Ritual de amadurecimento

Pedagoga acredita que a prática de contar histórias possibilita discutir importantes aspectos do cotidiano das crianças

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Contar histórias é também uma forma de ensinar questões éticas e cidadania. Esse é um dos preceitos que defende a pedagoga Madalena Monteiro, professora de classe do pré na escola Vera Cruz, de São Paulo (SP).

Para ela, já é possível despertar em crianças de 6 anos o gosto pela leitura, incentivado por contos de tradição oral. Analisando o tipo de comportamento de seus alunos, Madalena faz a escolha das histórias para ajudálos a mudar de postura e amadurecer.

“Escolho as que trazem questões do cotidiano deles, coisas importantes de serem discutidas, em vez de ficar fazendo discursos”, explica. Em entrevista a Educação, a pedagoga discute a influência das histórias na formação das crianças.



Qual o papel de contar histórias no processo de aprendizagem?

A história de tradição oral traz muitos conteúdos que são importantes para a formação de um cidadão, como 



 dizia Câmara Cascudo. Conteúdos éticos, reflexões necessárias sobre a vida, com as quais colocamos as crianças em contato por meio das histórias.

Além disso, esses contos são valiosos porque trazem também a possibilidade da criação de imagens internas. O mundo hoje está cheio de imagens prontas e rápidas, é tudo urgente, e a capacidade de imaginar vai diminuindo. Outra possibilidade ímpar das histórias é que cada um a escuta de uma forma diferente da do outro, e o que eu vejo quando estou contando nem sempre é o que quem está escutando vai enxergar. É um contato muito especial, com olho no olho, não tem o livro para mediar.



Quando você conta histórias, usa outros recursos além da própria voz?

Costumo usar poucas vezes outros recursos. Tenho observado nesses anos de experiência que não são os recursos que prendem a atenção da audiência, ainda que as crianças sejam pequenas. O que prende é a sua capacidade de estar presente na história, para contar com veracidade, como se aquilo tivesse acontecido com você, ou como se tivesse presenciado.

Os recursos, às vezes, chegam a distanciar a criança da história, porque chamam a atenção para um determinado objeto mais do que para a história em si. Quando se decide por usar outros recursos, eles devem ser muito estudados antes, como serão usados e que atributos estão sendo dados para aquilo, para que não tomem o lugar da história, que é o mais importante.



O ato de contar histórias incentiva os alunos à leitura, ainda que eles sejam pequenos?



Incentiva, com certeza, porque quando você conta histórias oferece um mundo imaginário que encanta a criança, e ela sabe que pode procurar isso nos livros.

Então, sabe onde encontrar uma experiência parecida, na qual poderá vivenciar coisas que no dia-a-dia não são possíveis.

Essa é a semelhança entre ouvir uma história do contador de histórias e de lê-la em um livro: poder viajar e, no final, na maioria das vezes encontrar um final feliz, que nem sempre é possível na vida. Acredito que o gosto pelos livros já se manifesta com crianças de 6 anos, ainda que existam poucas leitoras.

Se eu conto uma história e falo que existe um livro com aquela fábula, vou à biblioteca depois e vejo que tem lista de espera por aquela obra. São crianças de 6 anos, a maioria não consegue ler sozinha, mas ainda assim eles criaram tal vínculo com as histórias que querem levar os livros para casa e ter novamente o contato com o que foi ouvido.



É muito difícil prender a atenção das crianças de 6 anos?

A experiência que eu tenho é que não. São crianças muito participativas. Quando ouvem, querem conversar com a história, ou com o contador, no caso. Existe um limiar entre o que é a criança participar e estar desconectada ou agitada. Acredito que é necessário ter uma certa sensibilidade para descobrir o que está acontecendo, se é mesmo uma agitação ou se é a vontade de poder participar da experiência de alguma forma.

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