tentativas, dentro de um ambiente aberto, embora sujeitas às normas básicas, propostas pelo sistema público de educação, seja ele federal, estadual ou municipal.



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