Ritos e passagens

A importância de viver experiências distintas em instituições de caráter diverso, como família e escola

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O dia amanheceu quente e ensolarado. Um pouco apreensivo, mas solenemente, levei minha filha para seu primeiro dia na escola. Minhas recordações da infância se mesclaram às novas ansiedades de pai e às revisitadas reflexões de professor. Amalgamadas, procuravam compor um sentido para essa experiência marcante por meio da qual uma criança acrescenta uma nova dimensão social à sua existência. Ao ingressar numa instituição escolar, a criança, que até então era concebida fundamentalmente como um filho, torna-se um aluno.

Nessas décadas que separam nossas experiências de iniciação, as práticas escolares e pré-escolares transformaram-se substancialmente. No entanto, aspectos relativos ao significado desse momento de transição ainda parecem guardar sentidos bastante semelhantes, em que pese a distância do tempo e a variedade das formas. Lembro-me da caminhada, de mãos dadas com minha mãe, até a porta da escola. Estava entusiasmado com meu uniforme – calções azuis e camisa branca – e sentia-me prestes a participar de uma nova categoria de seres mais velhos e mais respeitáveis. Mas um imenso portão de ferro cinza, até então despercebido, foi se fechando subitamente e em segundos havia entre mim e meu mundo familiar pregresso um fosso.

A imagem indelével do portão a separar o filho do aluno contrasta com a transição bem mais suave – e precoce – a que as crianças são hoje submetidas. E é bom que assim o seja, desde que a separação, mesmo que cuidada e gradual, não se obscureça. Família e escola têm interesses comuns, mas também perspectivas e procedimentos distintos e, por vezes, conflitantes. O ideal de uma fusão ou pelo menos de uma profunda harmonia entre essas duas instituições não é só irrealizável, é indesejável. Seu preço seria a descaracterização de ambas, com graves prejuízos às crianças, que se veriam privadas da pluralidade de experiências, da diversidade de modelos, da possibilidade de escolhas.

É na escola que o filho de pais religiosos tem a oportunidade de conviver com colegas ou professores ateus (ou, claro, vice-versa). Que a menina ruiva e tímida canta com aquele rapaz que seu irmão odeia, porque é negro, cheio de ginga e toca violão. Que o filho do analfabeto encontra um livro. É nela que potencialmente nos deparamos com experiências, valores e práticas que transcendem o universo privado do nosso lar. Nossos pais e irmãos nos são dados pelas contingências dos destinos; mestres e amigos são escolhidos entre professores e colegas.

A fusão e a identidade matam o diálogo, porque querem uma só voz, um só discurso, uma só razão, enfim, um logos único.

De tão propalado, o ideal de uma continuidade em harmonia completa entre essas duas instituições seria danoso para ambas, mas sobretudo para a criança, que se veria privada da oportunidade de conviver com duas experiências distintas e complementares: a de ser filho e a de ser aluno.


José Sérgio Fonseca de Carvalho

é d
outor em filosofia da educação pela Feusp.



jsfc@editorasegmento.com.br

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