Revolução em prática

Aplicativos, jogos on-line, sistemas de colaboração e plataformas de vídeo sociais estão transformando o ensino superior em todo o mundo por Felipe Falleti Os …

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Aplicativos, jogos on-line, sistemas de colaboração e plataformas de vídeo sociais estão transformando o ensino superior em todo o mundo

por Felipe Falleti

182_24Os conteúdos de cada aula são publicados, com meses de antecedência, numa plataforma on-line, que pode ser acessada pelos alunos a qualquer momento, de qualquer dispositivo. As provas e exames não estão agendados e podem acontecer a qualquer instante, mesmo fora da sala de aula. Alunos não pertencem a uma turma, mas frequentam aulas ora com um grupo heterogêneo, composto por estudantes de diferentes carreiras, ora por convidados do mercado, em palestras que podem ser presenciais ou virtuais. Ao final de todo o processo, a trajetória do aluno, sua frequência aos encontros universitários, notas em exames e desempenho em trabalhos de grupo ficam gravados em um sistema em nuvem, acessíveis pelo aluno e por seus professores.

O método aparentemente anárquico e altamente sofisticado, do ponto de vista tecnológico, é usado por Kurt Fischer, professor de es­tatística e inovação na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. De acordo com Fischer, a tecnologia embarcada permitiu acelerar o processo de aprendizagem ao mesmo tempo que desestruturou formas consagradas de ensinar. “Há 15 anos, havia muito medo de que a tecnologia fosse apenas uma firula nas salas de aula e um temor ainda maior de que essas ferramentas dispersassem os alunos. Nós tínhamos receio de substituir um sistema consagrado e, até certo ponto, eficiente, por outro ainda não testado. Mas os resultados estão sendo impressionantes e, acredito, não há como voltar atrás agora. Universidades do mundo todo deverão seguir esta tendência, conta o estatístico, que ajudou Harvard a digitalizar suas aulas e criar processos de ensino virtuais.

Nas faculdades brasileiras a adoção de tecnologias on-line também acontece, ainda que sem a mesma visibilidade de instituições como Harvard. Na Fundação Armando Álvares Pentea­do (Faap), em São Paulo, a professora Paula Carvalho Pereda recorre a vídeos do TED, plataforma de palestras on-line que reúne apresentações de nomes consagrados como ex-presidentes, empresários e cientistas vencedores de prêmios Nobel, e materiais di­­dáticos da Khan Aca­demy, estúdio de pro­dução de vídeos educacionais mais co­nhe­cido no mundo.

“Usamos a tec­no­­logia como uma forma de oferecer um con­­teúdo mais qua­lifica­do a nossos alunos, mas também co­mo um meio mais eficaz de prender sua atenção e fazê-los sentirem-se motiva­dos com os estudos”, conta Paula. Na Faap, provas e cursos são realizados por meio de uma plataforma de colaboração em nuvem, a Blackboard. “Nosso diretor comenta que a sala de aula mudou pouco desde a Idade Média para cá, com alunos sentados em carteiras e um professor na frente de um quadro-negro. Com os recursos de tecnologia, estamos mudando isso”, afirma Paula.

Desempenho em tempo real
Uma das ferramentas de ensino que permite acompanhar, em tempo real, o entendimento dos alunos e notar áreas de proficiência e deficiência na sala de aula foi desenvolvida em Minas Gerais pela empresa Starline. A fabricante de soluções de tecnologia criou uma aplicação para gestão de provas e conhecimento que permite aos professores aferir sempre que quiserem a compreensão de conteúdos discutidos em sala de aula. “O Sistema de Gestão de Provas (SGP) pode ser acessado tanto em dispositivos móveis como em desktops. A ideia é que o professor crie no sistema um banco de questões e soluções de exercícios dos mais variados assuntos e possa aplicá-lo aos alunos nos momentos em que achar mais pertinente, colhendo resultados instantaneamente”, conta Adriano Guimarães, presidente da Starline.

Um professor que ensine, por exemplo, o cálculo de frações pode, ao final do dia, aplicar uma prova para seus alunos, com exercícios previamente cadastrados no banco da SGP. Os alunos, então, têm a possibilidade de responder às perguntas na própria sala de aula, se tiverem acesso a um tablet ou PC, ou a caminho de casa, em seu smartphone. Os resultados são processados em tempo real e o professor obtém um relatório do desempenho da turma. “Com esses dados em mãos, o mestre pode modificar seu cronograma de aulas para o dia seguinte. Se a turma foi bem, é hora de avançar para um novo tópico ou abordar questões mais sofisticadas do assunto tratado no dia anterior. Se apenas um grupo foi bem, é possível agendar uma aula extra com os alunos de menor desempenho, para tirar dúvidas e explorar melhor aquele conteúdo”, conta Guimarães. O software criado pela Starline é hoje usado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas) e pelo grupo Ibmec.

Baseados nas estatísticas obtidas com este tipo de software, os professores podem ainda recorrer a conteúdos em diferentes formatos audiovisuais, como vídeos do YouTube, TED e até HangOuts, nome dado às palestras feitas pela web em que o espectador pode intervir, por texto ou vídeo, enviando dúvidas, apresentando perguntas ou comentando conteúdos debatidos.

A adoção de vídeos on-line como método de estudo foi, por exemplo, o principal fator a impulsionar a Khan Academy, cujo conteúdo é adotado no Brasil em escolas como a Faap. A revolução causada por novas plataformas de ensino é tão grande que Salman Khan, criador do sistema, arrisca dizer que em cinco anos as salas de aula, em faculdades, deixarão de existir. “A tendência é que as salas sejam substituídas por ambientes de encontro, orientação e debate sobre temas estudados previamente, com a mistura de alunos de anos diferentes e professores de áreas distintas”, afirma Khan.

Tantas mudanças num espaço de pouco mais de uma década estão levando as instituições de ensino superior a reformular o que esperam de seus alunos e professores. Nesse cenário, é provável que os mestres recorram menos a aulas expositivas e ao uso da lousa e trabalhem mais como guias de pesquisa, orientados pelo ritmo dos anos. As apostilas e cadernos podem não deixar de existir, mas conviverão, cada vez mais, com sites de conteúdo e aplicativos. Por outro lado, é provável que os alunos tendam a se misturar mais, envolvendo estudantes de comunicação, exatas e biológicas em disciplinas comuns, de forma mais parecida com o que ocorre fora da universidade, em que projetos de mercado envolvem equipes multidisciplinares.

Cinco tendências em ascensão no ensino superior
A chegada de novos aparatos tecnológicos e programas dentro da sala de aula promete acelerar o processo de aprendizagem e descobrir talentos que poderiam se perder se o aluno desistisse do estudo por se sentir desestimulado. Veja cinco tendências do uso de novos recursos na educação:1) Gameficação
Jogos de simulação empresarial, desafios on-line de matemática e sistemas de premiação com badges (emblemas) virtuais ao estilo do aplicativo Foursquare ou de redes como Xbox Live e PlayStation Network ganham espaço.2) Vídeos on-line ao estilo TED
Apresentação de palestras virtuais de convidados célebres e em formatos segmentados e dinâmicos prendem a atenção dos alunos e os colocam em contato com grandes nomes de suas áreas de estudo.3) Provas instantâneas
Softwares com exercícios pré-cadastrados permitem que professores apliquem exames rápidos logo após explicar um conteúdo e obtenham uma medida de quem aprendeu mais e quem ainda precisa de um reforço.4) Aplicativos
Apps para os alunos anotarem as datas de provas, criarem cronogramas de estudos ou mesmo realizarem testes e consumirem conteúdos didáticos em casa, no transporte público ou em sala de aula, ganham espaço no seu dia a dia.5) Turmas misturadas
Com a definição de grupos de alunos mais avançados e de outros com menos adaptação a determinados conteúdos, a tendência é a formação de novas turmas com estudantes de cursos e semestres diferentes nas faculdades.

 

Planejamento baseado em dados
A adoção de sistemas on-line nas salas de aula, por muito tempo, foi alvo do questionamento de muitos especialistas. Havia o temor de que as instituições de ensino investissem demais em equipamentos sofisticados e deixassem de lado o preparo de seus mestres e a atenção aos alunos. Em parte, esse receio se confirmou, uma vez que faculdades do mundo todo colheram fracassos pontuais ao distribuir computadores sem obter, em contrapartida, ganhos no desempenho dos alunos. De acordo com o pesquisador americano Daniel Willigham, autor do livro Por que os alunos não gostam da escola, muitos erros foram cometidos por falhas no investimento em inteligência de dados. “Digitalizar aulas e adotar ferramentas on-line oferecem formas incríveis de medir resultados, de perceber quais conteúdos estão sendo mais e menos bem absorvidos. Um dos segredos das experiências bem-sucedidas é transformar esses dados em inputs para melhorar o aprendizado dos alunos”, conta. Willigham defende a ideia de que a análise de dados on-line do desempenho dos alunos permite aumentar sua motivação na sala de aula. “Notamos que os alunos com melhor performance são aqueles que se sentem desafiados a superar limites. Se os exercícios são muito fáceis, a turma perde a motivação. Se são muito difíceis, pior ainda”, diz.

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