Riqueza intuitiva

Educador chileno crê que a ativação simultânea das capacidades de sentir e pensar, estimulada pelas novas mídias, pode nos levar a uma síntese melhor entre razão, emoção e valores

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As novas mídias podem conectar duas dimensões que acostumamos a pensar como separadas, a lógica


Juan Eduardo García-Huidobro

dedutiva e aquela ligada ao sensível e às artes. É uma das possibilidades que o educador chileno Juan Eduardo García-Huidobro, diretor do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Educação (Cide), do Chile, vislumbra com o uso cada vez mais freqüente da internet e das outras linguagens audiovisuais. Para o estudioso, que esteve envolvido com as políticas públicas chilenas para educação nos anos 90, é imperativo que o estudo da linguagem audiovisual seja incorporado ao currículo escolar. Veja, a seguir, a entrevista concedida ao editor Rubem Barros por ocasião de sua participação no seminário "Mudanças Educativas na Sociedade da Informação", promovido pela Organização dos Estados Ibero-americanos e pela Fundação Santillana.


Até que ponto com o uso atual dos recursos audiovisuais não estamos voltando a práticas do Renascimento, quando instituições como a Igreja usavam imagens pictóricas e escultóricas para a educação de grandes populações?

Tenho a impressão de que não. O novo de agora não é que temos a imagem para o povo e o universo letrado para a classe dirigente, mas sim que todos, até mesmo a classe dirigente, começam a voltar-se para uma linguagem que é ao mesmo tempo literária e pictórica ou visual e auditiva. A segunda grande diferença é que essa linguagem digital, através do hipertexto e outros mecanismos, está rompendo com algo que foi essencial à linguagem escrita, tradicional, como aquela a que nos habituamos e com a qual a ciência e o pensamento ocidental se criaram, que é a sua linearidade, ou seja, se pensamos a ciência ou a filosofia, pensamos sempre dentro de uma lógica de antecedente e conseqüente. Com o digital, neste minuto temos antecedente e conseqüente, conseqüente e antecedente, começa a haver uma quebra em relação ao que tínhamos.


Como se traduz essa quebra no dia-a-dia? O que ela significa?

Há seis ou sete anos, me chamou a atenção o lançamento dos DVDs de grandes museus. Vi, então, que há duas maneiras de fazer essa visita digital. Uma pessoa de mais de 60 anos que vai olhar o Louvre começa a viajar sala a sala. Mas, ao entrar na primeira sala, algo a desperta e leva a outra coisa e a outra. De repente, está em algum lugar que não sabe mais onde é, e seu espírito lógico começa a entrar em desespero. Se passarmos o mesmo DVD para um garoto de 15 anos, ele se move por todos os locais sem se importar onde está o começo ou o final. Há outra lógica. O novo não é uma separação entre a imagem e o texto, e sim sua imbricação.  


Mas a internet acelerou o seu crescimento geometricamente a partir do fenômeno do You Tube e de outros sites do gênero, em que a imagem predomina…


A internet, no final das contas, é um meio, e esse meio tem popularidade diferenciada de acordo com a facilidade de acesso. Se quero me divertir, é melhor baixar vídeos do You Tube do que textos do Google. São coisas distintas. Mas, de todo jeito, há entre esses vídeos aqueles que ensinam o que é a Teoria da Relatividade – não todos, é claro. Você também pode encontrar algum de uma menina se masturbando. Mas, nesse que ensina a Teoria da Relatividade, também há texto, há mescla dessas coisas.


Sob esse ponto de vista, apenas a França está introduzindo estudos da linguagem audiovisual em seu currículo escolar. Não existe já um repertório audiovisual suficiente para pensar a história da humanidade por meio dessa linguagem?

Há dois aspectos aí: um é se devería­mos, na teoria da linguagem, incorporar ou não a linguagem audiovisual. Creio que sim. Isso já foi feito no currículo chileno em termos de que se supõe que há uma leitura [no audiovisual]. Quando se vê um filme, esse filme tem uma linguagem, tem um código que é decodificável. Tenho de saber que, quando assisto a um primeiro plano, eu emocionalmente reajo de uma maneira distinta de quando vejo um outro plano. Outra coisa, também interessante e em que estamos mais atrasados, é o uso da linguagem audiovisual para ensinar. Obviamente, se eu fosse ensinar a história da humanidade utilizando documentários que juntem a pintura, o teatro, a música, poderia haver uma riqueza enorme aí. Estudamos a música, a arquitetura, a guerra, tudo separado. Há uma possibilidade de integração do conhecimento muito mais fácil, mais permeável e divertida através do audiovisual. Mas são duas coisas distintas. Uma tem que ver com código, decodificação, com a linguagem audiovisual como veículo de argumentação e de comunicação humana; e a outra com até que ponto se usa esse veículo no ensino. O primeiro deve ser feito de qualquer maneira; o outro, na medida em que tivermos uma maior cultura audiovisual.


E essa primeira abordagem acontece em que etapa da educação no Chile?

No currículo do ensino médio. Assim como há a linguagem literária, ligada ao fantástico, à literatura, há também aproximações com a linguagem argumentativa, que está mais próxima de ensaios e publicações periódicas. E há também uma aproximação com uma linguagem específica, ligada ao audiovisual, que basicamente estuda o que é televisão, cinema e, recentemente, internet.


Como o senhor acha que essas novas linguagens estão modificando a forma de pensar dos mais jovens?

Já temos algumas investigações e bastantes dados em termos mais concretos sobre o que se chama de multitarefa, ou seja, o tipo de jogo em que a pessoa tem de fazer uma tarefa ao mesmo tempo em que conversa em um chat com outras três ou quatro. Há algo que acontece no cérebro – e que não acontece no nosso cérebro [dos mais velhos]. As investigações apontam que a maior facilidade para multitarefas depende de qual é o seu desempenho nos jogos, de quanto você jogou, se não jogou, em resumo, o consumo de internet e audiovisual versus as capacidades cognitivas novas. Outra coisa, sobre a qual ainda não há muitas pesquisas é o fato de termos a imagem, a palavra escrita e o áudio ao mesmo tempo. Porque a separação entre os lados direito e esquerdo do cérebro está relacionada com o desenvolvimento do pensamento, no qual nós, quando queremos sentir e nos emocionar, usamos o lado artístico e, quando queremos resolver problemas, mudamos para o lado lógico. E todas as pesquisas nos dizem que as emoções são um substrato do nosso pensamento. Uma pessoa pensa de forma diferente quando está feliz ou chateada; pensa diferente quando está em uma situação de conflito ou de relaxamento, ou ainda quando se trata de seu filho ou do filho do vizinho. Essa aproximação das duas coisas – nos emocionamos com uma imagem ao mesmo tempo em que lemos o texto que a explica – talvez possa nos dar uma capacidade mais rica para intuir, que sintetizaria melhor o que são a emoção, os valores e o pensar, três âmbitos que até então caminhavam separados.


Mas, na medida em que muitas coisas são feitas ao mesmo tempo, isso não prejudica a capacidade do agir, ou seja, a dimensão ética da ação?


O jovem de hoje tem dois tipos de estímulos distintos, que são contraditórios se os compararmos com as gerações anteriores: por um lado têm muito mais estímulos num mundo muito mais rápido e com coisas simultâneas, mas que também os incentivam a dar sentido à vida, coisa que os mais velhos não tinham. Se olhamos para a organização social de 40, 50 atrás, ela própria atribuía sentido ao que se fizesse. Você escolhia aos 18 anos ser médico ou professor e sua vida já estava organizada, já sabia tudo o que tinha de fazer. Hoje em dia se pode ser médico ou professor de 20 maneiras diferentes. Então, há uma tensão em que por um lado há muito mais estímulos e, por outro, há muito mais capacidade de individuação. Ou seja, o indivíduo está muito mais pressionado a fazer escolhas, opções. E isso é um dos maiores dramas atuais. A grande quantidade de pessoas com depressão tem que ver com isso, pois é muito difícil escolher o tempo todo. Eu tenho de sintetizar a capacidade de ser eu mesmo, de dar respostas sociais sendo solidário com os outros e de dar um sentido à vida. E isso não é fácil. Ser capaz de fazer, de sentir e de atribuir valores ao mesmo tempo é muito complexo.


O professor não está sofrendo mais do que o aluno com isso?


Por uma característica da sociedade contemporânea, o professor hoje tem de entrar em uma série de domínios em que antes não entrava. Tem de dar muito mais sustentação emocional ao aluno, pois a família está muito destruída, pais e mães trabalham o dia todo, as crianças estão sozinhas, as famílias são mais nucleares, com menos tios e avós que ajudem, o que pede mais afetividade. Há também demanda por ensinamentos morais, que sabemos dar. Então, há essas demandas e, por outro lado, existe algo complicado, pois, como o conhecimento hoje é uma moeda de troca, que tem que ver com riqueza social, o professor está sendo julgado pela sociedade, pelo Estado, pelas empresas em função dos resultados dos alunos. Está tendo de ter um trabalho muito mais complexo e difícil, e pelo qual se sente mais inseguro, e já não é o herói que está civilizando a sociedade, e sim um pobre sujeito que tem de fazer com que seu aluno aprenda, queira ele ou não aprender.


Hoje, muitas crianças estão sendo alfabetizadas ao mesmo tempo em que já utilizam o computador. Seu desenvolvimento motor provavelmente não será o mesmo que tivemos. Isso pode trazer algum prejuízo ou é mera substituição?

Este é um tema que está em aberto. As pessoas mais ligadas à tecnologia de ponta acham que esse enorme esforço que fazemos para que as crianças aprendam a dominar o lápis é inútil, que faríamos muito melhor se os estimulássemos a desenvolver a motricidade fina utilizando o teclado. Tenho a impressão de que é uma discussão que virá, na qual talvez o único precedente que temos é o uso ou não da calculadora em sala de aula, assunto para o qual até hoje existem duas posições: os professores de matemática que crêem que o cálculo mental é algo que exercita o cérebro e, portanto, necessário; e aqueles que dizem "olha, se a calculadora resolve o problema da operação matemática, nos dá tempo para que nós e os alunos pensemos no raciocínio matemático". Creio que o melhor caminho é o intermediário, em que nenhuma das duas posições prevalece totalmente. Ou seja, proibir a calculadora em classe parece pouco comum, mas por outro lado o fato de que uma pessoa não tenha a capacidade de calcular aproximadamente que área tem uma sala também não é desejável, pois necessitamos saber fazer cálculos mentais em algum nível, ao menos. No outro exemplo, acontece o mesmo: talvez a caligrafia, como a aprendemos, tenha acabado. Mas algum nível de linguagem escrita manualmente se manterá por muitos anos.

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