Retratos falantes

Breve exercício de leitura da face como texto

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“O que há de mais profundo no homem é a pele”, dizia o poeta francês Paul Valéry. Na superfície de um rosto, captam-se os movimentos da alma. Na leitura das linhas e entrelinhas faciais, análise e contemplação devem convergir. Um olhar de devaneio, um traço de dor, uma expressão de perplexidade, um sorriso tímido, tudo isso diz muito. Ler esses “textos” (aliás, sem as aspas: cada rosto realmente é um texto) nos faz exercer a docência humanizadora.

Os retratos são de cinco escritores que tiveram suas experiências como alunos e, na maior parte dos casos, lecionaram profissionalmente. Ler esses rostos é exercício de intuição, com base em registros físicos evidentes… e eloquentes: os retratos falam.

 

Retrato nº 1: mente explosiva

Fiódor Dostoiévski (1821-1881)

A testa de Dostoiévski, testa ampla, guarda um universo paralelo. No subsolo da memória, crimes e castigos se acumulam. Um grande cérebro repleto de emoções sobrecarrega os olhos do escritor russo. Sua mente complexa pode explodir a qualquer hora, e realmente explodiu em romances insuperáveis.

A barba desigual esconde parte do rosto e do pescoço. Traços de tensão no conjunto da face denunciam reservas de angústia. Na boca, a sombra de um sorriso, mas a alegria se recusa a surgir. O escritor vive de solidão. Desde criança, obedecendo ao pai, foi educado numa escola militar de engenharia. Não era seu lugar, e ali aprendeu a se tornar um grande solitário.

Retrato nº 2: doce tristeza

Mário de Andrade (1893-1945)

Sobrancelhas levemente arqueadas, lábios grossos, prognatismo acentuado, queixo quadrado. No olhar, doçura e tristeza misturadas. De onde vem esta tristeza mansa? Um choro escondido por trás dos óculos e da gravata. Muitas palavras dentro de sua boca, reservadas para ouvidos generosos.

Esta foto é de 1928, depois de sua viagem ao Norte do país, onde realizou pesquisas culturais. Muito aprendia em leituras e andanças. Por isso era um bom professor. Apesar de tudo, inseguro: preparava as aulas uma a uma, detalhadamente, por se sentir incapaz de improvisar.

 Retrato nº 3: irreverência coerente

Bertrand Russell (1872-1970)

Matemático e filósofo, o inglês Bertrand Russell viveu até os 97 anos. O sorriso irônico, aristocrático, repudiava a lógica da morte. Parece, na foto, que veio andando contra o vento, desafiando-o.

Fundou uma escola experimental que durou pouco tempo. A escola prosseguiu sem ele, mas era a sua “cara”: tinha suas qualidades e defeitos. Mas se já não é fácil viver como indivíduo irreverente e lógico ao mesmo tempo, imagine-se uma instituição com este perfil.

Retrato nº 4: caça às palavras

Samuel Beckett (1906-1989)

Seus cabelos parecem a plumagem de um pássaro caçador: um caçador de palavras. Nem precisa dos óculos para ver mais longe. Está pronto para escrever.

O queixo curto, olhos claros, pele riscada em rugas (como se fossem cicatrizes), nariz em aguilhão, rosto que exala coragem, e coragem teve quando lutou contra o nazismo aos 35 anos de idade. Samuel Beckett trabalhou algum tempo como professor de inglês e francês, mas não gostava de dar aulas. Preferiu ensinar de outro modo, escrevendo sobre o que via na vida de absurdo.

Retrato nº 5: alegria educadora

Ariano Suassuna (1927- 2014)

As sobrancelhas em desalinho, o sorriso a caminho de uma gargalhada. Olhos pequenos, mas visão profunda.

O rosto em êxtase de Ariano Suassuna não tinha mais idade. Esse é o segredo da eterna juventude. Continuar aprendendo e ensinando. A ternura, a simplicidade e a veemência, as intransigentes regionalidade e universalidade faziam parte de sua fisionomia docente.

As aulas-espetáculo do mestre Suassuna criavam espaço para o conhecimento e a alegria. E a alegria, tal como a angústia ou a tristeza, fica estampada no rosto: as aparências não enganam.

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