Retratos do Brasil

No mês dos professores, Educação mostra experiências de quem trabalha em sala de aula

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Renilde Garibotti, professora de educação física em Agronômica (SC), levou um soco no rosto, porque pedira para um aluno parar de assobiar – Andy trazia na mochila um revólver 38, comprado no Morro do 25.


Márcio Sampaio Sodré, conhecido pelos adolescentes de Salvador (BA) como Shyna, conta com salas 3D, lousas digitais e livros eletrônicos para ensinar de forma lúdica e prazerosa os problemas de raciocínio lógico.


Quando não consegue carona de cavalo com o marido, Eliane Almeida Costa caminha duas horas e meia até a Escola Maria Ilza de Souza, onde alfabetiza 17 moradores da comunidade quilombola do Gorutuba (MG).


Andreas Panse, educador suíço, fala e escreve num português quase impecável, após um ano e meio em São Paulo – para aumentar o vocabulário, ele lê jornais diariamente e revistas semanais.


Dona Marivalda Oliveira das Chagas, com 33 anos de atuação na rede pública de Angical (BA), nunca conseguiu ter um telefone e confessa que evita ir ao mercado, porque sente vontade de comprar coisas que o salário de R$ 350 jamais pagaria.
 
“Se eu tivesse essa cabeça quando era mais novo, jamais pararia de estudar”, costumam desabafar os alunos de Nágela Hatschbach Freitas, jovem educadora de adultos, em Joinville (SC).


Maiua Meg Poanpo Txicão, professor do Xingu (MT), concluiu o 3º grau indígena na Universidade do Estado de Mato Grosso e, quando não está caçando macacos, pombas, tucanos e pacas, conversa com antropólogos franceses pelo MSN.

Palavras como braile, bengala, reglete, livro falado e soroban fazem parte do vocabulário da paulista Maria Christina Nassif há 40 anos.


A seguir, suas histórias.

“Eu não queria ser professora” – Nágela


“Certa vez, quando me acidentei de moto e chamaram os paramédicos, surpreendi-me ao ser atendida por uma moça que havia estudado comigo dois anos atrás”, lembra Nágela Hatschbach Freitas, 26 anos. “Ela contou que minhas aulas a encorajaram a fazer um curso técnico na área da saúde e que aquela era a melhor forma de agradecer o conhecimento que eu havia lhe proporcionado.”








Nágela Hatschback Freitas: jovens e adultos “vêm para a escola com maior disposição, dedicação e interesse para aprender”
Pouco mais de dois anos antes desse episódio, Nágela arrancara olhares desconfiados da direção do Centro de Educação de Jovens e Adultos (Ceja), em Joinville (SC), no seu primeiro dia de trabalho. Nascida em Rio Negro (PR), ela diz que escolheu atuar com esse público porque, apesar de apresentarem mais dificuldades do que os meninos do ensino regular (pois trabalham e têm outros afazeres diários), eles vêm para a escola com mais disposição, dedicação e interesse para aprender.


“Se eu tivesse essa cabeça quando era mais novo, jamais pararia de estudar” – esse é o desabafo mais comum. O desafio, segundo Nágela, é fazê-los acreditar neles mesmos, pois muitos acham que não são capazes, por conta da baixa auto-estima.
Em suas oito turmas, de ensino fundamental (ciências) e médio (biologia e química), há proprietário de joalheria, bancários, diaristas, desempregados, cozinheiros, governanta e funcionários de empresas variadas. Os quatro alunos surdos acompanham as aulas com a ajuda de intérpretes da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Quem não tem onde deixar o filho pequeno o leva para a classe também.


“Além da diversidade de culturas, é preciso muito jogo de cintura para lidar com uma faixa etária que vai dos 18 anos aos… difícil de prever”, diz. A esperança de um emprego melhor aparece como principal motivo para retomar os estudos, seguida pela vontade de conviver com pessoas novas. “Muitos relatam que a família incentiva, perguntando o que estão aprendendo, mas há quem venha escondida do marido, por conta do ciúme.”


No sistema do Ceja, o aluno freqüenta uma disciplina por vez, durante três horas semanais, e dá seqüência às tarefas em casa. Junto com os conteúdos do ensino regular, são abordados, também, temas atuais e transversais, que façam parte de sua realidade. “Eles demoram mais para aprender assuntos que fujam do cotidiano.”


Durante 60 horas semanais, sem sala de informática ou laboratório, Nágela desenvolve projetos nas áreas de saúde e meio ambiente, sugerindo pesquisas de reportagens sobre o assunto, promovendo debates e realizando excursões a instituições como o Centro de Hematologia e Hemoterapia de Santa Catarina e a Fundação Pró-Rim.


“Primeiro, eu não queria ser professora, pois meus pais eram educadores e o salário sempre foi baixo pelo esforço e dedicação deles. Mas eu precisava pagar a faculdade de fonoaudiologia e acabei assumindo algumas aulas de biologia numa instituição escolar de ensino médio. Aí, como um colega bem me alertou, viciei”, lembra. Seus amigos de infância formaram-se farmacêuticos, assistentes sociais, nutricionistas, fisioterapeutas e psicólogos.


“Na Suíça, o professor é mais valorizado” – Andreas


“Durante uma aula de Estudos Suíços, em que eu ensinava os 26 cantões [estados], citei que o menor deles, Basiléia-Cidade, possuía uma área de 37 quilômetros quadrados. Nesse momento, um aluno levantou a mão e disse que seu pai tinha uma fazenda desse tamanho. Foi então que eu percebi como o perfil do estudante da Escola Suíço-Brasileira era privilegiado e o quanto o Brasil é grande. Para ser mais exato, o Brasil é 200 vezes maior do que a Suíça.”


Andreas Panse, 29 anos, nasceu em Winterthur, formou-se na Escola Superior de Pedagogia, em Zurique, e mudou para São Paulo em 2005, com a esposa (que conheceu num curso de inglês, em San Diego, nos EUA), porque gosta do jeito das pessoas e do clima. “Meus pais prefeririam que eu morasse mais perto deles. Interessante essa pergunta. Mostra que a família, no Brasil, é importante. Dificilmente me perguntariam isso na Suíça”, comenta.


Como já havia aprendido três línguas latinas no colégio (francês, italiano e latim), conta que foi razoavelmente fácil dominar o português. Ele amplia o vocabulário lendo jornais diariamente e sabe o que precisa aprimorar: a concordância do adjetivo com o gênero do substantivo, que  não existe na língua alemã.


Na escola, além de lecionar alemão para adolescentes da 7ª a 10ª série (equivalente ao segundo colegial) e estudos suíços para a 8ª série, ele também dá aulas de inglês para a 5ª. Como os alunos daqui são mais comunicativos, ele conta que investe nas atividades que exijam a participação oral. Brasileiros, suíços e alemães ficam na mesma classe, sendo divididos apenas nas aulas da língua materna de Andreas, com base no nível de conhecimento – quem não tem noção alguma passa por um sistema de adaptação.


“Gosto da liberdade de escolher os temas a serem abordados, fazendo com que um dia nunca seja igual ao outro”, diz. E compara: na Suíça, o professor recebe melhor e é mais valorizado. As diferenças não param por aí: “Aqui, o estudante bate no teu ombro e pergunta como você está, porque te considera um amigo. Lá isso é raríssimo. Essa proximidade pode ser uma vantagem ou desvantagem, dependendo da capacidade do profissional de conseguir balanceá-la.”


Se pudesse, Andreas  gostaria de perder menos tempo com as broncas nos estudantes indisciplinados. “Alguns pais deveriam ser mais rigorosos na educação de seus filhos e não deixar essa tarefa para a escola. Certos alunos não estão acostumados à imposição de limites. É preciso, ainda, ter muita paciência, principalmente com relação aos prazos de entrega dos trabalhos.”
Quando não está ensinando, o professor toca violão, gosta de comer fora e aproveitar a praia sempre que dá, já que sua terra natal não tem mar.


“Livro não cabe no orçamento” – Renilde


“Andy era um menino problemático, mas nunca havia se indisposto comigo”, conta Renilde Garibotti, 55 anos. “Até apertava minha bochecha para brincar. É que a maioria dos alunos costuma gostar das aulas de educação física. Mas, naquele dia, ele estava inquieto e agressivo. Não me deixava fazer a chamada e respondia o tempo inteiro com palavrões. Quando apontei a porta para sair e ele se recusou, xingando novamente, soltei um ‘puta que pariu a vó’, que é mania de italiano, e ele ficou louco, porque a avó já havia morrido, me acertando com um soco no rosto.”


Mais tarde, a polícia ainda encontrou em sua mochila um revólver 38, com duas balas usadas. “Acho que estava drogado. Nem ele esperava ter feito aquilo. Fiquei mal. Não tinha coragem de passar na frente da escola. Na hora, você quer morrer, se esconder do mundo, mas meu marido me convenceu a divulgar o caso para a imprensa local e hoje não me arrependo. O professor que sofre uma agressão em sala de aula não pode abandonar o barco, afinal, a culpa não é só do adolescente.”


A situação de violência e humilhação vivida por Renilde no Colégio Estadual Padre Anchieta, em Florianópolis (SC), deixou marcas amargas que excederam muito no ano de 2003. “Às vezes, eu me pego pensando por que escolhi trabalhar com educação. O professor, no Brasil, não tem o menor respeito dos estudantes e ainda ganha mal. Os culpados são os pais, que largam seus filhos, porque não têm mais tempo para nada. Passamos, então, 80% do tempo educando e só 20% ensinando, quando deveria ser o contrário.”


Se avisa que vai fechar o portão, Renilde lembra que as meninas a chamam de “vagabunda”. “Bruxa”, “velha” e “ignorante” são ofensas recorrentes nos seus 20 anos de rede pública. O Colégio Padre Anchieta atende crianças do Morro do 25, da Penitenciária e da Mariquinha.


Após o episódio de 2003, ela conta que abriu mão dos adolescentes e decidiu ficar apenas com as turmas até a 4ª série. “As crianças mais novas ainda guardam alguma admiração pelo educador.” Quando soube que Andy morreu, no começo deste ano, voltou a sentir vergonha de todos. “Nas ruas, as pessoas me olhavam como se eu fosse má.”


A família admira sua luta. “Riem quando acontecem coisas legais e também se entristecem.” Para ela, ser professor é “estar perto”, exercitar a compreensão e batalhar para que as coisas melhorem, para que os estudantes possam ter uma “escola decente”, para que suas vidas encontrem um rumo. “Ainda vale a pena receber aquele abraço de um menino ou encontrar um ex-aluno que está na faculdade”, confessa.


Por isso, ela acorda todos os dias às 6h30 e vai de bicicleta para o colégio. Para passar o tempo, lê romances, como os de Dan Brown, autor de O Código Da Vinci. “Somos 12, minha irmã e algumas amigas. Todo mês cada uma dá R$ 10 e compramos um livro novo, porque com o salário de educador nem isso cabe no orçamento.”


“Somos o caminho do desenvolvimento do mundo” – Eliane


Eliane Almeida Costa, 31 anos, acorda às 4h, cuida das tarefas domésticas, arruma os três filhos (5, 12 e 13 anos) para ir à escola e trabalha na roça, plantando milho, feijão, mandioca e amendoim. O que a família não consome é trocado na vizinhança ou vendido na cidade, uma vez por mês, quando veículos de empresas da região oferecem transporte gratuito. Ela mora numa das 27 comunidades quilombolas do Gorutuba (MG), que hoje ocupam exíguas frações de terra dos seus ancestrais, em meio a grandes fazendas de pecuária extensiva.


Duas noites por semana, porém, Eliane tem encontro marcado com Jesus Além (“uma escolha que pode abrir portas novas”). Esse é o nome de sua turma no programa de alfabetização BB Educar, da Fundação Banco do Brasil. Sem cartilhas, 17 alunos, com idade entre 22 e 75 anos assistem às aulas que resgatam a cultura dos quilombos.


Quando não consegue carona de cavalo com o marido, ela caminha 2 horas e meia até o colégio Maria Ilza de Souza, a 9 quilômetros de casa, para ganhar R$ 250. Se pudesse escolher outra profissão, afirma que continuaria lecionando, porque o “professor é o caminho do desenvolvimento do mundo”.


Apesar de não ter concluído o 1º grau, Eliane conta que pegou num giz pela primeira vez aos 18 anos, para ensinar crianças de 1ª a 4ª série. Mas o desafio, agora, tem outros contornos: “O aluno adulto é muito sensível e se desmotiva com as dificuldades. É preciso ter cuidado, ser paciente e inteligente para mantê-lo na escola.”


Como estratégia de persuasão, ela mostra exemplos em que pessoas analfabetas podem ser enganadas ou ficarem sujeitas a infortúnios como: dificuldades para viajar, ler a bula de um remédio ou o recado de um parente. “A conversa é essencial. Só assim  descobre-se o motivo deles estarem ali e, ao mesmo tempo, abre-se brechas para mostrar-lhes sua importância como cidadãos”, diz Eliane.


Certa vez, quando o coordenador pedagógico do BB Educar perguntou para um de seus alunos, com 35 anos, o que ele havia aprendido e recebeu como resposta um envergonhado “nada”, Eliane lembra que ficou com o coração “apertadinho”. Decidiram, então, submetê-lo a um teste e o rapaz, além de acertar todo o ditado, ainda leu um texto inteiro sem gaguejar. “Ele só achava que não sabia. Tinha a auto-estima baixa, mas, depois desse episódio, viu que era capaz”, orgulha-se.


No tempo livre, ela pesquisa a história do Brasil, nas obras da arca que a associação quilombola ganhou do re-ordenamento agrário, e se pudesse terminaria os estudos para se tornar uma “profissional atualizada”. Na esperança de acabar com o analfabetismo do Gorutuba, convenceu os pais a participar do programa e ajuda o marido, trabalhador da roça também, a perdero medo da escrita.


“Quem não enxerga tem dificuldade até para comer” – Maria Christina

“Há alguns anos, reencontrei uma ex-aluna que tinha baixa visão e, com as novas tecnologias, pôde fazer um transplante. Ela era professora da rede estadual e viera dirigindo de Santos para um congresso.” Conquistas aparentemente pequenas como essa fazem parte do cotidiano de Maria Christina Nassif, 60 anos, educadora da Fundação Dorina Nowill para Cegos, há mais de 40 anos.








Maria Christina Nassif: entre os deficientes visuais, tendência à rejeição ou à superproteção é muito forte
Ela nasceu em Atibaia (SP), e a única pessoa cega com quem tivera contato, antes de folhear um livro sobre educação do deficiente visual e decidir fazer o curso de especialização em São Paulo, era um senhor que pedia esmolas, figura um tanto folclórica no interior.


Hoje, casada e mãe de dois filhos, Maria Christina acorda às 5h45 todos os dias, para estar às 8h na fundação, onde é responsável pela alfabetização de 23 crianças (dos 6 anos à adolescência) e por apresentar o sistema braile para 16 adultos com perda de visão recente (dos 20 aos 94 anos, idade de um aluno padre).


 Para ela, não existe público complicado ou fácil de se trabalhar. “Os mais velhos costumam ter dificuldades nas questões emocionais e os pequenos encontram barreiras na família e na escola, já que a tendência à rejeição ou à superproteção é muito forte.” Ela conta que chegou a receber meninos grandes que ainda comiam com as mãos, porque os pais tiveram pena de cobrar o uso dos talheres.


O professor especializado deve ser persistente e acreditar na potencialidade do estudante. Maria Christina garante que o ritmo de aprendizagem de um deficiente visual é igual ao de qualquer outra pessoa; tudo o que ele fizer, se for “com dedicação”, “sairá bom da mesma forma”. “Aí, por meio de atividades variadas, a gente exercita o tato, o uso das duas mãos, o jeito certo de passar a ponta do dedo e a coordenação motora fina, já que uma excelente habilidade manual se faz essencial”, explica.


Nas atividades de apoio pedagógico, a educadora parte da metodologia escolar, adequando-a ao público com necessidades especiais. Para isso, conta com um acervo de livros em braile e falados, reglete (material com que se escreve o braile) e soroban (aparelho de cálculo, equivalente ao antigo ábaco). As explicações, orais, têm o privilégio de ser personalizadas, já que o horário de atendimento é individual.


Em orientação e mobilidade, são ensinadas técnicas específicas para locomoção. O aprendizado das práticas do cotidiano aborda tarefas como se vestir (a mais complexa de todas, segundo ela), comer ou encher um copo d’água sozinho. “Quem não enxerga tem dificuldade até para mastigar, porque não pode praticar pela imitação. Muitas crianças sequer engatinham. Elas não possuem conceitos mínimos, como grande, pequeno, áspero. Não conhecem o próprio corpo”, comenta.


Apesar de já ter trabalhado numa instituição de ensino só para baixa visão e cegueira, Maria Christina afirma que é dentro das escolas tradicionais que os meninos aprendem a viver de verdade. “Os colegas exigem que eles cresçam. Aí está a maior vantagem da inclusão.”


“Ficava duas horas no ônibus e passava fome” – Marivalda


Com o salário de R$ 380, Marivalda Oliveira das Chagas, 56 anos, compra arroz, feijão e lenha de cozinha – “porque nós somos caipiras, moça”. Nunca teve um telefone, diz que não tirou férias uma única vez em seus 33 anos de carreira na educação e evita ir ao mercado, pois sente vontade de levar tudo. “Olho para um lado, precisa de uma coisa, olho para o outro, precisa de outra. Melhor nem sair de casa mesmo. Aqui, minha filha, é só eu e Deus”, desabafa.








Marivalda Oliveira das Chagas: aprender a lidar com o desinteresse dos meninos por causa de dificuldades de aprendizagem
A professora atua na rede pública de Angical (BA) e deu sua primeira aula aos 19 anos, quando ainda nem havia concluído o magistério, no Colégio Aparício. Separada, criou sozinha os quatro filhos, hoje uma escadinha com 22, 23, 24 e 25 anos. Os mais velhos também se tornaram educadores (“porque, na época, essa era a opção de curso disponível”), mas lecionam apenas quando surge alguma vaga. O caçula trabalha em casa de família e o de 23 é gari.


A mãe, uma senhora de 91 anos, ainda mora com ela e, mesmo analfabeta, sempre lhe ensinou muito. “Quando eu era pequena, ela me ajudava com a lição de casa sem saber ler e escrever nadinha. Só pode ter sido um milagre”, orgulha-se. Apesar de não contar com horário certo para acordar, Marivalda diz que não costuma passar das 5h. Toma, então, um café ligeiro, para entrar na escola João Rodrigues do Nascimento às 8h. “Se perco o microônibus, dá perto de uma hora e meia de caminhada”, comenta.
Seus 16 alunos, do pré-primário e da 1ª série, aprendem a ler, escrever e “fazer continhas”. Não reclamam da lição de casa, mas o que mais gostam mesmo é de desenhar. O professor, segundo ela, precisa procurar coisas novas o tempo inteiro, planejar, pesquisar e saber lidar com o desinteresse que os meninos às vezes sentem, por causa das dificuldades de aprendizagem.


“Eu costumo conversar sempre, falar sobre Deus, explicar por que é importante estudar para alcançar melhores oportunidades”, conta. Como a escola tem apenas mais uma educadora, também de pré-primário, o único estudante de segunda série da cidade foi obrigado a matricular-se em outro município.


Às 12h, dona Marivalda volta para casa, faz o almoço (“uma coisinha rápida”), varre o chão e lava a roupa. No resto do tempo, corrige as tarefas dos pequenos e prepara o jantar. “Decidi ser professora, porque Deus me concedeu a graça. Eu gosto. Amo muito. Principalmente pela inteligência das crianças. Elas vivem me ensinando coisas novas.”


Mas, se pudesse, confessa que gostaria de se aposentar. O começo foi ainda mais sofrido. “Eu ficava duas horas dentro do ônibus e passava fome”, lembra. Por isso, aproveita as horas vagas para ler Salmos (o 123, de preferência) e pedir a Deus que coloque “tudo de bom” em suas mãos, na do seu vizinho “e do mundo inteiro”. Também conversa com os animais e adora estar com a criançada. “Elas me fazem feliz”, sorri.


No Dia do Professor, a educadora não ganha presentes (nem os simbólicos), mas costuma levar um bolinho, junto com a colega, para comemorar com brincadeiras de roda e cantorias.

“Os estudantes ficaram mais exigentes” – Márcio








Márcio Sampaio Sodré, o “Shyna”: economia de tempo com desenhos ilustrativos e maior eficiência nas explicações
Nas aulas de Márcio Sampaio Sodré, 36 anos, os alunos conseguem ver o que antes apenas imaginavam. Com as projeções em 3D, as imagens coloridas saltam da tela e giram em todos os ângulos, permitindo ao “professor Shyna”, como é conhecido, economizar tempo com os desenhos ilustrativos e alcançar maior eficiência nas explicações. A utilização de recursos tecnológicos na escola baiana Sartre nasceu da parceria com o Sistema COC, no final de 2004, quando Shyna – cujo hobby era a informática – foi convidado a capacitar seus colegas.


“Os educadores das escolas tradicionais acham que assim temos menos trabalho, mas não é verdade”, afirma. “Antigamente, eu pensava num modelo de aula e apenas colocava na ponta do giz. Agora, preciso pesquisar, montar um bom PowerPoint, inserir música para abordar conceitos de gramática, usar uma cena de documentário para mostrar certo fenômeno da natureza. Os estudantes, por outro lado, também ficaram mais exigentes.”


A escola dispõe, ainda, de livros eletrônicos com tarefas em forma de jogos, aulas do futuro, plantão de dúvidas on-line, telessalas (destinadas a palestras e cursos, via satélite), lousas eletrônicas e computadores conectados à internet, para consultas a qualquer momento. Segundo Shyna, os alunos aprendem brincando, de forma lúdica e prazerosa, o que favorece a compreensão. E até o número de ocorrências disciplinares caiu, pois a motivação para prestar atenção costuma superar os padrões convencionais.


“A primeira vez que fiz uma apresentação da instituição para um grupo de pais, fiquei encarregado de demonstrar como aproveitar a tecnologia em favor da educação e, ao final, fui aplaudido de pé”, lembra. “Uma mãe, inclusive, me procurou para falar que era da área e que seus receios com relação a esse tipo de recurso pedagógico haviam acabado. Foi maravilhoso.”


Hoje, além de propor problemas de raciocínio lógico para adolescentes da 8ª série e lecionar matemática para as turmas de 1ª a 3ª série do ensino médio e do pré-vestibular, Shyna ainda coordena o Centro de Apoio ao Professor (CAP) e assessora a direção.


Ele decidiu ser educador quando tinha a idade de seus meninos, por causa das explanações encantadoras de um antigo professor, chamado Ruben Soares. “A possibilidade de fazer o mesmo por outras pessoas, então, foi um fator decisivo”, diz. “E é fantástico quando vou a um consultório médico ou um escritório e encontro um ex-aluno, que fica rememorando minhas aulas, os velhos amigos, os outros educadores.”


Nascido em Jequié (BA) e formado em engenharia elétrica pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) em 1988, Shyna confessa que, embora não seja muito ligado a datas comemorativas, pretende bolar alguma coisa especial para levar à classe no Dia do Professor.


Fora da escola, ele coleciona quebra-cabeças (com dezenas de arames, cordões e pedaços de madeiras) e não perde a mania de assistir a filmes procurando partes que podem ser usadas numa aula de história, ou de geografia, ou de biologia…


“Às vezes, fico só no recesso, descansando” – Maiua








Maiua Meg Poanpo Txicão: atividades bilíngües abordam valores da cultura indígena e temas de interesse da comunidade
Quando o colega Korotowï convidou Maiua Meg Poanpo Txicão para participar do Projeto de Formação de Professores no Xingu (MT), desenvolvido pelo Instituto Socioambiental (ISA), ele aceitou porque havia muitos alunos para educar. “Meus pais achavam que era importante estudar e eu também queria aprender para ajudar meu povo”, lembra. O curso durou cinco anos e mesmo antes de concluí-lo, em 1999, Maiua já lecionava.


Hoje, com 28 anos, ele acorda às 4h, caminha até a Escola Indígena Estadual Central Ikpeng, que fica a 2 km de sua casa, e dá aulas no período da manhã e da tarde, para turmas de 5ª a 8ª série, além de supervisionar os professores novatos.
As atividades, bilíngües, abordam os valores da cultura indígena e temas de interesse da comunidade (como a questão da higiene bucal), junto com as tradicionais disciplinas de matemática, língua portuguesa, ciências e artes. “É preciso que as crianças cresçam conscientes para defender o território e seus recursos naturais, extremamente importantes para a nossa sobrevivência. E até mesmo para manter a tradição viva”, explica.


A maioria dos profissionais de saúde e dos educadores já é formada no povoado. Maiua conta que há a idéia de criar mais uma turma de ensino fundamental, com idade entre 15 e 25 anos, para 2008. “Temos planos de implantar o ensino médio, mas só mais para frente”, diz.


Ele cursou o terceiro grau indígena na Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), com “professores brancos”. Em junho deste ano, formou-se em ciências matemáticas e da natureza. Lá, também aprendeu a usar o MSN para conversar com amigos de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Amazonas. “Foi fácil demais”, lembra. Kallum Mahatma, seu nick, faz homenagem simultânea ao “pai mítico” e a Gandhi. Em sua lista de contatos, os educadores da própria Unemat ainda dividem espaço com antropólogos e lingüistas dos EUA e da França. Mas é com os parceiros do ISA que são travadas as discussões sobre a atuação em sala de aula.


A aldeia onde mora, com mais 370 pessoas, foi conectada à internet no início do ano, e os cinco computadores – que vieram de diversas instituições, como a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e a Associação Moygu – são usados para trabalhar e comunicar-se com os parceiros, como a Fundação Nacional do Índio (Funai), algumas ONGs e outros postos do Xingu.


Maiua tem quatro filhos – dois meninos (Mutua, com 8 anos, e Auri, com 5) e duas meninas (Raquel, com 7 anos, e Kaiulu, com 2) – e é casado com Mayawakulu, uma jovem de 22 anos, há dez. Gosta de ler para preparar os exercícios (de matemática, biologia e artes) e para se informar.
 
No tempo livre, embrenha-se no mato para caçar macacos, pombas, tucanos e pacas. Quem prepara é a mãe, junto com a esposa, que também faz beiju e mingau. Se numa semana sai com a comunidade para “bater timbó” (tipo de cipó para matar peixes), em outra está participando de intercâmbios culturais fora do Xingu, como o do Maranhão e de Manaus. “Às vezes, fico só no recesso, descansando.”

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